Abre com a chegada ao Porto da co-produção Suplicantes (Teatro Campo Alegre, 13 e 14 de Maio), encenação de Sara Barros Leitão e da sua estrutura artística Cassandra, e que, resultado de uma residência no Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI) do ano passado, tem vindo a percorrer os palcos do país com esta releitura e actualização crítica da tragédia de Ésquilo (séc.VI-V a.C.). E encerra com a estreia absoluta de FMI KAPA (Teatro Rivoli, 24 de Maio), também uma co-produção do festival, numa criação da companhia cabo-verdiana Saaraci Coletivo Teatral, encenação de João Branco, numa versão cénica crioula do histórico disco de José Mário Branco.
Entre ambos, 14 outras produções fazem o programa da 49.ª edição do FITEI, que, além do Porto, vai passar também por palcos de Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Viana do Castelo.
Tal como nos anos anteriores, para este ano, Gonçalo Amorim, director artístico do festival, propôs um tema: “colapso e esperança”. “São duas palavras que têm uma actualidade e uma tensão evidentes”, diz o programador e encenador ao PÚBLICO na tarde desta quarta-feira, no jardim da Pensão Favorita, antecipando a apresentação do programa. “Analisando o que tem acontecido no mundo, o esgotamento do que é e não é humano, a sucessão de guerras, a crise climática aguda, tudo com reflexos evidentes na nossa sociedade, na saúde mental, no esgotamento dos recursos físicos e humanos, que esperança poderemos ter?”
Mas a esta pergunta (e a este estados de coisas), há que responder, há que ter esperança, e o teatro aí está a cumprir o seu papel. “As obras que apresentamos estão revestidas de uma qualidade poética, artística, e também política”, diz Gonçalo Amorim, lembrando que “o FITEI sempre teve a capacidade de interpelar o presente e o seu tempo”.
Há, pois, uma dimensão claramente política na selecção apresentada. E se esta manifesta alguma diminuição na presença internacional, o director artístico lembra que tal é também “um reflexo, cauteloso, mas sustentável, do congelamento do valor dos apoios institucionais ao FITEI nos últimos anos”. Mas afirma a expectativa de que, entre 2027 e 28, os anos em que se assinalarão a 50.ª edição e os 50 anos do festival – acrescentados à construção do há muito ambicionado Centro de Criação Dramática, finalmente contemplado com o apoio de fundos europeus através do programa 2030 –, ele possa vir a celebrar de forma mais consistente a sua história (e o futuro).
Presença sul-americana
Para este ano, o FITEI anuncia quatro estreias nacionais, seis absolutas e nove co-produções no conjunto dos 16 espectáculos em cartaz. Gonçalo Amorim assinala a importância das criações resultantes de residências artísticas iniciadas na edição de 2025. É o caso de Suplicantes, em que Sara Barros Leitão cria, a partir do texto de Ésquilo, “uma alegoria da situação dos migrantes que vão chegando à Europa, localizando a acção no próprio Parlamento Europeu, centro do poder político”.
E também Habitar (Matosinhos, Teatro Constantino Nery, dias 15 e 16), de André Amálio com a sua companhia Hotel Europa, começou a ser trabalhado no ano passado, tendo como tema a crise de habitação que atormenta várias camadas da população.
O encenador argentino Federico León viaja pela terceira vez ao Porto para a estreia nacional de El Trabajo (Teatro Nacional São João, dia 14). É também uma co-produção, com base no laboratório da sua já longa actividade docente, “em busca da experimentação na própria pele”, diz a sinopse.
Também da Argentina chega Três Pozos (Rivoli, dias 16 e 17), da dupla Marco Canale e Miguel Oyarzun, que criaram este projecto memorial em homenagem aos trabalhadores já desaparecidos da comunidade indígena wichi, vitimados pela lógica extractivista implacável das companhias mineiras na sua terra na Patagónia.
A dimensão política está ainda em A Fortaleza (Teatro Constantino Nery, dias 22 e 23), associação da dramaturga galega Lorena Conde à encenadora Raquel S. numa recriação da lenda da guerrilheira antifascista também galega “Chelo” (Consuelo Rodríguez Lopez, 1919-2019).
E do Uruguai vem Zombi Manifiesto (Viana do Castelo, Teatro Sá de Miranda, dia 20; Porto, Teatro Carlos Alberto, dias 23 e 24). É um espectáculo de Santiago Sanguinetti e Compañia Abuela Katiusha, a piscar o olho aos filmes de terror Série Z, com cemitérios, zombies e… Manifesto Comunista, a revisitar a ditadura militar naquele país da América do Sul (1973-85).
Ainda o imaginário sul-americano, mas agora em música: Bossa Nova (Rivoli, dias 14 e 15) é um espectáculo a solo de Tita Maravilha, criadora brasileira radicada em Lisboa, a reivindicar para este género musical “um acto de consciência de classe”.
Criações portuguesas
Noutras criações das companhias portuguesas, a dimensão política e o olhar sobre o estado do mundo mantém-se presente. Por exemplo, em Desver (Teatro do Campo Alegre, dias 16 e 17), regresso de Joana Craveiro e do Teatro do Vestido ao FITEI, com um espectáculo sobre a Palestina, o “país ocupado” que a dramaturga visitou em 2024.
Comer a Terra (CACE Cultural, dias 14 a 16) é um espectáculo-refeição do Teatro da Didascália, em que o público é convidado a reflectir sobre os alimentos que lhe são dados a comer, e como eles espelham as relações de poder e a questão climática.
Os Descobrimentos e a descolonização são o tema de descobri-quê (Teatro do Campo Alegre, dias 16 e 17), do artista e performer Dori Nigro, em colaboração com a Estrutura (Cátia Pinheiro + José Nunes).
Já com carreira noutros palcos nacionais, regressa ao Porto a criação do novo director do Teatro São João, Victor Hugo Pontes, Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer (TNSJ, dias 21 a 24), a coreografar a “inquietação” de José Mário Branco. E há música, também, em 18 Months (Auditório de Gaia, dias 22 e 23), rara incursão do género operático no FITEI, num espectáculo em que o encenador Nuno M Cardoso e o Quarteto Contratempus contam histórias de refugiados do Leste em Portugal.
Em estreia absoluta, o festival mostra a criação em formato áudio-walk Espalhar Fel (dias 14 a 20, com partida na Praça D. João I, frente ao Rivoli). O guia é Mickaël de Oliveira, num “percurso feito de citação, narração e desolação distópica”.
O Nome (Teatro do Bolhão, dias 14 e 15) é a nova encenação de Nuno Cardoso, levando ao palco o texto de Jon Fosse (Prémio Nobel da Literatura 2023) sobre a fractura que uma filha grávida provoca nos seus pais. (Antes de chegar ao FITEI, o espectáculo tem estreia nacional, no dia 25 de Abril, no Teatro Aveirense).
Também já em cena desde a semana passada, no Teatro Carlos Alberto, Isto É um Hitler Genuíno há-de chegar a Viana do Castelo via FITEI (Teatro Sá de Miranda, dia 23). Com encenação de João Cardoso, é a adaptação da peça de 2022 do dramaturgo alemão Marius Von Mayenburg, pela companhia Assédio.
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