Nos tempos que correm, é raro conhecer um lugar pela primeira vez sem antes nos familiarizarmos com o que nos espera, por força do hábito e da facilidade com que se faz uma pesquisa online antes de nos pormos a caminho. Na maioria dos casos, já percorremos no ecrã algumas imagens que nos preparam para a visita. Na Quinta de Valinhas, no entanto, a surpresa é inevitável.
Apesar da antiguidade e da longa história de produção de uva e vinho a granel, só muito recentemente foi lançada a marca própria e as suas primeiras referências, pelo que a operação está concentrada no produto, e a presença na internet é ainda discreta. O que faz que a chegada à propriedade, em Lordelo, seja um verdadeiro momento de descoberta.
Primeiro surgem as ruínas da antiga habitação e da eira da quinta, datadas do século XVII, onde futuramente serão instaladas a adega e a sala de provas.
Mais adiante, ao fundo de um caminho coberto por ramada, avista-se uma bonita casa ao estilo de torna-viagem, onde, para já, Eduardo Magalhães recebe alguns convidados (Singular incluída) a quem a curiosidade impele a ir conhecer os vinhos Dardas in loco.
Um alvarinho e um avesso pousam sobre a mesa, numa saleta luminosa, de janelas voltadas para o jardim, onde as árvores em flor anunciam a chegada da Primavera. A antecâmara dá passagem a uma sala de estar com fotografias de família que dão mais pistas sobre esta propriedade secular, passada de geração em geração pelo menos desde o século XVI. “Quem fez esta casa foi o meu bisavô, quando voltou do Brasil”, lança Eduardo.
Foi também esse antepassado quem plantou ali uma das primeiras vinhas contínuas da região. “Ele foi a Bordéus na altura e trouxe de lá umas ideias”, conta o agrónomo, hoje responsável pela viticultura na quinta onde passou muitas temporadas da sua infância.
“Quando eu era pequeno isto era tudo lavrado a bois”, recorda. “Sempre existiu vinha e nós vendíamos muito vinho a granel, a maior parte ainda tinto. Pouca gente fazia branco, e o que se fazia era para exportação”, lembra. Com o tempo, a proporção inverteu-se, e a região dos Vinhos Verdes passou a ser reconhecida pelos seus brancos
Maria João Gala
Em 1998, Eduardo assumiu a gestão da quinta e iniciou a reconversão dos campos e de algumas manchas de bosque em vinha, que hoje totaliza 22 hectares. “O projecto começou por ser para venda de uva”, realça. Em sociedade com os irmãos Manuel e Gonçalo Magalhães e outro parente, Frederico Aranha, o negócio foi crescendo e a certa altura surgiu a vontade de terminar o ciclo, da uva à garrafa.
Em 2021 lançaram para o mercado as primeiras referências. “O meu pai nasceu nesta casa e não bebia Vinhos Verdes, só bebia vinho do porto, vinho fino. Quando começamos a fazer o alvarinho, ele dizia: para Vinho Verde isto até se bebe”, partilha Eduardo, satisfeito.
Voltamos à mesa. O anfitrião verte nos copos o Dardas Alvarinho 2024, proveniente da vinha com o mesmo nome, na Quinta de Valinhas; e o Dardas Avesso 2024, feito com uvas provenientes de vinhas velhas, da Casa de Agrelos, em Baião. Ambos de perfil clássico, elegantes. Ambos vinhos de gota (ou de primeira prensagem). E com mínima intervenção na adega.
“Tentamos mexer o menos possível no vinho, a uva tem de mostrar o terreno”, diz Eduardo, que apesar de ter também assumido a enologia do projecto, ainda é à vinha que dedica maior atenção. “Com boas uvas é provável conseguir um bom vinho, e por isso tentamos fazer o melhor possível nas nossas vinhas. Claro que no início o nosso foco era produzir muitos quilos, agora a viticultura mudou.”
Ao portefólio irão juntar-se em breve algumas das experiências que têm vindo a fazer, entre elas um alvarinho de passerillage – “14 dias antes da vindima cortámos o ramo, as uvas ficaram lá a desidratar, e 14 dias depois vindimámos essas uvas e fizemos este vinho”, explica o produtor –, com 18 meses de estágio em barrica. Um vinho complexo, com notas florais no nariz e um final de boca carregado de mel.
O objectivo é essencialmente levar ao mercado um produto diferenciado e esse será o fio condutor dos vinhos Dardas daqui em diante. A distinção poderá até passar por um regresso às origens da região e pelas uvas tintas. “Vou fazer um campo de ensaios, quero voltar a ir buscar alguma dessas castas”, decreta Eduardo. Só o tempo dirá que frutos virão ainda da Quinta de Valinhas.
Maria João Gala
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O pulmão de Lousada
A paisagem do concelho é uma manta de retalhos, marcada por uma mescla de complexos industriais, habitações, campos agrícolas, vinhas e pequenas manchas de bosque, que ajudam a manter o equilíbrio do ecossistema. Exemplo disso mesmo é a Mata de Vilar. Encaixada entre grandes parcelas de vinha, é a maior mancha de floresta nativa de Lousada, com uma área superior a 14 hectares.
“A mata funciona como uma ilha, um refúgio para a biodiversidade”, defende Ana Pereira, bióloga responsável pela gestão do espaço. “Lousada é um território extremamente fragmentado, e estes bosquetes entre vinhas são muito importantes para os animais entrarem e saírem da mata e chegarem a outros locais, são corredores verdes”, explica, enquanto caminhamos por um dos trilhos da mata: há cinco percursos que atravessam os vários habitats do parque, entre eles um trilho acessível para pessoas invisuais e em cadeira de rodas.
A antiga mata privada da Casa de Vilar é agora um espaço de conservação ambiental, aberto a todos os que queiram conhecer a sua fauna e flora, ou simplesmente passear no meio da natureza, com uma sinfonia de aves a ecoar nas copas. Com alguma sorte, avista-se um casal de águias-de-asa-redonda a sobrevoar a mata, que começa a despertar para a estação verde, com os narcisos-bravos, delicados e discretos, a florescer nas bermas dos caminhos.
Maria João Gala
Além das visitas interpretadas, a Mata de Vilar tem ainda à disposição um extenso catálogo de actividades, como o trilho sensorial, que se faz descalço e de olhos fechados, aulas de bordado, workshops de construção e brinquedos com materiais naturais, extracção de mel no apiário do parque ou concertos acústicos no vale das faias. Tudo isto pode ser conjugado com uma visita à Casa Museu de Vilar e à sua exposição dedicada ao cinema de animação.
Muito perto dali, ergue-se também a Torre de Vilar, um dos exemplos da arquitectura românica do concelho. A reabilitação do monumento, integrado na Rota do Românico, incluiu a criação de um parque de lazer em redor, que se transformou num espaço de convívio para a comunidade, pelo que não é só o legado histórico que justifica uma visita.
Querendo, no entanto, saber mais sobre este estilo que marcou a Europa medieval entre os séculos XI e XIV, o Centro de Interpretação do Românico, no coração da vila, é um bom ponto de partida. O edifício sobressai desde logo pelo arrojo da sua arquitectura contemporânea, que dialoga com elementos evocativos do românico, como os arcos de volta perfeita e o átrio central que lembra os claustros dos mosteiros.
No interior, ao longo de seis salas interactivas, explica-se o contexto histórico, social e religioso que deu origem à arte românica. “Os monges beneditinos foram os principais difusores do românico”, informa o guia Joaquim Costa, apontando para um mapa onde estão assinalados os 58 monumentos que compõem a rota. “Antes de irem aos sítios, recomendamos aos nossos visitantes começarem por aqui, porque vão ter uma panorâmica geral dos vales do Tâmega, Sousa e Douro, e das características da arte românica. Depois conseguem olhar para os monumentos de outra forma”, aconselha. Dali, abre-se o caminho para explorar o território.
Maria João Gala
Tradição à mesa, experimentalismo na vinha
Ainda na vila, procurando poiso para retemperar energias, encontra-se mesa de sustento n’O Visconde, um restaurante familiar cuja cozinha continua a girar em torno de um princípio simples: bons produtos. “Tendo produtos de qualidade, o importante é não estragar”, defende Samuel Teixeira, hoje ao leme do restaurante que os pais abriram há 30 anos.
O receituário da mãe, Filomena Mendonça, continua a ser o pilar da carta, ainda que Samuel tenha procurado introduzir também uma vertente mais autoral. “O cliente queria comida de sustento, cozinha tradicional”, confessa. E assim se acataram os desejos dos comensais.
Os fornos a lenha trabalham diariamente e são o coração da cozinha. É lá que se faz a sopa, apurada lentamente, e o cabrito assado, umas das especialidades da casa, servido com arroz de forno, claro. Aos sábados também há costela mendinha assada e, em tempo dele, o cozido é outro dos destaques. “É feito com um fumeiro particular de Montalegre e carnes frescas de porco bísaro criado por nós”, realça Samuel. “Quando acaba o fumeiro acaba o cozido”, declara. Acabando o fumeiro, mas havendo ainda carne de bísaro, seguem os rojões no calendário gastronómico da casa.
Não mexendo nos estandartes da casa, Samuel conseguiu ainda assim inovar numa parte do negócio. Logo à entrada do restaurante, sobressai uma garrafeira envidraçada, que compõe com a sua selecção pessoal. “Sempre gostei muito de vinho, fui comprando e investindo. Há 16 ou 17 anos, conheci uma arquitecta e lancei-lhe o desafio de desenhar uma garrafeira. Curiosamente, hoje em dia é a minha esposa”, conta.
Tem vinhos de todo o país e além-fronteiras, mas procura divulgar especialmente o que se faz na região, representada em particular pelas sub-regiões de Sousa, Baião e Monção e Melgaço. “Quando temos abertura de clientes novos, tentamos sempre que eles provem o vinho da região, porque é um vinho único”, defende.
Maria João Gala
Um dos produtores locais que habitualmente recomenda é a Quinta de Lourosa, projecto familiar com alma experimentalista, em Sousela. “A propriedade era de um tio-avô do meu pai”, conta Joana de Castro. Depois passou para o avô da anfitriã, que foi um dos fundadores da Adega Cooperativa de Lousada. “Na altura tinha quatro hectares de vinha. Só no tempo do meu pai e já na minha geração e do meu irmão é que aumentamos a área de vinha, que agora está em 30 hectares, e começamos a engarrafar vinho”, conta a enóloga.
O pai, Rogério de Castro, foi professor catedrático de viticultura do Instituto Superior de Agronomia e assumiu as rédeas da propriedade há mais de 30 anos, construindo uma nova adega, e replantando a vinha, usando o sistema de condução em Lys, criado por ele. Desde então, a veia científica continuou a orientar os trabalhos de campo.
“As nossas vinhas são alvo de muitos ensaios, o nosso objectivo é levar o que se faz na vinha até à garrafa, até ao vinho, para perceber que tipo de diferenciações podemos criar. Nós fazemos o típico Vinho Verde, mas trabalhamos muito com castas próprias da região, e com baixa intervenção na adega. Depois as experiências, os sistemas de condução diferentes, as podas diferentes, tudo isto faz que haja uma série de vinhos que se pode produzir. Aqui na quinta acaba por haver uma componente experimental muito curiosa”, explica Joana.
Maria João Gala
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Quem visita a Quinta de Lourosa consegue perceber isso em primeira mão. Quando lançaram os primeiros vinhos, há mais de 20 anos, foram também pioneiros na abertura da quinta ao enoturismo. Além das visitas guiadas e das provas, a casa onde a família vive serve igualmente de refúgio a quem queira passar uns dias no sossego do campo.
De regresso à vila, outra embaixada da cozinha tradicional e dos vinhos da região é o restaurante O Brazão, mais um legado familiar que continuou a florescer com as novas gerações. Os irmãos Luís, Ana e Rui Mendonça dirigem o negócio que os pais abriram em 1980, ainda com a mãe Maria da Glória ao comando da cozinha.
As suas afamadas pataniscas, de exterior estaladiço e interior macio e fofo, e a broa caseira abrem habitualmente a refeição, seguindo-se pratos de conforto, como o bacalhau frito, com cebolada, os assados, a feijoada e outras especialidades que ali atraem comensais há mais de quatro décadas. “Já fiz aqui baptizados dos filhos de quem fiz aqui comunhões”, comenta Luís, para explicar que o restaurante foi sendo frequentado por famílias ao longo de várias gerações, mesmo quando foram obrigados a mudar temporariamente para outra morada, após um incêndio destruir o edifício.
“Só ficou a fachada”, recorda Luís. Mas a vontade de manter o legado da família fê-los reconstruir tudo de novo. Aproveitaram ainda o impulso para introduzir novidades à carta, como o bife Wellington e o tomahawk, lufadas de ar fresco que complementam a tradição. Porque para brotar novos rebentos é preciso manter as raízes.
Maria João Gala
Este artigo foi publicado na edição n.º 19 da revista Singular. A Singular é uma revista do PÚBLICO com o apoio da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. A Singular é uma publicação estritamente editorial, concebida, produzida e editada pela redacção do PÚBLICO com total independência e em cumprimento das regras internas para conteúdos apoiados. Pode saber mais sobre a política de conteúdos apoiados do PÚBLICO neste artigo.
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