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Michelle Landgraf, 48, vive em Portugal há quatro anos recém-completados, mas as suas raízes gaúchas não a distanciam de dois universos intrínsecos à cultura gastronômica do Rio Grande do Sul: o do churrasco e o do vinho, apesar de ir muito além disso.
Chef de cozinha e sommelière, que atua no setor de eventos em terras lusas, ela também começou a produzir vinhos em 2023 na Quinta da Rainha, em Torres Novas, a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa. Aliás, foi nesta propriedade em recuperação que pertenceu ao Duque de Lafões e vocacionada a eventos como casamentos que o percurso de Michelle em Portugal começou.
Arquivo Pessoal
“Recebi um convite para assumir a gastronomia da quinta em 2022 e decidi me mudar com a família”, diz. Entre um evento e outro, permeado pelo trabalho de cultivo da terra e diálogo com os demais produtores locais, veio a ideia de recuperar o pequeno vinhedo da propriedade, com as castas Aragonês, Touriga Nacional, Trincadeira e Cabernet Sauvignon.
“Nosso primeiro lote em 2023, com 300 garrafas, teve a Cabernet, mas optei por arrancá-las para prestigiar apenas as uvas autóctones”, diz. E vai mais longe: está em vias de fato de iniciar o cultivo de uma das castas em extinção, a Vinhão, e, também, de Castelão, Arinto e Fernão Pires, típicas do Ribatejo, onde está a propriedade para a qual hoje presta serviços. “É uma formar de valorizar a terra que me acolheu”, diz.
O projeto de vinificação, é importante frisar, é feito em parceria com o enólogo João Nunes, do Alveirão, e o próximo lote do A Caminho dever ter 600 garrafas. Aliás, o nome do vinho tem muito a ver com a efervescência da vida desta gaúcha. “Minha próxima empreitada vai ser produzir vermute aqui em Portugal”, conta.
Churrasco
Como boa gaúcha que é, Michelle Landgraf manda ver quando o assunto é churrasco. “Faço no fogo de chão, no espeto e na parrilha, ao gosto do cliente”, brinca. Em um universo dominado pelos homens, ela tem uma teoria um tanto quando curiosa, que em uma perspectiva lógica, faz muito sentido: foram as mulheres que inventaram o churrasco.
Arquivo Pessoal
“Lá na pré-história, os homens eram responsáveis pela caça e as mulheres, por preparar a comida. Como o fogo foi o primeiro modo de cozer a carne, faz sentido que elas tenham começado essa arte”, acredita.
Apesar de não haver comprovação científica sobre o tema, a verdade é que Michelle domina como poucas a arte do churrasco. Mas, apesar de fazer muitos eventos privados em torno dele, não quer ser apenas conhecida por isso. “Faço todo o tipo de comida, inclusive portuguesa”, enfatiza.
Nessa seara da portugalidade, ela reforça a afeição pelos ingredientes do país e pela rede de pequenos produtores rurais, da qual faz parte com o projeto Hortas da Rainha, desenvolvido na quinta. “O ovo que usamos nos eventos é das galinhas locais, por exemplo”, reforça.
Arquivo Pessoal
Percurso
Quem vê Michelle tão familiarizada com o universo gastronômico não imagina que a carreira na área é um tanto quanto recente. Apesar de vir de uma família afeita à comida — o avô, José Maria, era responsável pelo catering da extinta companhia aérea Varig e os tios têm restaurantes — ela construiu carreira no mercado financeiro.
“Foram 21 anos trabalhando em banco, até que decidi dar uma guinada na vida para me dedicar mais às minhas filhas”, diz, em referência a Nicole, hoje com 21 anos, e Sofia, com 12.
Abriu o Casual Gastrobar, ainda no Rio Grande do Sul, que a impulsionou a buscar um conhecimento mais aprofundado sobre vinhos, que sempre fizeram parte da vida dela. “Na minha terra, a gente bebia vinho desde criança, misturado com água e açúcar”, relembra, entre risos, em algo impensável para os dias atuais, diga-se de passagem. “Fui da segunda turma da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), lá em 2015”, sublinha.
O curso foi um divisor de águas, que deu a ela uma grande versatilidade na carreira gastronômica. Hoje, ela se divide entre os dois universos. “Faço muitos eventos em que comida e vinho dialogam”, diz.
E por falar em eventos, a nova empreitada dela, ao lado da também brasileira Luciana Vale, é o projeto AR, focado no diálogo entre cultura, comida e vinho. “O ar é o combustível da vida. Alimenta tudo”, filosofa. “Temos feitos coisas interessantes. O próximo encontro será no dia 24 de abril, em referência ao 25 de Abril, que marcou o fim da ditadura de Salazar em Portugal”, diz.
A dupla, ao lado do artista português Alexandre Seixas e de um seleto grupo de artistas plásticos e literários, promove uma espécie de sarau no espaço The Cooking Nook, no Campo de Ourique, regado a muito vinho e acompanhado de queijos, pão de fermentação longa e azeite.
A prova foi batizada de Brinde à Liberdade — Vinho e História Viva, com um propósito claro: fortalecer o sentido de resistência e renascimento vinculados ao 25 de Abril, que ela compara aos momentos combativos no período da ditadura brasileira. Dói ter que explicar a todo momento, mas necessário para manter o espírito de liberdade, não de um modo combativo, mas de resistência. Ainda mais nos tempos atuais, onde a extrema-direita ganha corpo”, diz. O preço do evento, com vagas limitadas, é de 45 euros.
Na sequência, no dia 21 de maio, será a vez de misturar livros e vinhos em um jantar no espaço A Mosca na Sopa, que mistura livros, petiscos e, é claro, vinhos. “Fomos desafiadas a criar um menu com base no livro Deus e Outros Animais (de Rui Caeiro)”, adianta.
Já no começo do Verão, em junho e julho, está em curso uma popup batizada de Petiscaria, ainda sem lugar certo, com outros dois chefs brasileiros: Danilo Martins e Thomaz Badia.
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