A República das Bainhas

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Portugal tem muitas qualidades admiráveis: um sol generoso, uma cozinha invejável e uma extraordinária capacidade para discutir irrelevâncias com a solenidade de um concílio. Quando o novo Presidente da República tomou posse, momento que noutras geografias talvez inspirasse reflexões sobre o rumo do país, o estado da democracia ou os desafios do futuro, entre nós produziu sobretudo um fenómeno sociológico digno de estudo: uma investigação nacional sobre um vestido.

Sim, um vestido. Não uma lei, não uma política pública, não uma decisão de Estado. Um vestido. As redes sociais, esse grande café do Chiado da nossa época, palco do retrato cru queirosiano, que não se extinguiu, encheram-se de especialistas súbitos em direitos de autor têxteis, peritos em bainhas, detectives de etiquetas e juristas improvisados da alta-costura. Surgiram acusações, teorias, indignações e até indignações indignadas com a falta de indignação suficiente. Foi um festival de zelo cívico aplicado ao que verdadeiramente importa na vida republicana: o guarda-roupa feminino.

Curiosamente, o fato do Presidente passou incólume por esta tempestade moral. Nenhum cidadão vigilante exigiu provas de originalidade da gravata presidencial, nenhum patriota perguntou quem desenhou os sapatos dos ministros, nenhum guardião da moral pública se interrogou sobre a autoria das lapelas dos convidados. Parece que os tecidos masculinos possuem uma espécie de imunidade constitucional. O que confirma uma antiga tradição nacional: quando há uma mulher por perto, o país inteiro transforma-se num júri. E não um júri qualquer, mas daqueles que já chegam ao tribunal com o veredicto escrito no bolso do casaco.

A verdade é que Portugal continua a cultivar com notável persistência uma arte antiga: vigiar mulheres com a energia que raramente aplica a vigiar o poder. Se uma mulher ocupa um lugar visível, ainda que meramente simbólico, o país examina-lhe o penteado, mede-lhe a bainha, avalia-lhe os sapatos e, se possível, abre um inquérito nacional ao tecido. Tudo isto em nome da opinião pública, essa entidade difusa que se manifesta sobretudo em comentários inflamados escritos às duas da manhã. Não deixa de ser curioso que o zelo moral floresça com tanta facilidade quando se trata de roupas e com tanta timidez quando se trata de assuntos realmente públicos. Talvez porque discutir vestidos exige apenas teclado, enquanto discutir o país exige pensamento — e isso sempre deu mais trabalho.

Entretanto, a protagonista involuntária desta pequena comédia nacional fez o que, em qualquer país menos nervoso, seria considerado perfeitamente banal: vestiu-se. Vestiu-se, imagine-se, segundo o seu próprio critério. Um gesto de uma audácia quase revolucionária para certos espíritos vigilantes que prefeririam, quiçá, um manual nacional de indumentária feminina aprovado em Conselho de Ministros. Talvez por isso, Portugal reaja com tanta energia quando uma mulher simplesmente decide o que vestir. Há quem veja nisso uma provocação, quase uma perturbação da ordem pública. Num país habituado a que tantos decidam o que os outros devem fazer, pensar ou parecer, uma mulher que decide sozinha o que veste pode, de facto, parecer um gesto perigoso.

No fundo, a verdadeira inquietação não está no vestido — está na liberdade. A liberdade, como se sabe, sempre foi uma peça de roupa difícil de tolerar para certas sensibilidades nacionais: não tem etiqueta visível, não pede licença e raramente se ajusta às conveniências dos vigilantes do costume. E assim seguimos, atentos às bainhas da República, debatendo tecidos com fervor quase patriótico. Possivelmente, porque olhar para o tecido seja sempre mais fácil do que olhar para o país — e porque medir bainhas exige apenas fita métrica, enquanto medir a mesquinhez exige um espelho.

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