A guerra está a empurrar o Irão para o colapso do abastecimento de água

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Uma bola de fogo brilhante percorreu uma avenida de Teerão, tão tal velocidade que se pensou que era um ataque de drones. Mas o vídeo que correu pelas redes sociais não mostra uma explosão. O que se vê é uma longa cauda de chamas, que percorre o que era um canal onde antes havia água.

Várias publicações partilhadas nas redes sociais mostram o que parecem ser canais de drenagem a arder depois de ataques aéreos israelitas terem atingido depósitos de petróleo nos arredores de Teerão no fim-de-semana passado. A Bloomberg não conseguiu verificar os vídeos de forma independente.

Estas imagens são um exemplo brutal do estado a que chegou o sistema de abastecimento de água do Irão, que já se encontrava em péssimas condições antes da guerra, e agora está a chegar a zeros.

Teerão esteve prestes a atingir o chamado “Dia Zero” da água no fim do ano passado, com os reservatórios que abastecem a cidade de cerca de nove milhões de habitantes a ficarem secos.

Num gesto sem precedentes, o Presidente Masoud Pezeshkian divulgou em Novembro um vídeo em que avisava que, mesmo com racionamento, os habitantes de Teerão teriam de evacuar a cidade se não chovesse em breve.

O conflito que opõe os Estados Unidos e Israel ao Irão está a desenrolar-se na região mais carente de água do mundo e numa das mais afectadas pelas alterações climáticas.

“O Irão já não estava a ser capaz de se adaptar às consequências das alterações climáticas para a água”, afirmou Susanne Schmeier, professora de cooperação no domínio da água, direito e diplomacia no Instituto IHE Delft para a Educação sobre a Água, nos Países Baixos, que estuda há anos a crise da água no Irão.

A pior seca de sempre

Desde 2020, o país tem registado a pior seca de que há registo. Os anos com muito pouca chuva tornaram-se dez vezes mais prováveis do que eram antes da industrialização, de acordo com o consórcio científico internacional World Weather Attribution, que quantifica os efeitos do aquecimento global provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa devido à actividade humana em fenómenos climáticos extremos.

O aquecimento global está a agravar décadas de má gestão da água pelas autoridades iranianas, uma política agrícola intensiva em água e os efeitos das sanções internacionais contra o Estado iraniano, que impediram a importação de equipamentos essenciais para a manutenção das infra-estruturas hídricas.

“Há décadas que o Irão vive nesta crise de segurança da água”, disse Tom Ellison, director-adjunto do Centro para o Clima e a Segurança, parte do Conselho de Riscos Estratégicos, uma organização de investigação sem fins lucrativos, com sede em Washington, DC.

“Seja qual for o resultado deste conflito, o problema da escassez de água no Irão vai agravar-se”, assegurou Ellison.

O Irão é o 14º país mais afectado pelo stress hídrico a nível mundial e mais de quatro quintos dos seus 93 milhões de habitantes enfrentam um stress hídrico extremamente elevado, disse Liz Saccoccia, analista de segurança hídrica do think tank norte-americano World Resources Institute.

Nos tempos modernos, o Irão e outros países da região do Golfo Pérsico abordaram a escassez de água através da construção de sistemas centralizados que dependem de grandes infra-estruturas, como barragens e instalações de dessalinização, explicou Swathi Veeravalli, do Centro para o Clima e a Segurança.

A vulnerabilidade mais estratégica

Esta estratégia permitiu às cidades da região crescerem muito para além dos seus limites ecológicos, afirmou Veeravalli. “A água potável é a vulnerabilidade mais estratégica [do Irão]”, sublinhou.

“Estes sistemas centralizados de distribuição de água são fantásticos, excepto quando se tornam pontos únicos de falha, o que está a acontecer rapidamente neste momento.”

Uma central de dessalinização iraniana na ilha de Qeshm foi atacada a 7 de Março e, em resposta, o Irão atacou infra-estruturas de distribuição de água no Bahrein, o que suscita receios de ataques generalizados às infra-estruturas hídricas.

Mais de 40% da capacidade mundial de dessalinização encontra-se no Médio Oriente. No entanto, ao contrário de outros países da região, o Irão obtém pouca água potável das dessalinizadoras – apenas 3%. É muito pouco, em comparação com mais de metade na Arábia Saudita e 90% no Kuwait.

Apesar de uma longa história de gestão inventiva da água, desde a revolução de 1979, a República Islâmica tem construído infra-estruturas de água com pouca consideração pelas taxas de utilização

Nas últimas décadas, o Irão construiu novas infra-estruturas, mas o sistema é marcado pela má gestão, pela corrupção e por um planeamento improvisado.

“Máfia da água”

Os contratos foram adjudicados a aliados do Estado e dos militares, uma rede que ficou conhecida no Irão como a “máfia da água”. A frase ganhou atenção internacional em Maio, quando Trump a utilizou num discurso em Riad, na Arábia Saudita.

As sanções internacionais agravaram a situação, afastando empresas multinacionais da concorrência. Isto significa que os projectos nem sempre foram planeados de forma sistemática.

“Estas barragens e reservatórios não foram realmente construídos no âmbito de uma estratégia nacional coesa”, disse Eric Lob, professor de política e relações internacionais da Universidade Internacional da Florida e académico do Carnegie Endowment for International Peace.

“O que temos hoje é uma série ou uma rede de barragens e reservatórios que estão a funcionar muito abaixo da capacidade”, disse. Em Alguns casos, mais de 90% abaixo da capacidade.

As crises são enfrentadas com medidas paliativas de curto prazo, explicou Lob, como camiões-cisterna ou distribuição de garrafas.

A escassez de água tem provocado protestos nos últimos anos, particularmente em regiões como o Kuzestao, uma província do sul, e Isfahan, uma cidade central.

De um modo mais geral, as questões relacionadas com a água contribuíram para alimentar a raiva que desencadeou as grandes manifestações contra o Governo, e que levaram ao massacre de milhares de pessoas em Janeiro, de acordo com um relatório da Human Rights Activists News Agency, uma organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos humanos, sediada nos EUA.

Cerca de 90% da água do Irão destina-se à agricultura, que ganhou importância com o actual regime, que tenta tornar o país auto-suficiente.

Mas os agricultores estão a investir na produção de culturas que seriam mais eficientes noutros locais, ou que mais valeria importar, disse Rick Hogeboom, director executivo da organização de investigação sem fins lucrativos Water Footprint Network.

A agricultura também se expandiu para algumas das zonas mais áridas do país, onde as culturas necessitam de mais água. A utilização excessiva esgotou os aquíferos e águas subterrâneas e, consequentemente, fez com que Teerão, e outros locais, se estejam a afundar.

Um monstro de várias cabeças

“A grande questão é saber durante quanto tempo podem manter esta situação, quando o abastecimento de água é limitado”, disse Hogeboom, observando que é difícil ter acesso a dados sobre o que se passa no Irão fora do país.

A crise da água é “um monstro com várias vertentes e várias cabeças”, afirmou. Independentemente do tempo que durar o conflito, o Irão sairá dele com menos capacidade para enfrentar o problema.

À medida que o Irão sai da sua estação anual mais chuvosa e o calor e a secura do verão se aproximam, o espectro de 2023 aproxima-se: em Agosto desse ano, foi decretado um feriado de dois dias, porque as temperaturas atingiram os 50º C.

As projecções climáticas sugerem que o país irá registar temperaturas mais elevadas durante todo o ano e uma diminuição da precipitação, num cenário de aquecimento médio.

Investir e planear a adaptação é crucial, mas está fora de alcance. “Temos um Governo que está a travar numa guerra, sem governação adequada, sem acesso a tecnologia ou financiamento para tomar medidas de adaptação”, disse Schmeier.

“Isso torna as coisas piores.”

Com Golnar Motevalli

Exclusivo PÚBLICO/Bloomberg

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