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A expectativa em torno da visita de Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, a Lisboa, vai além de um gesto diplomático. Os encontros previstos, tanto com António José Seguro, Presidente, como com Luís Montenegro, líder do Governo, representam uma oportunidade concreta para reposicionar uma relação que, sendo historicamente próxima, nem sempre tem sido estrategicamente pensada.
Durante décadas, Portugal e Brasil olharam-se através do espelho da história — invocando laços, língua e afinidades culturais. Mas, como escreveu Fernando Pessoa, “o passado é um país estrangeiro”. Persistir em habitá-lo como referência principal limita a ambição de uma relação que hoje é tudo menos nostálgica.
A ligação luso-brasileira contemporânea constrói-se com investimento cruzado, mobilidade qualificada, redes acadêmicas e circulação de talento. Portugal afirma-se como porta de entrada na Europa para muitos brasileiros; o Brasil continua a ser espaço de escala e projeção para empresas portuguesas. Esta é uma relação estratégica — e exige visão à altura.
Como lembrou Machado de Assis, “não se escreve a história com lágrimas, mas com decisões”. É precisamente isso que este momento pode simbolizar: a passagem de uma relação ancorada na evocação para uma relação orientada por estratégia.
A questão é clara: estamos preparados para essa mudança?
Persistir numa abordagem centrada quase exclusivamente na lógica das “comunidades” é ignorar a transformação das últimas décadas. Hoje, falamos de empresários, acadêmicos, investidores e quadros altamente qualificados — protagonistas de uma relação global, não de uma diáspora do passado.
Este novo contexto exige mais do que simbolismo. Exige coerência institucional, coordenação estratégica e ambição política. Num mundo onde os países competem por influência, investimento e talento, não basta partilhar história — é preciso construir futuro.
Nas palavras de Clarice Lispector, “o futuro não é um lugar para onde estamos a ir, mas um lugar que estamos a criar”. É essa criação que se espera de Lisboa.
A presença de Lula em Portugal e o diálogo com as principais lideranças portuguesas podem marcar o início de uma nova etapa — não como ruptura, mas como evolução. Não como cerimônia, mas como decisão.
Portugal tem no Brasil mais do que uma memória partilhada: tem um parceiro estratégico. Falta assumi-lo com clareza. O futuro constrói-se juntos.
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