Na Rússia há um britânico que restaura relógios da era soviética para o mercado de luxo — e para Putin

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Quando David Henderson-Stewart visitou pela primeira vez a fábrica de relógios Raketa, na Rússia, os poucos relojoeiros que ainda restavam estavam amontoados, vestidos com casacos de Inverno, em torno de um equipamento antigo.

O antigo advogado britânico não sabia nada sobre relógios, mas o seu amor pelo design soviético levou-o a ver potencial naquela empresa em dificuldades, que outrora empregava sete mil trabalhadores e produzia relógios tanto para astronautas como para o mercado de massas.

Agora, o Presidente Vladimir Putin usa um relógio fabricado pela sua filial especializada, a Imperial Peterhof Factory. “Nunca teria encontrado algo tão interessante como a Raketa no Ocidente”, declara Henderson-Stewart, que não usava relógio até ter adquirido a fábrica nos arredores de São Petersburgo com um sócio, em 2010.

O desejo de viver no estrangeiro levou Henderson-Stewart a mudar-se para a Rússia para trabalhar na área do Direito, após ter estudado em Oxford e na Universidade da Sorbonne, em Paris. O britânico ficou por lá, criando três filhos, todos com cidadania russa.

Sob a sua liderança, a reorientação da Raketa para relógios de luxo, com ênfase na sua certificação “Made in Russia”, revelou-se bem-sucedida.

As sanções ocidentais impostas devido à guerra na Ucrânia restringiram o comércio e levaram ao encerramento de lojas de luxo estrangeiras na Rússia a partir de 2022, mas a procura interna aumentou para a empresa, que em grande parte não foi alvo de sanções, enquanto as vendas para a Europa e o Médio Oriente continuaram. A sua própria cadeia de abastecimento foi pouco afectada.

“Não dependemos do Ocidente para os componentes. Produzimos a maioria, nós próprios”, afirmou Henderson-Stewart nas instalações renovadas da Raketa, cujas raízes industriais remontam a 1721. “É isso que a nossa comunidade aprecia… O facto de ser um relógio fabricado na Rússia.”

O impulso de Putin

Na fábrica, alguns dos mais de 200 funcionários utilizam maquinaria recondicionada para fabricar pequenas engrenagens, rodas e molas, dando continuidade à prática pouco comum de produzir todas as peças mecânicas internamente. Noutros locais, os relojoeiros, com lupas, trabalham meticulosamente, com música pop a tocar alto.

Funcionários montam componentes de relógios na Fábrica de Relógios Raketa, em Peterhof, São Petersburgo, Rússia
Anastasia Barashkova/Reuters

A Raketa recebeu um impulso em 2022, quando Putin foi visto a usar o seu relógio da Imperial Peterhof Factory. Alguns meios de comunicação locais interpretaram isso como um sinal de apoio à produção nacional após a invasão da Ucrânia.

Desde então, Putin tem usado o relógio regularmente, estimulando a procura por designs semelhantes, confirma Henderson-Stewart. “Disseram-nos que seria melhor não replicar este modelo”, acrescenta.

Os registos públicos revelam que a Raketa registou um lucro de 1,40 milhões de euros, em 2025, mais de 15% do que em 2024. Com preços que variam entre cerca de 700 e 3500 euros, os relógios Raketa baseiam-se principalmente em design soviético, incluindo o Baikonur, com mostrador em aço, cujo nome deriva do cosmódromo no Cazaquistão a partir do qual Moscovo ainda lança voos espaciais tripulados.

Os ponteiros de outro dos seus relógios giram no sentido anti-horário. Este modelo único tornou-se um sucesso de vendas desde que foi apresentado a Henderson-Stewart pela engenheira-chefe Lyudmila Voynik, de 86 anos, que trabalha na fábrica desde a década de 1950.

Engenheira Lyudmila Voynik, 86 anos, trabalha na fábrica desde a década de 1950
Anastasia Barashkova/Reuters

Voynik retirou de um arquivo um desenho técnico pintado à mão, remendado com fita adesiva — um dos muitos que guardou em segurança durante os tempos difíceis da Raketa no período pós-soviético.

“Os nossos Raketas continuam os mesmos. Talvez haja algumas pequenas alterações em pormenores aqui e ali”, diz a engenheira-chefe. “Passei a minha vida aqui. Sinto-me orgulhosa por termos conseguido dar-lhe nova vida.”

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