No Dia da Água, é tempo de olhar para o invisível

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No Dia Mundial da Água, vale a pena lembrar o óbvio: não há vida, saúde pública, produção alimentar, equilíbrio ecológico nem futuro sustentável sem água de qualidade. E, no entanto, continuamos muitas vezes a falar da água apenas quando ela falta. Falamos de seca, de escassez, de barragens em mínimos, de consumo doméstico, de restrições. Tudo isso importa, mas já não chega.

Hoje, um dos maiores desafios da água é também um dos menos visíveis: a presença crescente de poluentes emergentes como os microplásticos. São formas de contaminação discretas, persistentes e, em muitos casos, insuficientemente compreendidas. Não têm o impacto imediato de uma maré negra, não provocam sempre indignação pública instantânea e raramente se vêem a olho nu na maioria dos contextos. Mas estão lá. E é precisamente isso que as torna tão desafiantes.

Durante muito tempo, fomos construindo a ideia de que a água segura era, sobretudo, uma questão de captação, tratamento e distribuição. Continua, em geral, a ser. Mas hoje sabemos que o problema começa muito antes da torneira e, muitas vezes, muito longe dela.

Começa no território, no uso do solo, nos resíduos que produzimos, nos materiais que consumimos, nas descargas que não controlamos adequadamente, nas infraestruturas que envelhecem, nas partículas que se libertam de objetos banais do quotidiano e acabam por circular entre rios, estuários, zonas costeiras e mar.

É aqui que o conceito de One Health, ou Uma Só Saúde, se torna especialmente útil. A água obriga-nos a abandonar compartimentos artificiais. A saúde humana não pode ser pensada separadamente da saúde dos ecossistemas. A qualidade da água que abastece populações, sustenta a agricultura, suporta biodiversidade ou estrutura atividades económicas faz parte da mesma equação. Quando degradamos a qualidade da água, não estamos apenas a comprometer habitats ou a piorar indicadores ambientais: estamos a fragilizar sistemas de suporte à vida, a aumentar pressões sobre comunidades e a criar riscos que, mais cedo ou mais tarde, regressam à sociedade.

No caso dos microplásticos e de outros poluentes emergentes, o mais honesto é reconhecer que ainda existem perguntas em aberto. Continuamos perante problemas complexos, que exigem rigor, tempo, monitorização continuada e prudência. Ainda há muito a esclarecer sobre fontes, trajetórias, transformações no ambiente, efeitos cumulativos, interações entre contaminantes e impactos a longo prazo. Mas a existência de incerteza não nos autoriza a adiar respostas. Exige, isso sim, que ajamos com mais responsabilidade.

Esperar por uma certeza absoluta para intervir seria repetir um erro já conhecido em demasiadas áreas ambientais. Na água, como noutras frentes da sustentabilidade, a prevenção deve pesar mais do que a reação tardia. E prevenir significa reduzir emissões, controlar fontes, melhorar sistemas de monitorização, rever práticas, investir em conhecimento e integrar políticas que continuam excessivamente fragmentadas.

A ciência tem aqui um papel insubstituível. Não apenas para identificar problemas quando eles se tornam impossíveis de ignorar, mas para os detetar cedo, medir melhor, interpretar dados, distinguir riscos reais de ruído mediático e apoiar decisões públicas mais consistentes. A ciência permite transformar suspeitas em evidência e evidência em ação. Mas não pode ficar confinada ao laboratório, ao artigo científico ou ao relatório técnico.

A proteção da água exige uma ciência em diálogo com a sociedade, com os utilizadores do território, com as comunidades locais, com as autoridades e com os decisores políticos. Exige também cidadãos mais informados e mais envolvidos. Porque a qualidade da água não depende apenas de grandes decisões estruturais; depende também da forma como produzimos, consumimos, descartamos, escolhemos materiais e reconhecemos valor aos ecossistemas que nos rodeiam.

O papel da comunidade é, por isso, mais importante do que às vezes se admite. Comunidades informadas contribuem para a prevenção, para a vigilância, para a exigência de melhores políticas e para a construção de uma cultura de responsabilidade ambiental. O envolvimento cívico, a literacia sobre a água e até a participação em iniciativas de monitorização ou sensibilização podem fazer parte de uma resposta mais robusta. Não substituem o dever do Estado, mas reforçam-no.

As autoridades, por seu lado, têm de fazer mais do que assinalar datas simbólicas. Têm de garantir monitorização adequada, fiscalização eficaz, articulação institucional e políticas públicas que não tratem rios, estuários, águas costeiras e água para consumo como compartimentos desligados. A água precisa de visão integrada, continuidade e prioridade política real. Não apenas quando há crise. Não apenas quando há notícia.

No fundo, o Dia Mundial da Água devia servir menos para celebrar e mais para recentrar prioridades. A água não é um tema setorial. É uma condição de saúde, de segurança, de desenvolvimento e de dignidade coletiva. E, num tempo marcado por pressões múltiplas e por poluição muitas vezes invisível, proteger a água exige mais do que boas intenções: exige conhecimento, cooperação e vontade de agir antes que os problemas se tornem irreversíveis.

Cuidar da água é cuidar daquilo que sustenta a vida. E isso não pode acontecer apenas um dia por ano.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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