Todas as tardes, num subúrbio de Milão, Diego Di Franco vai buscar os filhos à escola, organiza as actividades extracurriculares e prepara o jantar. Uma rotina que não tem nada de invulgar em Itália, excepto pelo facto de ele ser pai e de partilhar tudo isto online.
Em Fevereiro, o Parlamento italiano rejeitou uma proposta para igualar a licença de maternidade e paternidade, mas Di Franco e um número crescente dos chamados “pais influenciadores” estão a redefinir o que significa ser pai num país que ainda luta para conciliar trabalho, família e igualdade de género. Na terceira maior economia da zona euro, liderada pela sua primeira primeira-ministra, Giorgia Meloni, que tem uma filha de 9 anos, as mulheres assumem a maior parte dos cuidados e enfrentam uma das maiores disparidades de género no emprego da Europa — um entrave ao crescimento a longo prazo à medida que a população envelhece.
Economistas e activistas afirmam que a situação é agravada por um desequilíbrio político gritante: cinco meses de licença de maternidade contra apenas dez dias de licença de paternidade. Uma proposta apoiada pela oposição para introduzir uma licença parental igual, intransferível e totalmente remunerada para mães e pais, inspirada em reformas adoptadas noutros Estados-membros da UE, foi rejeitada por 137 votos (contra 117) pela maioria de centro-direita, alegando restrições orçamentais.
“Se uma mulher quer uma carreira em Itália, é melhor não se tornar mãe”, escreveu no Instagram a medalhada olímpica Federica Pellegrini, que tem dois filhos, após a rejeição do projecto de lei, ecoando o que muitos italianos consideram uma escolha entre a vida profissional e a vida familiar.
O resultado parlamentar contrasta com uma tendência que se verifica nas redes sociais, onde os pais italianos publicam cada vez mais sobre os cuidados diários com os filhos, transformando os cuidados paternos numa narrativa visível e mainstream.
“O número de bloggers que influenciam os pais está a aumentar e é muito variado. Eles têm dado um enorme contributo ao apresentar uma narrativa diferente sobre a paternidade, que é mais inclusiva, mais igualitária e também divertida”, afirmou Annina Lubbock, socióloga e consultora do Centro de Saúde da Criança.
“Isto é um reflexo de uma mudança que já está em curso em Itália há algum tempo, mas estes influenciadores também estão a impulsionar essa mudança”, acrescentou.
Um modelo familiar que atrai seguidores
Um exemplo de destaque é Di Franco, pai de dois filhos e seguido por mais de 50 mil pessoas no Instagram. Com 45 anos, documenta a sua vida como principal responsável pelos cuidados dos filhos, enquanto a sua mulher, Raffaella, trabalha a tempo inteiro como gestora, um arranjo que continua a ser pouco comum em Itália.
“Cerca de 85% dos meus seguidores são mulheres, muitas me perguntam sobre como incentivar os seus parceiros a estarem mais presentes em casa”, disse Di Franco à Reuters. Já para Raffaella, a postura de Diego revelou-se decisiva para a sua carreira. “Deu-me a confiança necessária para enfrentar desafios e aproveitar oportunidades”, afirmou.
No entanto, o lar dos Di Franco continua longe de ser a norma. O emprego feminino na Itália situava-se nos 61% em 2025, com a maior disparidade de género no emprego da UE, de acordo com o Eurostat. Em toda a União Europeia, a taxa de emprego feminino é de 70,8%.
As mulheres representam cerca de 70% das demissões voluntárias na Itália, muitas vezes após o parto, enquanto o trabalho a tempo parcial involuntário continua generalizado. “É um sinal claro da penalização que as mulheres sofrem por terem filhos”, afirmou a antiga directora do Instituto Nacional de Estatística de Itália, Linda Laura Sabbadini.
“A lei teria sido uma revolução cultural”
Os economistas associam a dificuldade de conciliar o trabalho com a educação dos filhos ao declínio demográfico da Itália, alertando que um maior emprego feminino é essencial para sustentar o crescimento e as finanças públicas, e que mais apoio às mulheres trabalhadoras as encorajaria a ter filhos. “Esta lei teria sido uma revolução cultural”, afirmou Elly Schlein, líder do maior partido da oposição, o Partido Democrático, no Parlamento.
Os legisladores do partido Irmãos de Itália, de Meloni, afirmaram não ter qualquer objecção ideológica à extensão da licença de paternidade, mas argumentaram que esta seria financeiramente insustentável. “Além disso, uma licença obrigatória de cinco meses para os pais exigiria uma análise mais aprofundada devido aos possíveis impactos na Administração Pública e nas pequenas empresas”, afirmou Walter Rizzetto, presidente da Comissão do Trabalho da Câmara dos Deputados, à Reuters.
Dados internacionais sugerem que a concepção das políticas é importante. Depois de Espanha ter alargado a licença de paternidade remunerada para 16 semanas, e de a ter tornado obrigatória e intransmissível em 2021, a adesão entre os pais aumentou acentuadamente e a disparidade salarial entre homens e mulheres diminuiu, de acordo com estudos académicos. Em Itália, uma investigação do think tank Tortuga mostra que, quando as empresas privadas oferecem licença de paternidade alargada, a taxa de adesão sobe para 71%, em comparação com uma média nacional de 64%, sendo os pais mais jovens os mais propensos a tirar partido da política.
E Di Franco diz que a sua experiência o deixa optimista. “Com o meu primeiro filho, eu era o único pai no jardim-de-infância”, lembra. “Seis anos depois, havia três ou quatro. E pensei: ‘as coisas estão a mudar’.”
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