Despejos rápidos não resolvem a crise da habitação

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A habitação tornou-se o principal teste à capacidade do país resolver um problema estrutural: garantir acesso à casa para a classe média e para as novas gerações. O aumento persistente dos preços, a dificuldade crescente de acesso à habitação nas áreas metropolitanas e a pressão social sobre famílias e jovens colocaram o tema no centro do debate político.

Foi neste contexto que o Governo aprovou, em Conselho de Ministros de 12 de março de 2026, um novo conjunto de medidas destinadas a responder à crise da habitação. O pacote inclui a aceleração dos despejos por incumprimento contratual, mecanismos para desbloquear heranças indivisas e a criação de um fundo de emergência habitacional para situações de maior vulnerabilidade.

Cada uma destas iniciativas responde a problemas reais. No entanto, quando analisadas em conjunto, acabam por expor uma questão mais profunda: a ausência de uma estratégia consistente para aumentar de forma significativa a oferta de habitação acessível, em particular para a classe média e para os mais jovens.

O debate público concentrou-se sobretudo na aceleração dos despejos. Num mercado de arrendamento funcional, a possibilidade de despejo em caso de incumprimento é um instrumento normal de segurança jurídica. A existência de regras claras e de mecanismos eficazes para a sua aplicação é uma condição importante para que proprietários coloquem imóveis no mercado de arrendamento.

Mas reconhecer esta necessidade não significa atribuir-lhe um papel central na resolução da crise da habitação. A aceleração dos despejos pode melhorar a previsibilidade jurídica do sistema, mas dificilmente altera o fator estrutural que está na origem do problema: a escassez de oferta habitacional nas zonas onde a procura cresce de forma persistente.

A economia urbana tem sido clara sobre este ponto. Como sublinha Edward Glaeser, os preços elevados da habitação nas cidades resultam sobretudo da incapacidade da oferta acompanhar o crescimento da procura. Quando o número de casas disponíveis cresce mais lentamente do que o número de famílias que querem viver nesses territórios, o resultado inevitável é o aumento dos preços e a intensificação da competição pelo acesso à habitação.

É neste contexto que o foco quase exclusivo nos despejos revela uma distorção do debate público. A narrativa dominante sugere que o principal obstáculo ao funcionamento do mercado de arrendamento é o risco jurídico enfrentado pelos proprietários. Consequentemente, acelerar os processos de despejo seria suficiente para colocar mais casas no mercado.

Esta interpretação ignora um elemento essencial: num contexto de escassez estrutural de habitação, o poder de mercado tende a concentrar-se naturalmente em quem detém o ativo escasso — a casa. Medidas que reforçam a proteção jurídica do proprietário podem melhorar a previsibilidade do sistema, mas não alteram esse equilíbrio se o número de habitações disponíveis continuar insuficiente.

Na prática, o risco é que a política pública se concentre na gestão do incumprimento — isto é, na fase final do problema — enquanto permanece por resolver a questão central: como aumentar de forma consistente a oferta de habitação acessível nas áreas onde as pessoas querem viver e trabalhar.

Essa é, aliás, a dimensão mais ausente do debate. Portugal continua sem uma estratégia clara para ampliar a oferta de habitação dirigida à classe média e aos jovens, seja através da produção de nova habitação, da mobilização de património existente ou da criação de modelos estáveis de arrendamento acessível.

A política de habitação não pode limitar-se à gestão de conflitos contratuais ou à resposta a emergências sociais. Precisa de atuar sobre a estrutura do mercado: produção de habitação, previsibilidade regulatória e articulação entre investimento público e investimento privado.

Despejos mais rápidos podem tornar os contratos mais seguros. Mas não resolvem o problema essencial: sem mais casas, a política de habitação continuará a gerir conflitos em vez de garantir acesso à casa para a classe média e para os jovens.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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