Há perguntas que regressam em datas simbólicas, como se a memória coletiva precisasse de ser reativada para não se dissipar. No 25 de Abril, uma delas impõe-se com uma urgência inquietante: ainda somos livres?
Imagino este diálogo, quase íntimo, com Salgueiro Maia, não apenas como figura histórica, mas como símbolo ético de uma liderança que ousou romper com a inércia do autoritarismo e agir em nome do bem comum. Evocá-lo é recordar que a Revolução dos Cravos não se fez de cores partidárias nem de agendas particulares, mas de um horizonte partilhado: a possibilidade de um país mais justo, mais digno, mais livre. Salgueiro Maia permanece, por isso, como símbolo de uma consciência inquieta que nos interpela no presente. E a resposta, longe de ser triunfal, chega-nos como um desafio:
Somos livres enquanto o sonho nos movimenta. Enquanto tivermos em nós essa força íntima que nos impele para além do conformismo e da resignação. Enquanto temos braços que constroem, que amparam, que não se retraem perante o outro. Enquanto a nossa voz não se rende ao silêncio confortável nem à vacuidade da repetição. Enquanto a coragem não ceder ao desgaste, nem a lucidez ao conformismo. Somos livres enquanto ousarmos questionar. Enquanto ousarmos ver, verdadeiramente ver, para lá do imediato, do dado, do imposto, do fácil. Enquanto persistirmos em pensar para além do horizonte do possível, recusando a domesticação do pensamento e a estreiteza do mundo tal como nos é apresentado.
Mas esta liberdade, que Abril nos ofereceu como possibilidade, não é um estado garantido. A democracia não é um dado natural: é uma construção cultural, continuamente (re)feita nas práticas, nos discursos e nas escolhas coletivas. É intrinsecamente frágil. Não se sustenta por inércia, nem se garante por decreto. E é talvez aqui que a pergunta se adensa: e o nosso estado democrático, resiste?
A resposta não irrompe de forma súbita nem espetacular. Insinua-se. É lenta, silenciosa, quase impercetível como um processo de erosão que corrói sem ruído. A democracia raramente colapsa de um dia para o outro. Vai-se desgastando e morrendo, subtilmente, todos os dias um pouco.
Morre quando o bem comum deixa de ser horizonte e cede lugar a um individualismo que tudo legitima. Morre quando passamos a olhar a realidade apenas através de números, métricas e comparações, esquecendo aquilo que não é quantificável: o cuidado, a solidariedade, a responsabilidade mútua. Morre quando a injustiça nos parece distante, problema dos outros, nunca nosso e, por isso, tolerável.
Morre quando delegamos o nosso poder, seja em líderes, em cargos institucionais ou em figuras de influência, sem o acompanhar de vigilância crítica, de questionamento informado e de exigência ética.
Quando o debate se degrada em encenação egóica, onde já não há lugar para o dissenso, mas apenas para a imposição. Morre quando nos encerramos em crenças impermeáveis, recusando o confronto de ideias, a dúvida e a escuta. Morre, ainda, quando escolhemos o silêncio, esse silêncio cómodo e resignado porque, no fundo, “não vale a pena” ou “sempre foi assim”.
Morre também quando o medo — do outro, da escassez, da perda — se infiltra e orienta as nossas escolhas para soluções fáceis, simplistas e, tantas vezes, perigosas. Quando abdicamos da responsabilidade de participar, de intervir, de conhecer, de saber e de questionar.
Quando confundimos liberdade com consumo, com escolha superficial, com lazer. Quando a reduzimos a caricatura, oscilando entre a ideia de que liberdade é pura anarquia ou, no extremo oposto, a fonte de todos os males sociais, esquecendo que tanto a democracia como a própria liberdade nasceram precisamente como tentativas de mediar e harmonizar tensões, não de as abolir. Quando, por fim, reduzimos a cidadania a um gesto episódico e ritualizado: o voto, esquecendo que a democracia exige presença, compromisso e vigilância contínuos.
Talvez a mais insidiosa ilusão do nosso tempo seja acreditar que a liberdade é um dado adquirido, e não uma construção quotidiana. Que a democracia funciona por inércia, dispensando-nos, quando na verdade depende radicalmente de cada um de nós.
Não aprendemos verdadeiramente a viver em democracia. E isso não é uma falha individual, é um vazio histórico, educativo e cultural que ainda não foi plenamente preenchido. Durante demasiado tempo, ensinou-se a obedecer mais do que a participar, a adaptar mais do que a questionar. Mas há uma possibilidade que permanece aberta e é essa margem de liberdade que Abril nos legou.
A democracia aprende-se vivendo-a. Exercendo-a no quotidiano, nas pequenas decisões, nas relações, nas escolas, nos espaços públicos. Aprende-se não contra os outros, mas com os outros, na tensão e no conflito como oportunidades e na pluralidade. Aprende-se quando recusamos a passividade confortável e escolhemos o envolvimento consciente e construtivo.
Por isso, talvez a pergunta não deva ser apenas dirigida a Salgueiro Maia, enquanto símbolo ético da nossa revolução. Talvez devamos devolvê-la a nós próprios. Não se trata de saber se ainda somos livres. Trata-se de saber se ainda estamos dispostos a sê-lo.
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