Debate de ideias, não de pessoas

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Na segunda-feira à noite, dois portugueses sentaram-se frente a frente numa televisão e fizeram algo raro: debateram. Não trocaram insultos disfarçados de argumentos, não proferiram frases ensaiadas para o próximo clip das redes sociais, não fugiram para o terreno confortável da vítima ou do perseguidor. Durante hora e meia, com interrupções, atropelos, palmatórias à mistura, José Pacheco Pereira e André Ventura discutiram história, violência política, ditadura e democracia. Pode ter sido desconfortável. Foi, porém, necessário. E foi bom.

O pretexto foi uma afirmação de Ventura na sessão solene dos 50 anos da Constituição, segundo a qual pouco depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que dantes. Pacheco Pereira contestou-a com dados: houve mais de 12 mil presos políticos entre 1945 e 1974, além de milhares detidos nas colónias, e lançou o repto para um debate. Ventura aceitou. As regras eram simples: sem ataques pessoais, cada afirmação documentada. Na prática, o duelo acabou dominado pela técnica “futebolística”, populista e amalgamada com que Ventura e as suas permanentes interrupções condicionam, em favor próprio, os debates em que participa. Pacheco Pereira respondeu com livros, relatórios e uma palmatória literal, levada para ilustrar as torturas nas colónias. O debate foi irregular. Mas aconteceu.

E ainda bem que aconteceu. Vivemos numa época de verificação compulsiva. Cada afirmação gera um fact-check, cada discurso convoca os polígrafos do jornalismo, cada declaração é pesada na balança da literalidade. É útil, sem dúvida. Mas há um efeito secundário perverso: a obsessão pela verificação de factos tornou-se ela própria uma forma de esquivar o debate. Diz-se que alguém mentiu, classifica-se a mentira, atribuem-se conotações e considera-se o assunto encerrado. O erro factual é denunciado, mas a ideia que lhe subjaz, a visão do mundo que lhe dá força, essa fica intocada, a circular livremente no espaço público.

O que Pacheco Pereira fez foi diferente. Em vez de se limitar a corrigir Ventura num programa de comentário, o que fez, e bem, foi desafiá-lo a sentar-se, a documentar, a defender as suas posições em confronto direto com quem as contesta. É uma escolha mais arriscada, mais ingrata, mais propícia ao atropelo e à desordem. É também a única que tem efeito real sobre quem acredita no que Ventura diz, porque o eleitorado do Chega não lê fact-checks, limita-se a ouvir debates.

Há uma ironia neste confronto que merece ser sublinhada. Pacheco Pereira não representa o pensamento dominante do PSD. Está, em muitas questões, bem mais à esquerda do partido que ajudou a construir. É um conservador de outra época, formado nas tradições do debate parlamentar, nos argumentos sustentados por fontes, na ideia de que a política é uma atividade intelectualmente séria. Ventura, por seu lado, não representa propriamente a extrema-direita no sentido histórico do termo, é um populista que ataca os temas que carecem de tempo de antena, sem ideologia estável, mas com audiência.

Ou seja: este foi um debate entre uma certa ideia de direita, culta, historicista, incómoda para o próprio partido, e uma certa ideia de protesto que se instalou à direita por conveniência eleitoral, mais do que por convicção doutrinária. Não foi um debate entre dois polos simétricos. Mas foi o debate possível e real, coisa cada vez mais escassa.

E tal faz lembrar tempos idos. Almeida Garrett foi aclamado como um dos maiores oradores do Liberalismo, deputado que trouxe ao parlamento a força de quem entendia a política como uma tarefa ao mesmo tempo cívica e literária. Alexandre Herculano, primeiro seu companheiro de lutas liberais, eleito deputado pelo Porto em 1840, levou para as Cortes a mesma seriedade de quem via na história uma responsabilidade moral. Discordaram em vida, sobre a Igreja, sobre o ritmo das reformas, mas fizeram-no com a convicção de que as ideias valem o esforço de serem defendidas em público, com nome e rosto. O parlamento saído da Revolução Liberal foi, assim, uma arena de combate intelectual onde o argumento pesava.

Ainda no século XIX, mas mais no final, os escritores Fialho de Almeida e Eça de Queirós, ambos implacavelmente críticos da sociedade da sua época, também tiveram uma relação complexa e por vezes hostil: Fialho admirou primeiro o realismo queirosiano, mas depois afastou-se dele, e a hostilidade foi crescendo ao longo dos anos. Eram o reverso um do outro: o diplomata cosmopolita que via Portugal de fora, e o alentejano boémio que o via de dentro, com fúria e ternura. Quando Eça morreu e o cortejo fúnebre passou pelas ruas de Lisboa, Fialho de Almeida apareceu a assistir, em pleno Rossio, exibindo uma inconfundível gravata vermelha. Ninguém se esqueceu do gesto, era uma provocação, numa cidade burguesa que prestava homenagem ao grande escritor, mas também foi, de alguma forma, uma homenagem, pois só um grande respeito intelectual pode ter justificado um ato tão arrebatado num funeral de Estado.

Hoje, os debates televisivos são frequentemente episódios de gestão de imagem. Os “opinion makers” que dominam o espaço mediático decidem quem ganhou, com notas, geralmente quem não errou, não se exaltou, não perdeu o fio condutor. É uma métrica razoável para avaliar competência comunicativa, mas é uma métrica inútil para avaliar a qualidade do pensamento. Ventura, avaliado por essa régua, “perde” frequentemente os debates. O seu eleitorado não assiste ao mesmo debate que os comentadores. Assiste a um outro, onde a energia e a acutilância contam mais do que a elegância, e o atrevimento mais do que a precisão.

Pacheco Pereira deu-se ao trabalho. Não era obrigado. Podia ter ficado no seu programa, na sua coluna, no seu espaço confortável de comentador respeitado. Em vez disso, sentou-se com o adversário e debateu durante hora e meia, com documentos, com uma palmatória, com tudo o que tinha à mão. Ventura também se deu ao trabalho, aceitou regras que lhe eram teoricamente desfavoráveis, apareceu, discutiu. Debatem-se ideias quando há pessoas dispostas a arriscar. Debatem-se pessoas quando não se têm ideias para defender.

A sociedade civil, representada aqui, de certa forma, por Pacheco Pereira, deveria vir mais vezes a terreiro, fora dos períodos eleitorais, sem a cobertura de uma candidatura ou de um partido. Não para ganhar debates, mas sim para fazê-los existir. Porque o debate imperfeito, ruidoso, interrompido, incómodo, documentado com palmatórias, é infinitamente preferível ao silêncio elegante de quem escolheu não se sentar.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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