A votação norte-coreana de Carneiro e a volatilização dos herdeiros de Costa

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José Luís Carneiro foi reeleito secretário-geral com quase 100% dos votos e ficou muito satisfeito: é agora o líder, daqueles que se sentam no Parlamento, eleito com o maior número de votos.

A sondagem SIC/Expresso desta semana foi animadora para o secretário-geral, uma vez que o PS consegue ultrapassar a barreira maldita de terceiro partido em que foi colocado nas últimas legislativas. PS e AD estão, neste momento, empatados, com o Chega mais cá atrás, e isso é obviamente uma óptima notícia para o PS.

A liderança de José Luís Carneiro tem corrido tão bem como correram todas as dos anteriores secretários-gerais que protagonizaram uma mudança de ciclo. Isto é, mal.

Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António José Seguro e Pedro Nuno Santos atravessaram as ruas da amargura — e até António Guterres, que chegou a primeiro-ministro, teve a sua performance muito criticada tanto por comentadores como, em privado, pelo Presidente da República Mário Soares.

A estratégia das cartas ao Governo evidentemente não funcionou. José Luís Carneiro anda demasiado sozinho ou só acompanhado por Eurico Brilhante Dias, o líder parlamentar (ainda existem membros do secretariado nacional do PS? E falam?). Tem alguma dificuldade de “marcar a agenda”. Quem já viu o filme antes não se surpreende. José Luís Carneiro não é o primeiro a percorrer o calvário do líder da oposição que tem a sorte ou o azar de suceder a um tempo longo do seu partido no Governo com todas as contradições que isso sempre acarreta.

Mas é indiscutível que o PS ainda não saiu do estado de choque em que viveu depois das eleições de Maio. A maior prova do estado de choque ou do caminho para a decadência é a falta de oposição interna a José Luís Carneiro. É um sintoma de desistência. Há pouco mais de um ano entrevistei António Campos que lembrou que Mário Soares nunca queria ter um congresso sem oposição interna.

Porque é que no ano da graça de 2026 não aparece ninguém a contestar a liderança de Carneiro? Porque preferem viver a paz dos cemitérios e esperar que, se for caso disso, Carneiro caia por si?

Depois da demissão de Pedro Nuno Santos, em Maio de 2025, quatro possíveis sucessores de António Costa assinaram uma carta a pedir uma “reflexão interna” e a apelar a que as eleições para secretário-geral fossem adiadas para depois das autárquicas. Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina, Duarte Cordeiro e Ana Catarina Mendes eram os subscritores. Com Pedro Nuno Santos, fizeram parte da “ala dos sucessores” que António Costa entendeu apresentar ao país no congresso de Portimão no fim de Agosto de 2021. Carneiro não fazia parte desta lista.

Na época, não compreendi a ideia de deixar o PS sem secretário-geral, num período delicado como umas eleições autárquicas, à espera de uma “reflexão” relativamente à qual ninguém explicou como se faria.

Agora, se os defensores da “reflexão” não se apresentaram, no ano passado, com uma moção ao congresso, nove meses depois era a hora para o fazer, em nome do pluralismo dentro do PS, da discussão de ideias diferentes. Pelo menos fazia-se a prova de que o partido está vivo (relativamente à qual há divergências).

Mariana Vieira da Silva é uma mulher com qualidades, que já foi número dois de António Costa no Governo. Ponderou desafiar Carneiro em Junho, mas desistiu por causa das autárquicas.

O que a leva agora a ficar parada, sem contribuir para o debate interno no seu partido? Quem fala em Mariana Vieira da Silva fala em outros: nem Fernando Medina, nem Duarte Cordeiro, nem Ana Catarina Mendes parecem estar a “reflectir” sobre o partido, pelo menos nos órgãos próprios. Duarte Cordeiro nem vai pôr os pés no congresso.

Em recente entrevista ao “Facto Político” da SIC-Notícias, Mariana Vieira da Silva admitiu que José Luís Carneiro possa a vir a ser primeiro-ministro “a menos que o PS decida que precisa de mudar de líder”. Duarte Cordeiro usou mais ou menos a mesma fórmula em entrevista à Antena 1.

Este domingo, claramente em resposta a estes opositores disfarçados, José Luís Carneiro afirmou que está “habilitado” pelo partido para ser primeiro-ministro.

O problema é que este congresso lembra sem dúvida nenhuma o congresso do PS de 2013 em que António José Seguro foi reeleito secretário-geral sem oposição, mas com António Costa e os costistas na sombra à espera do momento mais apetecível.

Pelo menos, Carneiro teve coragem de ser oposição interna a Pedro Nuno Santos quando toda a gente sabia que não havia dúvidas em relação à vitória do ex-ministro das Infra-estruturas a seguir à demissão de Costa. A falta de discussão interna, a apatia, o torpor, a letargia, matam as organizações.

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