Não se negoceia com a geografia

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À tarde, Donald Trump afirmou que prolongaria o cessar-fogo no Irão até que os seus líderes apresentassem uma “proposta unificada”, na sequência de um pedido do Paquistão. Acrescentou que as forças americanas manteriam um bloqueio naval do estreito de Ormuz e permaneceriam prontas para retomar os ataques. De manhã, garantiu à CNBC que, se o Irão não aceitasse as exigências dos Estados Unidos, “esperava estar a bombardear”.

De pouco vale continuar a tentar decifrar os comunicados do Presidente dos Estados Unidos. Se está louco ou adotou a teoria do louco. Afinal, a “America First” não implica qualquer forma de retração da presença americana no mundo. Implica, sim, a liberdade de recorrer à força sempre que considerar oportuno, independentemente das alianças ou da estabilidade internacional. A sua segunda presidência revela uma coexistência instável entre duas tendências: um impulso “restaurador” que invoca a tradição e, simultaneamente, um impulso disruptivo que adota a energia e a retórica da própria revolução. Essa ambiguidade não esclarece a direção da política externa americana, mas contribui para reconfigurar o comportamento dos seus adversários.

A transformação mais consequente da política externa iraniana não se mede nas declarações oficiais do ministro dos Negócios Estrangeiros. Mede-se na forma como a geografia foi absorvida pela lógica estrutural do regime. O estreito de Ormuz deixou de ser apenas um ativo, mobilizado em momentos de pressão, para se tornar um dos pilares da projeção estratégica de Teerão, a par do programa nuclear, dos mísseis balísticos e dos proxies. Não apenas como moeda de troca, mas como elemento constitutivo de uma arquitetura de poder que há muito se organiza em torno da sobrevivência do regime acima de qualquer outra prioridade. Sobretudo, acima do seu povo.

Convém, ainda assim, ter presente que o regime dos aiatolas talvez já não lhes pertença inteiramente. Desde o final dos anos 1990, o centro de gravidade deslocou-se de forma gradual do clero para o aparelho de segurança. A presidência de Mohammad Khatami abriu uma janela que, ao ser rapidamente fechada, redefiniu os limites do possível.

A crise de 1999 não apenas reprimiu uma geração política emergente, como consagrou a Guarda Revolucionária como árbitro do sistema. A partir daí, o que era excecional tornou-se rotina. Os mecanismos paralelos de coerção ganharam autonomia, os assassinatos seletivos deixaram de ser desvios e a fronteira entre decisão política e cálculo securitário foi sendo progressivamente dissolvida. O Movimento Verde de 2009 encerrou esse ciclo. A contestação eleitoral ficou confinada a um espaço estritamente delimitado. As elites tradicionais foram sendo substituídas por produtos do aparelho de segurança, cristalizando um Estado dentro do Estado.

Para o homo securitatus, de que Mohammad Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, é talvez o exemplo mais acabado, ou Ahmad Vahidi, líder da Guarda Revolucionária, a importância do estreito não reside apenas na capacidade de interromper fluxos energéticos ou de provocar choques nos mercados. Reside na sua integração numa lógica de dissuasão contínua. O estreito torna-se previsível na sua própria imprevisibilidade, um ponto de pressão que condiciona decisões em Washington, em Pequim e nas capitais do Golfo.

Ao contrário do programa nuclear, que pode ser sabotado ou eliminado, Ormuz escapa a essa lógica. Não se negoceia unilateralmente com a geografia. As barreiras naturais impõem limites rígidos: a importância de um estreito é medida pelo custo de o contornar.

As negociações entre os Estados Unidos e o Irão refletem essa realidade. As propostas em cima da mesa, oscilando entre alívio financeiro e contenção nuclear, revelam avanços técnicos e fragilidades políticas. A disputa sobre o destino do urânio enriquecido, a duração de uma eventual moratória ou o uso dos fundos desbloqueados, entre 20 e 27 mil milhões, são tentativas de transformar desconfiança em mecanismos verificáveis. Mas o programa balístico e nuclear, os proxies e Ormuz são mais do que ativos estratégicos – uma cedência desequilibrada implicaria o sacrifício da natureza do regime.

A guerra recente, com a sua escalada rápida e um cessar-fogo intermitente, tornou essa realidade mais visível. Nenhum dos intervenientes alcançou uma vitória, mas todos ajustaram os seus cálculos. O Irão expôs vulnerabilidades, tanto militares como económicas, mas também uma capacidade de absorção que surpreendeu os adversários. Israel demonstrou eficácia operacional, sem a traduzir, como já tem vindo a ser habitual, em ganhos políticos duradouros. Os Estados Unidos oscilaram entre a demonstração de força e a contenção imposta pelos mercados e o custo de vida, convindo não esquecer que sempre associou vitórias a derrotas totais do inimigo e à sua transformação política, com maior ou menor êxito.

Essa centralidade energética expõe a fragilidade estrutural do Golfo. A dependência de rotas marítimas e garantias externas cria um paradoxo persistente: quanto maior a necessidade de estabilidade, maior a vulnerabilidade à sua perturbação. A resposta europeia, através de iniciativas de segurança marítima, procura mitigar esse risco, mas revela mais uma vez uma autonomia estratégica discreta e uma incapacidade crónica no Médio Oriente.

Mais relevantes têm sido os esforços de países muçulmanos, com destaque para o Paquistão, a Turquia, o Egipto e a Arábia Saudita. Trata-se de uma tentativa de redistribuir o peso da estabilização regional por múltiplos atores, cada um com os seus próprios cálculos. A Arábia Saudita mantém uma posição de contenção, evitando entrar diretamente no conflito enquanto tenta gerir o equilíbrio entre o Irão e Israel, com a estabilidade interna e as exportações energéticas como prioridades imediatas.

A relação com os EUA já não oferece as mesmas garantias, o que ajuda a explicar a aproximação à China e a outros parceiros regionais. Já a Turquia procura capitalizar a instabilidade para se afirmar como corredor logístico entre continentes. Os projetos que promove são ambiciosos, mas enfrentam limitações técnicas e geopolíticas que não se resolvem com investimentos. A proximidade ao Irão, a concorrência de rotas consolidadas e a pressão de outras potências introduzem um grau de incerteza ao que o Middle Corridor ainda não responde.

Do outro lado do Atlântico, a evolução da opinião pública americana começa a reconfigurar um consenso que durante décadas parecia estável. O apoio a Israel torna-se mais fragmentado, mais geracional, mais condicionado. Essa mudança não produz ainda uma alteração imediata da política externa, mas introduz um grau de volatilidade que os decisores americanos e israelitas não poderão ignorar no futuro. A exclusão de Israel das negociações diretas com Teerão e imposição de um cessar-fogo no Líbano sublinham uma assimetria persistente: a capacidade de influência não coincide necessariamente com a presença à mesa.

O resultado da guerra não é, portanto, uma região mais segura para os países do Golfo, que se aproximarão da China, nem um horizonte democrático para a população iraniana, nem uma segurança duradoura para Israel, que instituiu mais uma Linha Amarela, desta vez no Líbano. É uma região instável e mais longe da integração ambicionada nos Acordos de Abraão.

A ideia de que o estreito de Ormuz poderá ser reaberto incondicionalmente pertence a um mundo que já não existe. Os iranianos não lutam pela água do estreito, mas pelo que passa através dele. Hoje, Ormuz não é uma moeda de troca. Tornou-se parte daquilo que o regime é, não apenas daquilo que o regime faz.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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