A ideia das universidades como espaços de debate livre, sábio e civilizado é, em certo modo, generosa. As instituições são um espelho das sociedades que servem e, nessa medida, a academia portuguesa reflete não só o ímpeto de progresso social, económico e tecnológico que marcou os 52 anos da nossa democracia, mas também todos os vícios que as anteriores décadas de autoritarismo imprimiram na nossa mentalidade.
Com efeito, a crise instalada no seio da Universidade Nova de Lisboa é um microcosmo do que o Portugal do século XXI tem de melhor e de pior. Apesar da sucessão de decisões judiciais, (não) repetição de atos eleitorais, e troca de acusações públicas, a Nova tem permanecido firme na sua missão de criar e transmitir conhecimento à sociedade. Este é um reconhecimento que deve ser prestado a todos os docentes, investigadores, funcionários e estudantes da universidade, incluindo aos próprios protagonistas deste conflito interno.
Do outro lado da medalha, é evidente que este clima de guerra civil é autoinfligido, movido mais pelo impulso de salvar a face, de ter sempre a última palavra, do que por diferenças irreconciliáveis sobre o futuro da Nova. Este despeito é sintoma cardinal dos povos que foram submetidos a longos períodos de ditadura, em que a admissão de uma falha é um convite à brutalidade do Estado.
Assim, nenhuma das fações que vão manobrando no sentido de garantir maior influência sobre a eleição do Reitor, ou de salvaguardar interesses das respetivas faculdades, parece reconhecer a derradeira futilidade dessas manobras. Fúteis, não porque a dinâmica política deva estar ausente das instituições de ensino superior (IES), – a autonomia para escolher e responsabilizar os Reitores através de representantes democraticamente eleitos é, em si própria, uma conquista de Abril, – mas porque o prejuízo para a sociedade se tornou injustificável.
Enquanto cidadãos, confiamos nas IES para estar na linha da frente dos grandes problemas do nosso tempo. Se mais tinta tivesse sido gasta a debater qual deve ser o papel de grandes universidades como a Nova num momento em que a inteligência artificial se infiltra em todas as áreas da nossa vida, sem que Portugal ou a Europa tenham algo a dizer sobre o assunto; se a crise na Nova girasse em torno do financiamento do ensino superior, num ambiente político cada vez mais cerceado pelo paternalismo e pelo desprezo à informação; se as manchetes dos jornais tivessem mais para relatar sobre o futuro do ensino, da investigação, da ação social na Nova, e menos sobre os conflitos sectoriais da universidade, a sociedade portuguesa poderia encarar esta guerra como um sinal de vitalidade da democracia no Ensino Superior.
No atual panorama, é difícil vislumbrar na crise institucional da Nova outra coisa senão as cicatrizes de uma mentalidade ressentida, fechada, invejosa.
Mas assim como Portugal vai sacudindo lentamente o peso da “não inscrição”, como José Gil apelidou a esse trauma histórico, está também ao alcance daqueles que estudam e trabalham na Universidade Nova trazer-lhe Abris mais soalheiros – e ao contrário do que se tem registado, o exemplo deve partir justamente daqueles que lideram ou se propõem a liderar a instituição.
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