A normalização da mentira e a anestesia dos cidadãos

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(…) Se as pessoas vis e perversas se aliam sempre, constituindo uma força poderosa, as pessoas honestas devem fazer o mesmo. É muito simples.
Tolstoi, Guerra e Paz (1867)

A guerra é o que de mais vil há na vida.
Tolstoi, Guerra e Paz (1867)

Sem dúvida que a Democracia tem vindo a acentuar a sua fragilidade sob a contínua máscara de bondade. Uma bondade expressa perversamente em discursos que pretendem incutir nos cidadãos a ideia de que eles não compreendem o quanto as decisões tomadas, ou a tomar, virão beneficiá-los (melhores salários, melhor informação, habitação ou saúde); outras vezes, veiculam interpretações sobre determinados acontecimentos que põem insolentemente em causa o instituído, e lembro o que se passou em Gaza, na Venezuela, em Cuba e agora no Irão, ao arrepio do “direito internacional”. Mentiras normalizadas que intermediários, sujeitando-se, por vocação ou interesse, à obediência, multiplicam ad nauseam.

Ao longo dos anos, e “sem repressão” física, temos vindo efectivamente a assistir à concretização de um método, subtilmente orientado no sentido de disciplinar os cidadãos. O seu intuito é anestesiar ou anular a vontade e a capacidade crítica, o que forçosamente conduzirá a uma hegemonia da obediência. Criar “cidadãos previsíveis” é, com efeito, o melhor resultado a que pode aspirar todo o Poder, aparentemente não repressivo. A própria ortografia da Língua Portuguesa é igualmente uma consequência desse método disciplinar, e um exemplo flagrante é o facto de termos encontrado, num manual de Físico-Química, do 7.º ano, a reescrita de “óptica”, agora “ótica”, ao abrigo do AO 90. Um atropelamento mortal da etimologia, num profundo desrespeito pelo Conhecimento.

Virá a propósito da introdução feita, a “nova imagem da informação da RTP”, uma “aposta na mudança, sem perder a identidade”, alargada, recentemente, à Lusa, segundo parece, com as consequentes demissões e mudanças. E porque a “luz” iluminará as “novas” notícias da RTP, Lusa ou rádio públicas, “voltadas para o futuro”, nada melhor do que o lema escolhido, ao qual nem o Papa Francisco escapou: “Todos. Pela Verdade dos Factos.”

Devo confessar que me impressionou sobremaneira o desfile e a exposição dos “novos” “artistas” que darão mais “luz” à “nova informação”. Uma apresentação repetida diariamente até ao enjoo, para se justificar “a necessidade de transformação”. E como não associar a esta inovação a Reforma do Ensino de 2003, que persiste? Também neste caso, o adjectivo “novo” e os substantivos “inovação”, “necessidade” e “mudança” conviveram em uníssono. Uma estratégia velhíssima e ostensivamente visível no vocabulário inalterado.

Retirei, da apresentação da “nova RTP”, algumas frases anunciadoras da mudança: “Portugal está a mudar”, “Portugal está a mudar no trabalho”, “A Informação está a mudar”. Sem dúvida que a nossa experiência quotidiana pode confirmá-lo, e com bastante preocupação e mal-estar. Na verdade, quem não reparou já na mudança que se quer instalar, lembrando o montante de 2300 euros como renda moderada? Quem não se surpreendeu com o vídeo (depois apagado) de um ministro que, de mangas arregaçadas, finge azafamar-se no acompanhamento de operações de socorro, aquando da tempestade Kristin? Quem se iludirá com as palavras da ministra do Trabalho que afiança ser o novo pacote laboral um bem para os trabalhadores, que ainda não compreenderam o seu benéfico alcance? Quem aceitará que se promova a promiscuidade entre partidos e centrais sindicais, nomeadamente quando se pede a um dirigente partidário que “convença” a UGT a disciplinar os seus filiados, ou seja, a traí-los? Quem acreditará que o pacote laboral virá a favor dos trabalhadores?

P.S.: Devo desculpar-me, caro leitor, pela minha ingenuidade quando, no artigo de 30.01.2026, e movida pela esperança, escolhi para uma das epígrafes as palavras do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, que, agora, perante a agressão dos EUA ao Irão, ignorou, paradoxalmente, o direito internacional.

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