Há qualquer coisa de estranhamente reconfortante no extremismo. Não digo isto para o defender, mas porque, se quisermos compreendê-lo, temos primeiro de reconhecer aquilo que o torna sedutor.
No conhecido monólogo satírico de John Cleese em 1987, a ideia que expõe é simples: o extremismo seduz porque conforta. Seja à esquerda ou à direita, oferece o mesmo alívio moral: dá-nos inimigos, simplifica o mundo e faz-nos acreditar que o mal está sempre do outro lado.
A sua vantagem imediata é essa: simplificar. E o mundo já se apresenta demasiado confuso, desigual, acelerado, complicado e, muitas vezes, humilhante. É nesse contexto que o extremismo surge com uma promessa irresistível: não pense demasiado, eu explico-lhe tudo. E a explicação é sempre sedutoramente simples: há culpados, há inocentes, há um “nós” bom e um “eles” mau.
É uma proposta emocionalmente eficiente. De repente, deixamos de ter de lidar com ambiguidades, contradições, dúvidas ou responsabilidades partilhadas. Tudo passa a caber numa narrativa simples, moralmente confortável e politicamente clara.
É por isso que raramente se apresenta como extremismo. Apresenta-se como lucidez. Como coragem. Como verdade sem filtros. Como a última resistência contra a decadência, a traição, a manipulação, o sistema, as elites, os outros.
Mudam as palavras, mudam os alvos, muda a estética, mas o mecanismo repete-se.
No fundo, seja de direita ou de esquerda, oferece a mesma recompensa psicológica: aponta-nos inimigos. E ter inimigos organiza-nos por dentro. Dá-nos foco. Dá-nos pertença. Dá-nos identidade. Dá-nos, até, uma certa sensação de superioridade moral. Se o mal está concentrado nos outros, então o bem, por exclusão, fica do nosso lado. É uma economia moral extremamente conveniente.
O problema é que essa conveniência tem um preço alto. Quando nos habituamos a ver o mundo em blocos morais absolutos, deixamos de ver pessoas. Passamos a ver categorias. Rótulos. Tribos. Perfis. Discutimos menos e acusamos mais. Escutamos menos e reagimos mais. Pensamos menos e obedecemos mais.
E esse processo não acontece apenas nos extremos clássicos da política. Acontece também no comentário diário, nas redes sociais, nas pequenas indignações, na necessidade constante de exibir pureza ideológica e denunciar a impureza alheia. No “trollismo” sem densidade. Hoje, o extremismo não vive apenas em movimentos organizados. Vive também em hábitos mentais, reflexos, formas de falar e formas de reduzir o outro a um estereótipo ou a uma caricatura.
Talvez por isso seja tão fácil condenar o extremismo dos outros e tão difícil reconhecer o nosso. Porque raramente começa com ódio declarado. Muitas vezes começa com prazer moral: o prazer de ter razão, de desprezar com convicção, de sentir que pertencemos ao lado certo da história sem o incómodo de pensar demasiado sobre isso.
Mas uma democracia adulta não se constrói com prazer moral. Constrói-se com tolerância ao desconforto. Com capacidade de ouvir o que nos irrita sem transformar isso automaticamente numa ameaça. Com firmeza, sim, mas também com proporção. Com princípios, mas sem fanatismo. Com conflito, mas sem desumanização.
Recusar o extremismo não significa ser neutro perante a injustiça. Não significa aceitar tudo, relativizar tudo ou dissolver diferenças reais num centrismo preguiçoso. Significa, isso sim, recusar a lógica infantil que transforma adversários em monstros e divergências em guerras santas.
Talvez a verdadeira maturidade cívica comece quando percebemos que o extremismo não é um desvio alheio, mas uma possibilidade humana permanente. Enfrentá-lo exige mais do que denunciá-lo: exige resistir ao conforto que oferece, o conforto de ter sempre razão, de ter sempre culpados, de nunca ter dúvidas.
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