“Gratidão”. Tanka Sapkota, chef de origem nepalesa a viver em Portugal há 30 anos, não se cansa de repetir a palavra. É isto que sente pelo país que o acolheu e é por causa desta gratidão que quer devolver o “carinho” e a “bondade” lançando uma série de jantares solidários, que vão acontecer uma vez por mês durante 12 meses no restaurante Casa Nepalesa, em Lisboa, junto à Fundação Calouste Gulbenkian. O primeiro vai acontecer já no dia 6 de Maio.
Chamou-lhes Viagem ao Nepal, realizam-se sempre na primeira quarta-feira de cada mês, e os lucros revertem integralmente, e em partes iguais, para as Aldeias SOS em Portugal e no Nepal. Quem quiser ser solidário com esta instituição de apoio a crianças em risco pode juntar-se a um destes jantares (50€ por pessoa) e descobrir não só a rica gastronomia do Nepal, viajando por entre montanhas cobertas de neve, e vales verdes, mas também a cultura deste país, através da música e da dança apresentadas por nepaleses que vivem em Portugal.
Tanka quer dar a estes artistas, muitos dos quais trabalham em restaurantes por não terem encontrado empregos nas suas áreas, uma oportunidade para mostrarem os seus talentos. Ao mesmo tempo quer mostrar a variedade da gastronomia do seu país, num menu que começa com um aperitivo, o Himalayan Whisper, que junta vinho do Porto e rum nepalês envelhecido, com “a essência das especiarias selvagens da montanha”.
Jorge Simão
A seguir à samosa (chamuça) de legumes, servida como entrada, vem um dos pratos mais emblemáticos da cozinha nepalesa, o momo, um dumpling de massa fina de trigo recheada com frango do campo e especiarias e servido num caldo de cabrito aromatizado com espinafre selvagem das montanhas do Nepal. Nos pratos principais há frango do campo cozinhado com avelãs e especiarias moídas à mão, guisado de lentilhas com gengibre, rebentos de bambu biológicos da aldeia de Tanka com feijão-verde também biológico, cabrito DOP de Trás-os-Montes com molho de caril e javali de caça, de Évora, cozinhado durante nove horas, com cogumelos e espargos verdes frescos, com molho de caril tradicional.
As sobremesas vêm num trio, que inclui o khira, arroz doce tradicional nepalês, o triveni, mousse de manga com uma camada crocante de bolacha de coco e com frutos secos, amendoim, avelã, semente de abóbora, coco laminado e chips de banana, um doce dedicado à união das montanhas, colinas e planícies do Nepal, e, para terminar a refeição, o guliyo paan, folhas frescas de bétele com pedaços de coco, caju, amendoim, sementes de funcho e açúcar cristal.
Tanka Sapkota, que ganhou visibilidade inicialmente pelo seu trabalho com a cozinha italiana, é hoje proprietário não só da Casa Nepalesa, mas também dos restaurantes Come Prima, Forno d’Oro e Il Mercato, tendo os dois primeiros vindo a somar uma grande quantidade de prémios – já este ano, o Come Prima foi eleito um dos melhores 70 restaurantes italianos do mundo pelo guia 70 Best Restaurantes with Pizzeria in the World). Tem também lançado várias iniciativas de solidariedade, nomeadamente na pandemia, quando com um forno móvel andou por Lisboa a servir pizzas a famílias carenciadas.
Jorge Simão
“As Aldeias SOS existem em Portugal há mais de 60 anos”, explicou à Fugas Oliveira, coordenadora de comunicação deste projecto em Portugal. “E existimos porque há um problema grave em Portugal. Só em 2024, dados da CPCJ (Comissão de Protecção de Crianças e Jovens), mais de 58 mil crianças encontravam-se em perigo, um número que tem vindo a aumentar todos os anos. Podem estar ou não na família, podemos estar a falar de casos de negligência, falta de cuidados básicos de saúde, de alimentação, maus-tratos, e vítimas de violência doméstica.”
As respostas das Aldeias SOS passam por casas de acolhimento, acções de prevenção junto das famílias, e, mais inicialmente, um sistema de acolhimento familiar temporário, para já apenas lançado no distrito da Guarda. Apesar do apoio da Segurança Social, que assegura o funcionamento básico, para garantir que dá resposta à procura crescente (530 crianças e jovens tiveram apoio em 2025), o projecto depende em 65% da angariação de fundos, donativos particulares ou de empresas, e iniciativas como a que está a ser lançada pela Casa Nepalesa.
Jorge Simão
Ajudar as Aldeias SOS é a forma de Tanka agradecer a um país onde hoje diz já não se sentir estrangeiro. “Não tenho palavras suficientes para agradecer o sentimento de pertença que deram à minha família”, escreve numa carta que entregou a todos os presentes no jantar de apresentação da iniciativa. “Para um imigrante, a maior bênção é sentir que a sua família está segura, respeitada e acolhida num país estrangeiro. A proximidade demonstrada pela comunidade portuguesa nas nossas alegrias e dificuldades, bem como o reconhecimento dado ao nosso trabalho, deu-nos a força para chegarmos até aqui.”
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