Wilhelm Reich diagnosticou o fascismo, em Psicologia de Massas do Fascismo (1933), como uma patologia coletiva em que, para resumir, o controlo dos corpos alheios constitui uma forma de alívio para a ansiedade gerada pela sua própria repressão sexual. A energia do desejo sexual assim reprimida é, em suma, canalizada para prejudicar a vida de outrem, de quem quer e tem o direito de ser livre. Pensei em Reich quando soube dos 17 mil empata-vidas que assinaram a vergonhosa petição a defender a descriminalização da tortura e da negação de vida que são as chamadas terapias de conversão de pessoas LGBTQIA+. Sentiram-se, provavelmente, autorizados pelo ambiente LGBTfóbico criado pelo Chega, e pelos votos do PSD e do CDS, que já tinham aprovado restrições à autodeterminação de género. Dezassete mil empata-vidas que, esses sim, necessitariam de uma terapia de conversão que os fizesse, se seguirmos as teorias de Reich, deixar de reprimir os seus próprios desejos. E, se seguirmos a minha teoria, meterem-se na sua própria vida. Entretanto, nem tudo está perdido: uma contrapetição, intitulada “Contra a legalização de terapias de conversão de identidade de género e orientação sexual”, promovida por Maria João Vaz e Miguel Salazar, e que continua aberta à participação, já ultrapassou as 70 mil assinaturas.
Seria interessante inverter o dispositivo e imaginar uma terapia de conversão da identidade e orientação fascista: o mesmo cenário, a mesma promessa de correção, mas com outros corpos no divã. No entanto, já tivemos uma espécie de ensaio, não em consultório, mas em horário nobre na televisão, no desafio lançado pelo historiador político José Pacheco Pereira ao seu ex-camarada de partido, e agora líder da extrema-direita partidária portuguesa, André Ventura. Aqui, o “paciente” não se deitou, posicionou-se frente a frente ao “terapeuta”. Este apresentou factos com a insistência de quem ainda acredita na força da demonstração, metendo a mão na palmatória; o outro respondeu com a bufonaria de um comentador de futebol. Um achou que ia converter. O outro insistiu em deturpar e relativizar, assumindo as suas simpatias fascizantes.
Começa a “terapia”: exposição aos factos, relatórios, arquivos, teses, livros. O paciente mantém-se reticente, contrapondo com os seus próprios “factos” ou com interpretações alternativas dos mesmos dados. Seguem-se exercícios de inversão empática: o “terapeuta” convida o “paciente” a imaginar-se no lugar de outrem. O “paciente” continua a resistir. Para que a empatia funcione, é necessário pressupor uma humanidade partilhada; o paciente parece operar com um défice dessa premissa. O “paciente” defende que a “revolução foi miserável”, como se a democracia fosse um erro histórico e a ditadura o estado natural das coisas. Não o passado a superar, mas o futuro a recuperar. O novo é o Salazar, o velho é o 25 de Abril. A democracia torna-se um regime datado, O fascismo deixa de ser memória a não repetir e passa a insinuar-se como proposta a considerar. Salazar is the new black.
Depois de várias técnicas e tentativas, a sessão falha. O “paciente” sai convencido de que resistiu à terapia e de que no processo poderá até ter reforçado a convicção de muitos “pacientes” como ele. O “terapeuta”, por seu lado, revelou carregar consigo os seus próprios automatismos, recorrendo a insultos racistas ou capacitistas, como “pretos” ou “atrasado mental”. Pelos vistos, há crueldades que se denunciam com facilidade, outras passam pela boca sem consciência. Que os dois venham da mesma casa é matéria para os historiadores do PSD, mas o que os separa é essencial: um defende a democracia, o outro relativiza a ditadura e os piores crimes contra a Humanidade.
Conclusão: as terapias de conversão da identidade e orientação fascista são contra-indicadas para intervenção individual, mas recomenda-se um outro tipo de intervenção estrutural. O fascismo não é uma doença, não se cura, combate-se. Vinte e cinco de Abril sempre!
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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