Resumo
– Numa análise a 22 países europeus, Portugal é 4.º país onde mais condutores admitem usar redes sociais ou ler mensagens ao volante
– GNR registou 208 mil infracções entre 2015 e 2025 e PSP mais de 33 mil desde 2021, apesar de tendência ligeira de descida
– Especialistas alertam que o telemóvel ao volante provoca forte distracção cognitiva e esteve associado a mais de 12 mil acidentes recentes
João Vaz estava a voltar para casa de carro quando, na entrada para a Ponte 25 de Abril, se assustou ao reparar que a condutora à sua frente estava a trocar de faixa “sem se aperceber”. O desvio inesperado da trajectória foi motivado por algo que vê com cada vez mais frequência ao volante: o telemóvel. “Foi dos maiores sustos que tive na estrada, felizmente não aconteceu nada”, conta o engenheiro informático de 29 anos, em conversa com o P3.
João também já viu amigos e outros condutores a espreitarem as redes sociais enquanto estão no trânsito. “Não é uma coisa que me admire muito, temos uma tolerância muito reduzida a ficar aborrecidos”, diz, notando que há mais esta “dependência com o telemóvel” nas gerações mais novas.
Apesar de saber que é proibido e de conhecer os perigos de usar o telemóvel enquanto se conduz, João diz que tem sempre tendência a olhar quando recebe uma notificação e reconhece que já escreveu mensagens enquanto estava à espera, no semáforo ou no trânsito. Ter o telemóvel ao lado em momentos de trânsito “é muito tentador”. E sabe que não é caso único: “É bastante comum, mas não acho que seja um bom princípio porque convém estar sempre o máximo atento à estrada”.
Quando anda de Uber ou outros serviços do género, o engenheiro informático que mora na Costa da Caparica já chegou a sentir uma “certa ansiedade” quando os condutores se distraem a mexer na aplicação. Já lhe aconteceu um motorista de Uber estar a conduzir “algo agressivamente enquanto mexia no telemóvel”.
Bernardo, de 30 anos, conta ao P3 que chegou a usar o telemóvel para ver jogos de futebol enquanto conduzia, embora reconheça que o tenha feito poucas vezes e só quando estava parado ou não tinha trânsito à volta. Antes de ter o telemóvel ligado ao ecrã do automóvel, também o utilizava para ver o GPS e para fazer chamadas.
Para quem anda na estrada, estes cenários têm-se tornado mais frequentes: condutores que fazem scroll nas redes sociais enquanto conduzem ou esperam nos semáforos, condutores que respondem a mensagens ou fazem chamadas no trânsito ou mesmo com o carro em andamento. Nas redes sociais, há também pessoas (sobretudo influencers) que se filmam enquanto falam e conduzem.
Mais de 200 mil infracções em dez anos
Este comportamento de risco está espelhado nos dados: entre 2015 e 2025, foram registadas pela Guarda Nacional Republicana (GNR) 208 mil infracções por uso indevido de telemóvel ao volante – o que dá uma média de 57 condutores por dia. Só nos últimos três anos foram registadas mais de 40 mil infracções. Ainda assim, tem havido uma “tendência geral de decréscimo” que a GNR admite poder estar relacionada com uma maior sensibilização e com o agravamento de sanções.
Além dos dados da GNR, a Polícia de Segurança Pública (PSP) registou 33.882 infracções por uso de telemóvel ao volante entre 2021 e 2025. Destes cinco anos, o ano de 2021 foi aquele com mais registos (9260), havendo uma diminuição nos anos seguintes.
Só que o número de pessoas que usam o telemóvel diariamente nas estradas portuguesas deverá ser bem mais elevado do que o número de infracções, diz ao P3 o presidente da associação Prevenção Rodoviária Portuguesa, Alain Areal. “Não tenho dúvidas”, afirma.
Numa análise feita a 22 países europeus, Portugal é o quarto em que mais pessoas assumiram que leram uma mensagem ou utilizaram as redes sociais enquanto conduziam.
De qualquer forma, a GNR considera estes números “preocupantes”. Só nos três primeiros meses de 2026 já se contabilizam mais de 4000 infracções por uso de dispositivos electrónicos durante a condução. Este continua a ser, portanto, “um desafio crítico”. É no Porto e em Lisboa que se registam mais infracções. Só no primeiro trimestre de 2026, a PSP registou também 1430 infracções por manuseio de telemóvel durante a condução.
Além das infracções, o uso de telemóvel ao volante esteve na origem de mais de 12 mil acidentes de viação entre 2023 e 2025, em que “pelo menos um dos condutores circulava distraído”, refere a PSP.
No estrangeiro, têm sido noticiados acidentes fatais causados pela distracção do telemóvel, como o de um homem no Reino Unido que se estava a filmar a conduzir a alta velocidade quando se despistou e embateu num outro carro, matando uma mulher grávida que seguia com três crianças na viatura.
Que perigos há?
A utilização de telemóvel ao volante “tem impacto nas nossas funções executivas, sobretudo na atenção, na concentração e na memória”, afirma a psicóloga clínica Ivone Patrão, que estuda as dependências dos ecrãs. “Há menos atenção à estrada pela distracção visual e mental e menos destreza manual, com reacções mais lentas.” É por isso que o risco de acidente é muito maior quando se usa o telemóvel durante a condução.
Tirar os olhos da estrada por dois segundos para espreitar uma mensagem ou uma notificação pode não parecer muito. Mas Alain Areal dá um exemplo: se circularmos a 50km/hora, percorremos 14 metros por segundo. “Se tivermos um peão a 27 metros e perdermos dois segundos a olhar para o telemóvel, vai-se embater no peão sem travar sequer.” Quanto mais alta a velocidade, maior a probabilidade de o acidente ser fatal para o peão. “São pequenas coisas que têm, normalmente, consequências enormes”.
Segundo a GNR, a utilização de telemóveis “causa uma distracção cognitiva profunda, que reduz drasticamente a capacidade de reacção e o campo visual do condutor, produzindo efeitos de perda de percepção semelhantes à condução sob influência do álcool”.
“O cérebro saltita de uma tarefa para a outra”, complementa Alain Areal. “Quando a tarefa da condução passa para secundária, há muito impacto na recolha de informação, no tipo de decisões que se toma, nos tempos de reacção. Há uma série de impactos que prejudicam a tarefa da condução.”
Numa altura em que “aumentou a dependência do telemóvel, tanto em jovens como adultos”, o facto de as redes sociais serem tão apelativas pode também ser um chamariz para quem está sozinho ou aborrecido no carro: “Já sabemos que [a dependência] condiciona outras áreas como a socialização, o sono, a alimentação… A condução é só mais uma”, alerta Ivone Patrão. Nos casos de dependência, um dos critérios é mesmo “a necessidade de estar conectado e com o dispositivo na mão”.
O uso de ecrãs integrados nos tabliers dos carros “também é um factor de distracção” porque “estamos a tirar os olhos da estrada na mesma”, reconhece o presidente da PRP.
Apesar de haver milhares de condutores com estes comportamentos perigosos, há também boas notícias: a esmagadora maioria dos condutores portugueses não manuseiam qualquer dispositivo móvel enquanto estão a conduzir, segundo um estudo desenvolvido pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
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