O problema da EGEAC

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A notícia da não recondução de Rita Rato na direcção do Museu do Aljube, anunciada exactamente um dia depois da inauguração da exposição Elas tiveram medo e foram, nesse mesmo museu, fornece, mesmo que por improvável coincidência, um sinal muito claro sobre os tempos que aí vêm. Seria difícil encenar melhor o simbolismo. E é precisamente por isso que vale a pena lembrar: o simbólico na política não é acidental. É uma prática diária e, nesse sentido, também uma prática cultural.

Esta história faz-me lembrar o pastel de bacalhau com queijo da serra.

Quase ninguém que viva em Portugal alguma vez comeu um pastel de bacalhau com queijo da serra. No entanto, é perfeitamente possível estar em Paris a conversar com alguém que visitou Lisboa e ouvi-lo dizer, com entusiasmo: “Provei aquele salgado típico com queijo amanteigado, incrível!”. Quem escuta fica inicialmente confuso. Pensará talvez numa merenda mista. Mas não: tinha bacalhau e queijo da serra, explica a pessoa.

E então lembramo-nos da imagem daquele pastel a derreter queijo da serra, transformado em outdoor na A1, como durante décadas estiveram os anúncios aos cafés. E percebemos o processo. Se centenas de turistas regressarem aos seus países a dizer que o pastel de bacalhau com queijo da serra é uma iguaria tradicional portuguesa, talvez ele acabe mesmo por se tornar numa.

E se milhares de pessoas escreverem sobre isso em blogs, redes sociais e guias de viagem, a coisa ganha outra escala. Pode até acontecer que, perguntando a uma plataforma de inteligência artificial qual o salgado mais típico de Portugal, a resposta seja inequívoca: o pastel de bacalhau com queijo da serra. Qual é o problema disto? E que relação tem com Rita Rato, Francisco Frazão e a EGEAC?

Quando o presidente da EGEAC, Pedro Moreira, afirma publicamente que “os turistas são o nosso petróleo e nunca serão de mais”, percebe-se com clareza o modelo de gestão cultural que está a ser proposto. Nesse modelo, a cultura transforma-se num produto e o visitante num consumidor. Uma oferta cultural pensada desta forma tem de ser simples, reconhecível, facilmente vendável e exportável. Tem de ser genérica o suficiente para caber na expectativa de quem chega de fora e consumível o suficiente para circular rapidamente em fotografias, posts de influencers de viagem e revistas de companhias aéreas.

A grande questão é que uma cultura organizada desta maneira dificilmente pode cumprir, ao mesmo tempo, outra função essencial: servir o pensamento, o conflito, a memória e as práticas culturais de uma cidade para quem nela vive diariamente. Porque as pessoas que vivem em Lisboa continuam a saber que o pastel de bacalhau com queijo da serra é um produto criado para alimentar uma certa fantasia urbana. Uma fantasia que imagina a cidade como cenário e os seus habitantes como figurantes de uma experiência turística, e que dificilmente justificará que o investimento público na cultura da cidade se concentre na fabricação dessa narrativa.

O problema, portanto, não é apenas um pastel. O problema é haver um órgão de gestão da cultura de uma cidade que passa a tratá-la como uma mercadoria: algo criado para confirmar e estimular a imaginação de quem a visita, em vez de uma prática viva, contraditória e pública de quem a habita todos os dias. As não reconduções das direcções do Museu do Aljube e do TBA alinham precisamente com essa lógica: transformar estes espaços em fábricas de cultura de consumo rápido, espectacularizada, facilmente vendável, e, se possível, ao triplo do preço. É uma reconfiguração claramente ideológica e política.

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