Biomarcadores sanguíneos e Doença de Alzheimer: a diferença entre ter a doença e estar doente

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A investigação científica em Doença de Alzheimer tem produzido importantes avanços. Especificamente, as análises ao sangue (também chamadas de biomarcadores sanguíneos) que permitem o doseamento de proteínas que se correlacionam com as alterações cerebrais que definem a doença são muito promissoras. Contudo, a interpretação destas análises é profundamente contextual, e há um grande potencial para equívocos e sobrediagnóstico que é oportuno clarificar.

Em primeiro lugar, importa dizer que o termo demência refere-se a uma situação clínica de deterioração cognitiva, na qual a pessoa perde progressivamente autonomia. A demência tem várias causas, a principal das quais sendo a Doença de Alzheimer. Trata-se de um dos maiores desafios pessoais e sociais do mundo ocidental (estimando-se que, em Portugal, em 2050, cerca de 368.000 pessoas possam ter alguma forma de demência). Não é demais sublinhar que todos os esforços devem ser envidados para oferecer um diagnóstico preciso e a melhor terapêutica disponível aos doentes (que inclui tratamentos novos recentemente aprovados pela Comissão Europeia, ainda não comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde). Assim, todos os avanços científicos que facilitem o acesso ao diagnóstico e tratamento são bem-vindos.

A maior parte das pessoas afetadas apresenta dificuldades de memória. Se, no cérebro destas pessoas, estiverem presentes determinadas alterações (placas amilóides e tranças neurofibrilares), é possível diagnosticar a pessoa como tendo Doença de Alzheimer. A determinação destas alterações cerebrais era, classicamente, possível apenas pela análise do encéfalo após a morte; nos últimos anos, esta identificação tornou-se possível ainda em vida, através de doseamentos de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano ou através de tomografia de emissão de positrões (PET). Mais recentemente, foram desenvolvidos biomarcadores detetáveis no sangue que permitem inferir, de forma mais conveniente e acessível, a presença ou ausência dessas alterações patológicas no cérebro.

Com o avanço do conhecimento, verificou-se que as placas amilóides e as tranças neurofibrilares eram detetáveis muito tempo antes que as pessoas exibissem sintomas. Este pródromo, no qual ocorrem alterações biológicas e moleculares da doença, pode estender-se por até 25 anos antes do surgimento dos sintomas. Assim, numa importante revisão dos critérios diagnósticos da doença, publicada em 2024 pela Alzheimer Association, a Doença de Alzheimer foi conceptualizada como um contínuo biológico que se inicia com as primeiras alterações bioquímicas no cérebro de pessoas ainda cognitivamente “normais”. Com o passar do tempo e a acumulação de dano cerebral, as pessoas viriam, então, a desenvolver os esquecimentos e outros sintomas associados à doença (ficariam, então, “doentes”).

Esta visão estritamente biológica da doença, em que os esquecimentos surgem como uma consequência, desejavelmente evitável, a jusante do problema, é, à superfície, completamente lógica e estabelece um paralelismo quase perfeito com outras doenças mais conhecidas como o cancro. Afinal, também várias neoplasias poderão não apresentar sintomas se forem detetadas precocemente e não tiverem tempo de avolumar ou de desenvolver um perigoso arsenal metabólico.

Contudo, na Doença de Alzheimer, isto não é assim tão simples, pois não existe uma relação linear entre a positividade das análises e a situação cognitiva da pessoa. Ainda que a presença dos biomarcadores sinalize um risco importante de uma pessoa “saudável” vir a desenvolver sintomas e até poder servir como um “relógio”, isto não acontece em muitos casos, ou seja, algumas pessoas com biomarcadores alterados podem nunca vir a desenvolver sintomas.

Este é o argumento central da proposta alternativa do International Working Group que sublinha a importância de apenas diagnosticar a doença em pessoas que efetivamente tenham sintomas que lhe possam ser atribuídos. Esta divergência dos critérios de diagnóstico mereceu alguma atenção na imprensa internacional. Um importante estudo populacional norueguês publicado na revista Nature estudou a prevalência destes biomarcadores sanguíneos em mais de 11 mil pessoas, ajudando a compreender melhor a relação entre a clínica e os resultados analíticos. Por exemplo, na faixa etária mais elevada (acima dos 85 anos) os biomarcadores são positivos em até 65% dos casos, mas a prevalência de demência é substancialmente mais baixa (cerca de 25% neste estudo). Isto sublinha que as alterações patológicas não correspondem necessariamente à situação clínica daquela pessoa, o que pode dificultar a interpretação se estas análises forem solicitadas de forma pouco crítica.

Estas análises são excelentes testes de patologia, ou seja, respondem à pergunta se as pessoas têm ou não a assinatura biológica que se atribui à Doença de Alzheimer no cérebro. Não são testes que permitam dizer se a pessoa tem demência ou se a virá a desenvolver. Teme-se, por exemplo, que pessoas com outras razões para apresentarem esquecimentos (por exemplo, quadros depressivos, doenças da tiróide ou outras) possam ser sobre diagnosticadas como Doença de Alzheimer no caso de um exame positivo.

O inverso também é possível, ou seja, uma pessoa ficar erradamente tranquilizada com um teste negativo pela expetativa de não estar em risco de vir a desenvolver demência, quando existem muitas outras doenças neurodegenerativas igualmente terríveis que nada têm a ver com Doença de Alzheimer. Contudo, nas mãos certas e no contexto adequado, são análises muito valiosas para auxiliar no diagnóstico clínico das demências.

Com o avanço do conhecimento sobre a biologia das diferentes doenças neurodegenerativas, o futuro dirá se estamos na antecâmara de uma neurologia preventiva, preditiva, personalizada e pauci ou assintomática. Nesse cenário, ter uma doença e estar doente serão situações bem distintas e, espera-se, muito distantes.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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