
Chegámos ao Gerês no Inverno e partimos nas primeiras horas da Primavera, no mesmo dia de céu nublado, deixando para trás três pequenos freixos de folhas estreitas plantados nas encostas do Lindoso, que assinalaram o arranque do projecto de restauro ecológico da World Wide Fund (WWF) Portugal. A viagem desta sexta-feira, que contou com a presença do secretário de Estado do Ambiente, João Manuel Esteves, seguiu pelos trilhos de terra batida para mostrar as parcelas de terreno que estão a ser restauradas numa acção que pretende recuperar e proteger habitats degradados, bem como limpar o terreno para criar barreiras à força destruidora do fogo.
Com meia dúzia de garranos a desenharem o seu perfil no cume do monte e algumas cabeças de gado a descer a encosta, João Manuel Esteves foi o primeiro a tapar um buraco aberto na terra negra com um frágil freixo (Fraxinus angustifolia) na parcela cercada, onde nos próximos cinco anos deverá nascer uma peça do mosaico que a WWF deseja ver na paisagem do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). “Filipe, traz a enxada”, ouviu-se entre autarcas, técnicos, assessores e jornalistas.
Filipe Maciel veio do outro lado da parcela, cavou um buraco mais fundo e João Manuel Esteves, entusiasmado, fez o resto. “Vou então desfazer aqui um pouco o torrão para soltar as raízes, que eu sei bem como isto se faz”, anunciou, sujando as mãos de terra e tapando o buraco, que depois calcou com os mocassins. Deixou a sua assinatura e a data numa estaca de madeira, e o “momento simbólico” de arranque do projecto ficou marcado. “Se o freixo não vingar, muda-se a estaca de lugar”, ouviu-se entre risos.
Os restantes dois freixos, junto à linha de água da parcela vedada, foram plantados por Sandra Sarmento, directora Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Norte do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), e por Augusto Marinho, presidente da Câmara Municipal de Ponte da Barca. Nos próximos cinco anos, a WWF vai trabalhar no restauro daqueles pedaços de terra que parecem minúsculos na imensidão do mais antigo — e único — parque nacional do país.
Manuel Roberto
A esperança e a economia
“Todas as medidas são poucas para atenuar o impacto [dos incêndios]”, afirmou Augusto Marinho antes de seguirmos para o miolo do parque, recordando os 14 dias de fogos florestais no PNPG em Julho de 2025. E acrescentou: “Todos somos convocados para manter esta riqueza”.
Catarina Grilo, directora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, também falou na “responsabilidade partilhada”, salientando que “não existe nenhum plano, nenhum projecto, nenhuma lei de sucesso sem o apoio de quem está no território”. O trabalho em 30 hectares pode parecer discreto, mas é “um sinal de esperança”, avisou.
Sandra Sarmento aproveitou a deixa e sublinhou que o projecto da WWF “cabe como uma luva” no Dia Internacional da Floresta e no Ano do Restauro da Natureza, devendo “inspirar o resto do país”. Por fim, defendeu que a floresta não é apenas serviços de ecossistemas e espaço de biodiversidade, mas “também é economia”. “Respiramos floresta, bebemos floresta, comemos floresta”, enumerou.
João Manuel Esteves agarrou-se à palavra sustentabilidade, argumentando que a base deste conceito é que “a acção do homem não pode criar problemas para as gerações futuras”. “Anda aqui gente há pelo menos oito mil anos, gente que soube juntar-se à natureza”, declarou, elogiando o envolvimento da comunidade de baldios, que detém cerca de 70% do território do PNPG.
Manuel Roberto
O secretário de Estado comprometeu-se ainda a entregar o Plano Nacional de Restauro da Natureza à Comissão Europeia no final do Verão, sublinhando que Portugal estará “na linha da frente” no mar, no que respeita à criação de reservas marinhas. Em marcha, garantiu, estão também a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade e a Estratégia Nacional de Adaptação Climática.
Questionado pelos jornalistas, não quis comprometer-se quanto à ambicionada aplicação da Lei de Bases do Clima, limitando-se a afirmar que os instrumentos já em curso são algumas das peças dessa base legal abrangente, que inclui muitas outras acções. Por outro lado, não evitou tocar no tema sensível da redução do estatuto de protecção do lobo na Europa, reafirmando o compromisso português com a protecção da espécie e anunciando que os apoios a lesados foram duplicados.
E concluiu: “No Ministério do Ambiente e Energia o nosso objectivo é claro: a valorização dos recursos naturais está no mesmo pé do desenvolvimento económico para criar sustentabilidade. Queremos transformar estratégias em acção”.
Manuel Roberto
Nove áreas prioritárias
De volta às encostas do Lindoso, em Ponte da Barca. “Mais do que uma acção pontual, trata-se do arranque de um programa plurianual de restauro ecológico, com duração que poderá ir até cinco anos, concebido para recuperar ecossistemas degradados, reforçar a resiliência das paisagens e contribuir para as metas nacionais e europeias de recuperação da natureza”, refere a WWF. Entre áreas ardidas, matos densos, enormes pedras nuas e cursos de água a reclamarem sombra, os técnicos explicaram o que está em causa: transformar compromissos ambientais em acções concretas de restauro, com monitorização a longo prazo e impacto medido à escala da paisagem.
A Iniciativa Nacional de Restauro da WWF Portugal (Re-Store Portugal) foi apresentada em Outubro de 2025 com um objectivo triplo: proteger ecossistemas ainda intactos, recuperar habitats degradados e envolver a sociedade num movimento colectivo de restauro. O lema é simples e directo: “Restaurar a natureza pelo nosso futuro”.
Com base num estudo técnico-científico financiado pelo Lidl, foram identificadas nove áreas prioritárias para restauro ecológico em Portugal, seleccionadas pelo seu valor ecológico, grau de degradação e potencial de impacto territorial: Serra do Caldeirão; Serra da Estrela; Serras de Aire e Candeeiros; Vale do Guadiana e Ribeira do Vascão; Estuário do Tejo; Parque Nacional da Peneda-Gerês; Rio Tejo; Ria de Aveiro; Ria Formosa.
O pontapé de saída deu-se no Parque Nacional da Peneda-Gerês e o próximo está marcado para o Estuário do Tejo, ainda em 2026, garantiu Catarina Grilo. Dentro da parcela com 1,84 hectares vedados, o técnico de restauro da WWF Portugal que coordena esta acção, José Pedro Ramião, explicou como decorrerá o apoio à regeneração da floresta autóctone nesta área afectada por incêndios.
Manuel Roberto
Uma ajuda à natureza
Do outro lado do trilho de terra batida, tínhamos a desordem deixada pela passagem do fogo e, do nosso lado, o início de uma acção de restauro, constatou José Ramião, distinguindo “o antes” e “o depois” e lembrando que o fogo consumiu no Gerês uma área equivalente a dez mil campos de futebol. Ali serão plantadas cerca de 800 árvores — carvalho-alvarinho, bétula, azevinho e pilriteiro. Cada uma representa uma tentativa de reorganizar a vida que o fogo desagregou; cada uma carrega um pedaço da floresta que se deseja ver renascer.
A plantação visa criar a estrutura mínima de um carvalhal jovem, permitindo que a sucessão ecológica avance com maior estabilidade onde já não existem propágulos suficientes devido aos incêndios. No terreno, ainda povoado por alguns ramos negros carbonizados, com terra fértil por baixo, José Ramião justificou a intervenção: a sucessão ecológica precisa de ser acelerada — porque nem sempre existem sementes suficientes nas proximidades para que a floresta se reconstrua sozinha. Aqui, a plantação é um gesto de restituição e, ao mesmo tempo, uma espécie de atalho ecológico.
Com o novo Regulamento Europeu do Restauro da Natureza a obrigar os Estados-membros a recuperar 20% das áreas degradadas até 2030, projectos como o que agora começou no Gerês ganham relevância estratégica. Portugal deverá entregar à Comissão Europeia o seu Plano Nacional de Restauro até Setembro de 2026, apresentação que será precedida de consulta pública, garantiram João Manuel Esteves e Sandra Sarmento durante a sessão oficial de assinatura do protocolo.
30 hectares para começar
Na sessão estava em causa uma área de intervenção de 30 hectares, sendo 1,84 destinados ao apoio à regeneração da floresta autóctone em zonas afectadas por incêndios e 28,18 hectares à gestão selectiva de matos para redução do perigo de incêndio, num investimento de quase 200 mil euros a executar até Dezembro de 2030.
Na parcela de 28,18 hectares, observámos homens no terreno a realizar corte selectivo para reduzir matos combustíveis e abrir espaço para a progressão de espécies arbóreas já presentes, promovendo um mosaico de habitats mais resistente ao fogo. “Trata-se de uma medida particularmente relevante no parque, onde o regime de fogo tem sido um dos factores centrais de degradação ecológica”, refere a WWF.
As intervenções respondem a um território onde a biodiversidade é excepcional: o Gerês é mais do que uma bela paisagem — é um sistema vivo que alberga 235 espécies de vertebrados, 71 delas ameaçadas, e mais de 700 espécies de flora vascular, incluindo 32 igualmente ameaçadas.
Criar mosaicos de habitats — com zonas abertas, matos controlados e núcleos de floresta em regeneração — é essencial para espécies como o corço, que depende da alternância entre áreas densas e abertas, e também para reduzir o risco de incêndios severos que podem comprometer populações sensíveis como a do lobo-ibérico.
O trabalho apresentado esta sexta-feira resulta de um conjunto alargado de apoios empresariais e institucionais que viabilizam o restauro nas primeiras parcelas. Entre estes, inclui-se o contributo financeiro do Lidl Portugal, que ajudou a assegurar o arranque das intervenções agora visitadas. No local, os responsáveis da empresa quiseram frisar que o foco é o trabalho ecológico, não os holofotes corporativos.
Sublinha-se, isso sim, que restaurar ecossistemas degradados exige alianças amplas: ciência, cidadãos, empresas, entidades públicas. Sem isso, nenhum plano a cinco anos resistiria ao que a natureza nos tem lembrado repetidamente. Após quatro horas de sessão — com a viagem ao terreno e os discursos — deixámos o Gerês em silêncio, a gozar as primeiras horas da Primavera.
E nada como iniciar a Primavera com um bom exemplo, presenciando o que poderá ser um caso-piloto de restauro ecológico estrutural: intervenções pensadas a longo prazo, baseadas na ciência e acompanhadas no terreno — uma combinação rara num país onde o restauro continua muitas vezes a surgir como resposta pontual, e não como política de transformação.
Daqui a cinco anos voltaremos ao mesmo lugar para ver o resultado. Fica a promessa. Talvez nessa altura se vislumbre algum sinal de lobos, que todos pareciam ansiosos por testemunhar, ainda que uma bióloga a trabalhar no terreno assegurasse: podemos não os ter visto, mas muito provavelmente eles estiveram a ver-nos.
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