Mais literacia, melhor democracia – ensinar a pensar no legado de Abril

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“Educar é decidir se amamos suficientemente o mundo para assumirmos responsabilidade por ele.”
Hannah Arendt, 1958

Tem sido notícia a intenção de transformar o sistema de ensino português, colocando a literacia, a numeracia e as competências de comunicação, incluindo a proficiência em língua inglesa, no centro do acesso ao ensino superior. Mais do que uma alteração técnica ou administrativa, esta discussão abre espaço para pensar o essencial: o que significa estar preparado para viver e decidir numa sociedade baseada no conhecimento.

Durante décadas, olhámos para o sistema de ensino como um espaço de transferência de informação baseada em dados. A escola foi concebida como um reservatório de conteúdos. O sucesso media-se pela quantidade de informação retida e reproduzida, num tempo em que o acesso ao conhecimento era escasso. Hoje, o problema é precisamente o inverso: a informação é abundante, permanente e, muitas vezes, contraditória. O desafio já não é obtê-la, mas compreendê-la, avaliá-la criticamente e usá-la com sentido.

É aqui que a literacia assume um papel decisivo. Não como soma de saberes, mas como competência para navegar num mar de dados sem bússola aparente. Ensinar literacia é isso mesmo: dar instrumentos para compreender o mundo antes de o transformar ou, na alegoria de Arendt, para assumirmos responsabilidade sobre ele.

Esta mudança é muito mais do que um refinamento dos instrumentos de seriação entre candidatos para escolher quem entra ou não no ensino superior. Reduzi-la a isso seria perder o essencial. O que está verdadeiramente em causa é a formação de uma geração capaz de pensar, decidir e agir com autonomia.

Falamos frequentemente de literacia em contextos setoriais: literacia em saúde, em finanças, no digital, na ciência ou nas atividades cívicas. Muitas vezes limitamo-nos a despejar informação, esperando que, no final, cada pessoa seja capaz de unir as pontas e criar utilidade. Trata-se de uma visão instrumental e, por isso mesmo, incompleta.

Não há falta de literacia setorial: há falta de literacia em Portugal.

A literacia não serve apenas para o sucesso académico ou profissional. Serve para a vida. Pessoas com literacia são mais resistentes à desinformação, mais capazes de participar no espaço público e mais livres nas suas escolhas. Num país tantas vezes marcado por um pessimismo resignado, esta pode ser uma alavanca decisiva para substituir a adaptação passiva pela esperança ativa, a desconfiança pela responsabilidade e a sobrevivência pelo projeto.

Este é um caminho de futuro que exige uma escola capaz de ensinar a pensar segundo uma lógica simultaneamente científica e humanista: observar, questionar, errar, refletir e corrigir, num tempo em que qualquer motor de busca substitui, com vantagem, as horas de biblioteca de outros tempos. Mas exige também atenção a um risco contemporâneo: o de confundir literacia com automatismo, pensamento crítico com procedimento e inteligência com algoritmo. Sem valores humanistas, a literacia pode perder o rumo; com eles, torna-se o fundamento da cidadania. O conhecimento nunca é neutro e pensar é sempre um ato ético.

No momento em que assinalamos os 52 anos da Revolução do 25 de Abril e os 50 anos da Constituição democrática da República Portuguesa, importa sublinhar que a liberdade não se esgota nos direitos inscritos na lei. A verdadeira liberdade reside no exercício desses direitos e é pela literacia que os conseguimos concretizar. Só quem compreende a informação, distingue o facto da manipulação e pensa criticamente é verdadeiramente livre.

Recebemos o legado de Abril e temos a obrigação de o promover. Talvez a melhor homenagem seja esta: formar cidadãos capazes de ler o mundo, de o questionar e de o escrever de novo. Porque a liberdade, tal como a democracia, não se herda apenas; aprende-se, pratica-se e constrói-se todos os dias.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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