Buenos Aires: do MALBA à La Boca, à procura dos tesouros culturais

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No final do mês de dezembro é verão em Buenos Aires. Está muito calor, e por isso, nada melhor do que deambular por esta incrível e grandiosa cidade. Os locais de interesse são inúmeros, as avenidas enormes, algumas com seis faixas de trânsito para cada lado, ladeadas por majestosos edifícios, as ruas comerciais, os cafés, os restaurantes e uma latina animação constante. A cidade parece segura pois a presença policial é permanente, dia e noite.

Um dos locais a não perder é o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires – MALBA. Situado na zona norte da cidade, a melhor forma de lá chegar é de táxi. À entrada oferece aos seus visitantes, uma excelente loja e uma notável cafetaria. O museu é moderno, relativamente recente e muito bem organizado. Não é muito grande, nem demasiado extenso, consegue cativar e entusiasmar o numeroso público que ali se desloca. No primeiro andar está a coleção permanente, exibindo esculturas e sobretudo pinturas de artistas latino-americanos do século XX, argentinos, brasileiros, chilenos, mexicanos e outros. Frida Khalo e Tarsila do Amaral são alguns dos nomes mais famosos. A arte surrealista também está bem representada. O segundo andar é dedicado às exposições temporárias. Em dezembro, a exposição, em parceria com a Pinacoteca de São Paulo, denominava-se “Pop Brasil – vanguardia y nueva figuración – 1960s-70s”, sendo absolutamente deslumbrante.

Não muito longe, a cerca de trinta minutos a pé, situa-se o célebre Cementerio de la Recoleta, o cemitério datado de 1822. Grandiosa cidade dos mortos, com ruas e labirintos por entre jazigos tão compactados e imponentes quanto artísticos, sendo que os vivos, sobretudo os estrangeiros, também pagam um monumental preço pelo ingresso que dá acesso a este extraordinário cemitério muralhado. Obrigatório visitar o jazigo onde descansa Evita Perón, que morreu em 1952, aos 33 anos, vítima de cancro. Mulher do Presidente Juan Perón, foi protetora dos descamisados, permanecendo uma figura mítica junto de muito argentinos.

O Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA)

Nesta zona da cidade existe um outro local imperdível, uma fabulosa e inolvidável livraria, considerada pelo The Guardian, em 2008, a segunda livraria mais bonita do mundo, El Ateneo Grand Splendid. O espaço foi inaugurado em 1919 como um teatro. Em 1926 passou a ser utilizado como cinema. Desde o ano 2000 que é uma inacreditável livraria, mantendo a forma de uma grandiosa sala de espetáculos do início do século XX, com cinco andares que se elevam, em círculo, envolvendo uma imensa plateia, tudo repleto de estantes com milhares de livros. No antigo palco está instalada uma espaçosa cafetaria. Simplesmente deslumbrante.

No centro da cidade, não entrámos no famoso Teatro Colón, inaugurado em 1908, porque estava encerrado. Ao lado existe um outro teatro antigo, muito mais modesto, mas onde assistimos, à noite, a um deslumbrante espetáculo de tango. Uma hora e meia a não perder, com a presença em palco de músicos e dançarinos profissionais. Com ou sem jantar incluído. A opção será de cada um.

El Ateneo Grand Splendid é uma livraria que em tempos foi um teatro

Daqui até à Plaza de Mayo (a praça onde ainda se concentram as Madres de Plaza de​ Mayo, que aguardam respostas relativamente ao desaparecimento dos seus filhos durante a ditadura) serão cerca de vinte minutos a pé. Ali pode visitar-se a imponente catedral, cuja origem remonta ao século XVI. Neste local laborou um cardeal, de seu nome Jorge Bergoglio (1936-2025), que mais tarde se mudou para o Vaticano, com o epíteto de Papa Francisco.

Na mesma praça situa-se a célebre Casa Rosada ou Casa de Gobierno, onde se concentra o Governo da Argentina. Muito perto, na Avenida de Maio temos o Café Tortoni, o mais antigo de Buenos Aires, em funcionamento desde 1858.

Nas traseiras da Casa Rosada encontramos uma das zonas mais modernas, luxuosas e cosmopolitas da cidade, denominada Puerto Madero. As clássicas e degradadas docas, agora transformadas numa zona de lazer, para caminhar e passear, com parques, restaurantes, bares, passeios à beira da água, arte urbana sofisticada e muita modernidade.

Há inúmeras exposições para ver na capital argentina

Noutra direção, para sul, partindo igualmente da Plaza de Mayo, entramos numa rua de seu nome Defensa, que nos leva, em linha reta, num passeio por uma das zonas mais interessantes, San Telmo. Pequenas ruas e praças sucessivas, museus, mercados, pequeno comércio, esplanadas e discretos restaurantes, muito frequentados pelos locais, onde se consegue sentir o pulsar da urbe.

Cerca de quatro quilómetros ainda mais para sul, sendo aconselhável ir de táxi, chegamos a um dos locais mais emblemáticos e imperdíveis de Buenos Aires, La Boca. Por aqui reina Maradona, “o herói, o deus, o omnipresente”. Algumas ruas, completamente coloridas, com todas as casas, algumas de chapa, pintadas com as mais diversas cores garridas, criando um autêntico ambiente artístico, de vanguarda, de contestação e com muita street art nas paredes, nos muros, por todo o lado. Um assombro. Um bairro verdadeiramente popular, junto ao estádio de futebol do Boca Junior’s (La Bombonera). A não perder. Algumas lojinhas, alguns restaurantes servindo a célebre Parrilhada, sendo que também não faltam as celebérrimas Empanadas. Constava que era um bairro perigoso com muitos assaltos, mal frequentado, mas não constatámos nada disso, antes pelo contrário. De tal modo que, nesse dia, acabámos por almoçar lá, numa esplanada ao ar livre. Maravilhoso.

Buenos Aires é um destino muito cativante e justifica completamente as longas horas de viagem que são necessárias para atravessar um imenso oceano que se intromete entre três continentes.

Pedro Mota Curto (texto e fotos)


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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