
Na aldeia global em que vivemos os riscos chegam de todos os lados, os impactos e os custos externos repercutem-se assimetricamente, sobretudo, sobre os territórios e as famílias mais vulneráveis, e a cobertura e recuperação dos danos registados precisa de ser abordada com uma boa dose de justiça distributiva, solidária e mutualizada. Os acontecimentos registados este inverno em muitos concelhos do nosso país, com consequências devastadoras para muitas famílias aí residentes, são um sinal, por demais evidente, de que estamos perante uma alteração substancial de paradigma socioecológico e socioeconómico com um grande impacto na organização, funcionamento e coesão social dos territórios, em especial, nas áreas de baixa densidade (ABD).
Esta alteração de paradigma significa, por exemplo, que os ensinamentos dos colegas das ciências da terra – geologia, geofísica, geotecnia, hidrogeologia, meteorologia – são preciosos para entender, em toda a sua amplitude, os termos desta mudança estrutural que afeta profundamente a coabitação, que nós desejamos tão tranquila quanto possível, entre as famílias e o território. Esses ensinamentos reportam-se ao mapeamento de riscos, ao plano de ordenamento do território, à estratégia de especialização de territórios inteligentes, ao plano de infraestruturas críticas que equipam o território, à gestão multirrisco em todos os seus estádios, à governação multiníveis que é necessária para elaborar e implementar o programa integrado de desenvolvimento territorial.
Mas não são apenas os colegas das ciências da terra que fazem faltam à programação e planeamento da economia política dos territórios inteligentes. Está em curso de instalação uma nova arquitetura operacional que coloca os sistemas e dispositivos de IA no centro do ecossistema tecno-digital de um determinado território. Isto depende do empenho e dedicação de centenas de especialistas, investigadores, programadores, designers, gestores, que administram a governação de plataformas, centros de dados, redes autónomas, sistemas inteligentes, serviços diferenciados e, no final, tudo conjugado, maior capacidade de antecipar eventos, desastres e disrupções graves e níveis de prontidão mais elevados.
E, sobretudo, perante a frequência e intensidade de tantos acidentes graves, precisamos de mais jovens que queiram instalar-se e compreender o território para o proteger e valorizar. E, nesta matéria, os nossos colegas das ciências humanas e sociais são decisivos para uma compreensão abrangente das carências socioeconómicas e empresariais, bem como das necessidades de intervenção da proteção civil, sobretudo nas áreas mais desprotegidas e envelhecidas da baixa densidade. A referência a estas três áreas científicas serve, tão-somente, para revelar a enorme responsabilidade da academia em participar no esforço coletivo das comunidades territoriais tendo em vista evitar que o risco climático sistémico e transversal produza uma nova tragédia dos recursos comuns.
Aqui chegados, queria, ainda, chamar a atenção dos leitores para uma conexão ou hiperligação que não cessa de se aprofundar como consequência direta das alterações inerentes ao regime climático em que estamos envolvidos. Está, sobretudo, em causa a linha de interoperabilidade que liga o subsistema de alerta e prevenção de riscos, ao subsistema tecnológico de decisão inteligente e automática, ao subsistema de emergência e mitigação de acidentes e ao subsistema de segurança económica que preserva a estabilidade e a coesão social dos territórios mais vulneráveis.
Esta hiperligação e interoperabilidade tem um impacto profundo na coesão socio-territorial e na vida das populações mais vulneráveis e, mais importante, remete-nos para uma mudança substancial, absolutamente necessária, na supervisão macro prudencial da economia política do século XXI. Neste contexto, está em causa uma verdadeira revolução epistémica na economia política, cujas linhas principais podem ser, assim, elencadas:
- Um lugar central atribuído à prospetiva, à programação e ao planeamento (PPP) do risco sistémico e sua prevenção,
- Um lugar central à economia dos impactos e custos de contexto e oportunidade, efeitos externos e graus de cobertura do risco sistémico,
- Um lugar central aos incentivos, investimentos e inovação nos sistemas e dispositivos de IA, em particular, uma nova geração de infraestruturas críticas necessária à especialização inteligente de empresas e territórios,
- Um lugar central para a cobertura financeira do risco sistémico e multirrisco, do seguro privado à mutualização europeia do risco e da prevenção à supervisão macro prudencial,
- Um lugar central para a economia política das relações exteriores e uma gestão diversificada, mas prudente, das dependências e interdependências no quadro europeu e multipolar.
No nosso caso, é certo, Portugal beneficia da tecnologia e da inteligência globais, mas um país que não controla os seus dados, o código do protocolo algorítmico e os sistemas de IA utilizados é um país indefeso e à mercê do risco sistémico, ou seja, a desinformação, a sabotagem tecnológica, as interferências no espetro eletromagnético, a viciação de sistemas de informação, a exploração de vulnerabilidades em infraestruturas críticas. E, se não controlamos minimamente esta cadeia de valor fundamental, está em causa a nossa soberania e a continuidade de serviços essenciais, assim como a integridade do nosso sistema democrático. Razões de sobra para nos interrogarmos sobre as prioridades da economia política do século do século XXI. Terei de voltar ao assunto em próxima oportunidade.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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