A edição de 2026 do relatório Lancet Countdown in Europe, publicada nesta terça‑feira na revista The Lancet Public Health, analisa 44 indicadores sobre a forma como as alterações climáticas estão a afectar a saúde das populações e como os países europeus estão a responder através de políticas climáticas. Portugal surge entre os países que mais reduzem emissões, mas continua altamente vulnerável ao calor extremo e a outras ameaças, alerta este novo relatório europeu, com base em dados até 2025.
O novo relatório chega com um aviso claro, embora cada vez menos eficaz junto dos decisores políticos, de tão repetido que tem sido: “A janela para uma acção decisiva em saúde está a fechar‑se.” A verdade é que algo tão abrangente como a relação entre alterações climáticas e saúde envolve um paradoxo peculiar: por um lado, as ameaças parecem invisíveis, porque não deixam uma marca imediata no nosso corpo; por outro, tornam‑se evidentes quando se observam determinados indicadores de saúde à luz de um clima em transformação.
“Portugal e Espanha são os países europeus mais vulneráveis”, alerta o presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA). Luís Campos lembra que “a última década foi a mais quente alguma vez registada” e que o aumento da temperatura a nível global replica aquilo que “são os piores cenários previstos”. Acrescenta ainda que, ultrapassados os pontos de viragem, as consequências tornam‑se imprevisíveis em termos de “intensidade e rapidez dos fenómenos climáticos que vão acontecer”.
A “integração entre a saúde e o ambiente é fundamental”, afirma ao PÚBLICO, lamentando que “as políticas ambientais têm ignorado as políticas de saúde e as políticas de saúde têm ignorado as ambientais”. O presidente do CPSA salienta que, “a nível global, uma em cada quatro mortes resultam de factores ambientais” e que, embora a saúde esteja no topo das preocupações da maioria das pessoas, as alterações climáticas surgem muito mais abaixo nessa lista. “Temos de dizer que as duas estão interligadas, como forma de sensibilizar mais a população e os decisores políticos”, afirma, reforçando que “para problemas complexos, temos de ter soluções integradas”.
Recorda que, na COP30, realizada no ano passado no Brasil, foi lançado o Plano de Acção em Saúde de Belém para a adaptação do sector da saúde às mudanças do clima. “Penso que Portugal aderiu. É fundamental que este plano seja elaborado e implementado”, defende. Perante a catástrofe, é importante que “haja um inventário das estruturas operacionais, a sua reorganização, bem como da informação que deve ser prestada à população sobre a prevenção de doenças e, por exemplo, situações de contaminação”.
O PÚBLICO questionou o Ministério da Saúde sobre se este plano já está a ser elaborado, mas não obteve resposta até à hora de publicação deste texto.
Portugal exposto a riscos
O documento, que acompanha 44 indicadores sobre clima e saúde em 53 países europeus, mostra que quase todas as regiões da Europa — 99,6% — registaram mais mortes relacionadas com o calor entre 2015 e 2024 do que entre 1991 e 2000. Portugal surge repetidamente, ora como exemplo de transição energética, ora como país exposto a riscos crescentes.
Na “ficha” dedicada a Portugal, destacam os “padrões nos riscos relacionados com o calor e nos impactos na saúde, a evolução dos riscos de doenças infecciosas sensíveis às alterações climáticas e o aumento do perigo de incêndios florestais, demonstrando como as alterações climáticas estão a moldar os riscos para a saúde em diferentes partes do país, ao mesmo tempo que tem em conta mudanças ambientais a longo prazo, como a perda de cobertura arbórea”.
Mas, nem tudo são más notícias. O relatório revela também, por exemplo, que Portugal foi um dos países que mais reduziu emissões provenientes da combustão de combustíveis fósseis em 2023. “Países como a Alemanha, a Bulgária, a Estónia, a Chéquia, a Dinamarca e Portugal alcançaram reduções de dois dígitos em 2023, em comparação com 2022”, lê‑se no documento.
O retrato altera‑se, porém, quando se analisam os impactos do calor extremo. Os especialistas sublinham que 2024 foi o Verão mais quente alguma vez registado na Europa e que os europeus enfrentaram “um recorde de 182 horas de risco moderado ou elevado para a prática de actividade física ao ar livre”.
“Estima‑se que quase todas as regiões da Europa (99,6% das regiões monitorizadas) tenham registado um aumento das mortes relacionadas com o calor em 2015‑2024, em comparação com 1991‑2000, com um acréscimo médio de 52 mortes adicionais por milhão de pessoas por ano. Os alertas diários de calor extremo também aumentaram 318% durante o mesmo período”, refere o comunicado de imprensa sobre o relatório.
Em Portugal, onde se observa um aumento das noites tropicais, a intensificação das ondas de calor e o seu impacto na saúde pública, estes números enquadram‑se na realidade vivida. O país tem sido repetidamente identificado como um dos mais vulneráveis ao calor extremo, algo que ficou particularmente evidente no Verão de 2022, quando o excesso de mortalidade ultrapassou as mil mortes durante uma onda de calor.
“Trás‑os‑Montes registou o maior aumento de mortalidade atribuível ao calor no país, tendo este valor mais do que duplicado entre 1991‑2000 e 2015‑2024. Este dado expõe uma vulnerabilidade estrutural do interior: população envelhecida, menor acesso a cuidados de saúde e habitações com fraco isolamento térmico. Os planos de contingência para ondas de calor, desenhados com enfoque nas áreas metropolitanas, necessitam de recalibração urgente para estas regiões”, diz o CPSA, em comunicado.
Luís Campos refere que “as regiões não são todas afectadas com a mesma rapidez”. Ter essa informação “é muito relevante, para que as autarquias mais afectadas tenham rapidamente planos climáticos”. O presidente do CPSA salienta que “os doentes, os idosos, as crianças e as pessoas sem abrigo” são populações mais vulneráveis aos efeitos do calor.
No caso dos trabalhadores mais expostos ao sol, defende que tem de “haver uma protecção que permita adequar o tempo de trabalho ao número de horas de exposição ao calor e à sua intensidade”. “É um exemplo de medidas de adaptação que têm de ser tomadas”, afirma.
Alergias e doenças infecciosas
Talvez pelo momento da publicação, talvez pela robustez do indicador, o comunicado de imprensa da terceira edição do Lancet Countdown dá especial destaque ao impacto das alterações climáticas nas alergias. “A época de pólen na Europa durou, em média, mais uma a duas semanas entre 2015 e 2024, em comparação com o período de 1991 a 2000”, sublinha o comunicado, salientando o aumento da exposição das populações a alergénios. É apenas um exemplo entre muitos.
Por outro lado, as alterações climáticas estão a facilitar a propagação de doenças infecciosas, indica o relatório, estimando‑se que o potencial de transmissão da dengue na Europa tenha aumentado 297% no período de 2015‑2024, em comparação com 1981‑2010, contribuindo para o surgimento de mais surtos locais.
O CPSA interpreta também estes dados: “A Área Metropolitana de Lisboa apresentou o maior aumento no risco de surtos do vírus do Nilo Ocidental, passando de valores quase nulos para níveis que justificam vigilância activa das autoridades de saúde, tanto mais que Espanha é um dos 14 países europeus que já reportaram casos desta infecção. Simultaneamente, o Alentejo tornou‑se climaticamente adequado para a transmissão de dengue. A capacidade diagnóstica e a literacia clínica para arboviroses são ainda insuficientes em Portugal.”
Luís Campos salienta que “o aumento do risco tem a ver com a temperatura e a expansão dos vectores” e admite que “tem de se fazer um esforço para alargar os estudos laboratoriais, de modo a abranger novos vírus”.
Desigualdade, secas e incêndios
O Lancet Countdown reforça ainda que os impactos não são distribuídos de forma equitativa. “As populações de baixos rendimentos têm 10,9 pontos percentuais mais probabilidade de sofrer insegurança alimentar devido a ondas de calor e secas” quando comparadas com famílias de rendimentos médios. Em Portugal, onde a pobreza energética continua a afectar milhares de famílias, com muitas habitações incapazes de manter temperaturas seguras durante o Verão, esta desigualdade assume particular relevância.
Além disso, as populações que residem em áreas mais desfavorecidas enfrentam riscos acrescidos de incêndios florestais e dispõem de menor acesso a espaços verdes.
A seca e os incêndios constituem, aliás, outro ponto crítico. O documento confirma que o Sul da Europa — onde Portugal se insere — enfrenta os maiores aumentos do risco de mortalidade relacionada com o calor, de secas prolongadas e de condições favoráveis à deflagração de incêndios. “As regiões mais pobres enfrentam maior perigo de incêndios, maior exposição ao fumo e maior mortalidade atribuível”, alerta o relatório.
Neste capítulo, poucos em Portugal permanecerão indiferentes à intensificação do risco de incêndio, à perda de cobertura arbórea e ao impacto das secas sucessivas na agricultura e no abastecimento de água.
Boas notícias, mas com cautela
No domínio energético, os autores apresentam dados positivos relativos a Portugal, que figura entre os países que mais aumentaram a quota de energias renováveis e de fontes de energia de zero emissões em 2023. “Luxemburgo, Portugal e Lituânia registaram aumentos superiores a 15 pontos percentuais.”
Embora a intensidade carbónica e o uso de carvão tenham diminuído em 2023, e a energia renovável na produção de electricidade tenha representado 21,5% da produção total de electricidade na Europa e 27% nos países da União Europeia (UE) — mais do dobro da quota registada em 2016 para a Europa (8,4%) e para a UE (12,9%) —, os subsídios aos combustíveis fósseis atingiram um recorde de 444 mil milhões de euros em 2023, em parte como resposta à subida acentuada dos preços da energia após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Em 2023, a intensidade carbónica do sector energético nos países da UE diminuiu 8,8% em comparação com o nível registado aquando da adopção do Acordo de Paris, em 2016. Após dois anos de aumentos consecutivos, entre 2020 e 2022, as emissões provenientes da combustão de combustíveis fósseis caíram, em 2023, para 2277 milhões de toneladas de CO₂, o que representa uma redução de quase 10% face a 2022.
“Países como a Alemanha, a Bulgária, a Estónia, a Chéquia, a Dinamarca e Portugal alcançaram reduções de dois dígitos em 2023, em comparação com 2022. Ainda assim, é necessária uma aceleração tripla para cumprir as metas climáticas da UE em matéria de redução de emissões no sistema energético”, escrevem os autores.
Os cientistas deixam ainda um aviso adicional: a biomassa sólida continua a representar 31% da energia renovável utilizada para aquecimento, contribuindo para a poluição atmosférica e para a perda de cobertura florestal. Em Portugal, onde a queima de lenha é prática comum, este alerta tem implicações directas. “As mortes associadas à poluição atmosférica resultante da queima de lenha e de outra biomassa em ambiente doméstico foram 4% superiores em 2022 face a 2000”, indicam os dados agora divulgados.
Entre os sectores em que a Europa continua a falhar, os autores referem que as emissões associadas aos transportes praticamente não diminuíram desde 1990. O relatório encerra com uma mensagem inequívoca: “O progresso não deve ser tomado como garantido” e não é possível ignorar a urgência de integrar clima e saúde nas políticas públicas, e não apenas nos discursos.
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