Hoje, faz sentido inverter os dois dígitos para lembrar que já passaram 52 anos desse já longínquo dia de júbilo e celebração de um país inteiro, em festa pela conquista da liberdade. Já são mais quatro anos do que a duração do regime de Salazar-Caetano. Quem, como eu e os da minha geração, viveu essa alegria coletiva onde todos os sonhos eram partilhados e vividos em solidariedade, não pode deixar de se inquietar com a atual retórica que vitupera o 25 de Abril e o próprio regime democrático. Os equilíbrios contabilísticos que a extrema-direita faz relativamente à quantidade de presos políticos (de antes e depois) não passam de mero eufemismo para esconder o essencial, ou seja, para esconder a distinção abissal entre democracia e ditadura. Quem faz equivaler a prisão dos que resistiram na clandestinidade contra um sistema repressivo e claustrofóbico à detenção de alguns grupos que se opunham à revolução e defendiam o regresso ao passado é porque pretende branquear a ditadura. A retórica de Ventura visa apenas exacerbar as pulsões primárias dos ressentidos que transferem para a revolução (e, portanto, para o regime democrático) as “culpas” da corrupção, das injustiças e demais problemas do país, tentando daí retirar dividendos eleitorais.
Como sabemos, a democracia é o único regime que permite ser usado para a sua própria destruição. A fraseologia reiterada de quem se pretende monopolista da “verdade” só revela qual seria a estratégia política seguida pelo Chega quando alcançasse o poder. Se um dia conseguir uma maioria para governar, além das medidas acionadas para “repor a ordem” – na economia, na educação, no sistema de saúde, na justiça, nas políticas migratórias, etc. – a pretexto de acabar com a corrupção, começaria, desde logo, por controlar a comunicação social em nome da “verdade”… Felizmente não estamos ainda nesse quadro, mas é bom que se tenha consciência de que o risco existe. Os representantes do Chega que pululam nos média, uns mais histriónicos, outros mais discretos, espreitam a oportunidade e sonham com vingança, como é visível no discurso de ódio que espalham e nos comportamentos, bizarros e insultuosos, do seu chefe. É preciso contrapor com argumentos e com factos (a exemplo do que tentou fazer José Pacheco Pereira) o chorrilho de mentiras que difundem, e é preciso que os democratas e militantes antifascistas saibam usar os meios de difusão (convencionais, redes digitais e a própria IA) para contrariar as falsidades veiculadas a toda a hora nos mais diversos aplicativos e audiovisuais.
Portugal já tem mais anos de vida democrática do que teve de ditadura no século passado. Mas parece que os avanços alcançados em democracia não foram ainda suficientes, para uma parte significativa da população, nem para realizar as expectativas criadas pelas promessas do 25 de Abril, nem para apagar o culto do poder e a mentalidade subserviente perante a tutela de um líder salvífico, que o salazarismo cultivou e que agora pretende ser reencarnado na figura do novo imaginário “messias”. O discurso “patriótico” reinventado por Ventura não é, senão, o reverso de um novo miserabilismo, feito sobretudo de miséria moral, que quer oferecer como conforto aos seus seguidores, defraudados e ressentidos com a democracia. A retórica e o tom beático que se oferece aos crentes é o pano de fundo que encobre a corrupção endémica que grassa no próprio seio do referido partido. Os apelos saudosistas a Salazar são a água benta que Ventura difunde hoje para, quando um dia chegar ao poder, consagrar a própria prática corrupta – evidentemente invisibilizada pela censura – como justificação da política corporativista que se quer ressuscitar. Essa é a essência do verdadeiro programa do Chega, agora revestido por véus de virtude, bondade, democracia e patriotismo, para depois, caso os seus desígnios fossem conseguidos, tornar-se juridicamente legitimada segundo a vontade de quem manda.
Haveria muitos temas atualmente na agenda política para mostrar que a atual complacência, desde logo do Governo AD e também de boa parte dos meios mediáticos, pode ilustrar o jogo falso de cumplicidades na procura de assegurar a maioria. Temos aqui uma dupla lógica: uma, que parece acreditar que o radicalismo do Chega e os seus recorrentes tiques de salazarismo é apenas uma fase passageira que tende a esbater-se e a conduzir o partido para a normalidade democrática; outra obedece ao pragmatismo de quem apenas está focado no poder, de quem recusa esses cenários “tremendistas”, até porque as prioridades imediatas rejeitam a ideia dos perigos que daí advêm para o próprio regime. A história do século passado (e a própria matriz reformista e social-democrata) oferece abundantes motivos para inspirar respostas políticas capazes de inverter a atual tendência, que é, como sabemos, global. E, aqui, a Europa tem por detrás um legado de humanismo e de experiências traumáticas, que lhe conferem responsabilidades acrescidas. Portugal, tendo embora chegado mais tarde a essa corrente de expansão da extrema-direita, seguiu a mesma onda e recuperou terreno rapidamente.
A consciência desse risco parece fora do alcance das estruturas dirigentes da atual força maioritária. Dá jeito esquecer o “não é não”, ou porque a legislação laboral tem de avançar, mesmo que contra a vontade do novo Presidente, ou porque as leis da nacionalidade e das migrações precisam deles para passarem no Parlamento, tornando os deputados do partido de Ventura uma alternativa (talvez a pensar na futura revisão constitucional) que o Governo de Montenegro tenta usar para não ceder a uma aproximação ao PS. Já o papel deste último – relegado para terceira força e com uma liderança ainda a ser posta à prova – vai permanecer no modo low profile de Carneiro, com um olho nas sondagens e outro no novo Presidente, à espera do próximo ciclo ou de um novo e inesperado vendaval político.
Em suma, mais de meio século passado sobre o dia de todas as esperanças, é notório e preocupante verificar não apenas as realizações por cumprir, a persistência das desigualdades, segmentações, injustiças e desequilíbrios sociais no país, mas também a erosão da própria cultura democrática, visível no défice de debate e diálogo frontal nas instituições, nas universidades e no seio dos partidos políticos, onde os laços tutelares, o carreirismo, a troca de favores e o “familismo” se sobrepõem à transparência e à primazia do mérito.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





