Mulher perigosa. Será que não conseguimos avançar?

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A velha e poderosa ideia de que a mulher é perigosa. Foi a primeira coisa que veio à minha mente quando li a matéria do PÚBLICO Brasil sobre a fala do Paolo Zampolli, conselheiro de Donald Trump, em relação às mulheres brasileiras. Parece ilógico que, em pleno 2026, crenças milenares próprias do obscurantismo da Antiguidade e da Idade Média sobrevivam — tão vivas — entre nós.

Parece que podemos ir várias vezes até à lua, descobrirmos curas para doenças consideradas incuráveis, desenvolvermos tecnologias que rompem as barreiras do, até há pouco, impossível; e, ao mesmo tempo, teimamos em não completar o nosso desenvolvimento emocional e cognitivo, mantendo vivas ideias e crenças criadas a partir de fábulas sem nenhuma comprovação científica que remetem à Idade Antiga. Como disse a jornalista Heloísa Villela, estamos vivendo um tempo de “sequestro cognitivo”. Só pode ser.

Para mim parece que se abriu a tampa do bueiro e todo o submundo — o nosso inconsciente coletivo do mal — saiu e está, todo empoderado, tomando as ruas com seus gritos chulos, espalhando e fortalecendo a ignorância. Alguns anos atrás, até achava cômico que atitudes tão caricatas estivessem sendo expressas sem pudor. Ledo engano: o caricato para mim é a realidade de alguns e justificável por atender interesses, para outros.

Mas vamos à crença de que a mulher é perigosa. Como todo sistema de domínio longínquo, as razões e as estratégias de sua existência são multifatoriais — mas aqui vou me restringir à ideia proposta pelo senhor Zampolli: por trás de sua fala, podemos criar toda uma linha de pensamento que diz que a mulher é perigosa, traidora, esperta e que é de sua natureza usar subterfúgios para “dominar” ou “dobrar” os homens e, assim, obter o que deseja. Essa crença, que remonta à Antiguidade, fortaleceu-se com a consolidação das religiões monoteístas, como bem aponta a historiadora Gerda Lerner no seu robusto estudo A Criação do Patriarcado (1986).

Entende-se hoje que essa construção cultural, alimentada por narrativas, que nada mais são do que crenças articuladas para um determinado fim, buscou centralizar o poder no universo masculino. Por que contra as mulheres? Primeiramente, não foi nem é só contra as mulheres, mas contra o Outro, seja este Outro o imigrante, o de etnia/língua diferente, os de classe econômica diferente, etc. Mas o foco nas mulheres se deveu à herança dos reinos e domínios da época. Vamos lembrar que são elas que podiam e podem parir. Não é à toa que, até hoje, os nossos corpos, como mulheres, ainda não nos pertencem totalmente.

Uma das estratégias bem-sucedidas que alimentam a ideia de a mulher ser perigosa é a separação entre as próprias mulheres. Ou seja, a construção do Outro não só como distinto, mas como inimigo dentro do mesmo grupo. Assim, nas crenças culturais, as mulheres podem ser a origem e a manutenção de todo o mal. Os homens, pobres coitados, não conseguem evitar sucumbir à astúcia destas. Mas há mulheres corretas, retas, que entenderam seu lugar no mundo, que, nessa cultura, é o de subordinação ao masculino, e, por isso, são aliadas do bem.

As mulheres consideradas do bem nessa cultura precisam ser cada vez mais “corretas”, isto é, seguirem as normas morais impostas pelos homens, para se distinguirem daquelas que não o são. Serem as julgadoras e até algozes daquelas “perigosas”. Transportando esse conjunto de crenças para a nossa vida cotidiana, temos o exemplo de mulheres corretas que ficam raivosas com aquelas “outras” que se permitem ser exuberantes e marcarem presença através de sua beleza e expressividade.

Especialmente porque seus homens, pobres coitados, não conseguem se conter com tanta vida na sua frente. E, vamos deixar bem claro aqui neste meu exemplo, me refiro especificamente às mulheres que nada fazem para atrair os homens das outras, mas cuja presença é suficiente para mudar o comportamento deles.

Efeito nocivo

Depois de estudar esses comportamentos sociais, entendi que a raiva das mulheres que se consideram agredidas com essa presença feminina não é contra a mulher que está captando toda a atenção masculina, mas contra si mesmas, que ainda estão com alguém que não as respeita. Por isso, nas sociedades ou grupos sociais em que o empoderamento feminino está mais bem desenvolvido, a mulher atingida com esse desrespeito masculino discute com o seu companheiro a questão, importando pouco a ação da outra mulher.

Costumo sugerir às mulheres que, para desconstruir esse pensamento e essa atitude de mulher contra mulher, é necessário entender que, em primeiro lugar, quem tem o compromisso com elas é o companheiro e não a outra pessoa. Depois, o próximo passo é compreender que o homem não é um ser fraco que precisa de ajuda para evitar a tentação. A menos que, é claro, se queira um fraco ao lado — e, nesse caso, pensar em quais crenças carregam para ter esse desejo. Mas pensando que a maioria não o quer, devemos deixar de tratá-lo como tal. Continuo apresentando para elas como o sistema patriarcal se beneficia desse tipo de raciocínio, atitude e comportamento. E como todos, como sociedade, saímos perdendo com isso.

Aos homens, mostro o que é o sistema patriarcal e seu efeito nocivo. Não há subordinação sem violência. Seja direta ou indiretamente, quem sustenta a subordinação e o privilégio de alguns, independentemente dos motivos e crenças, está contribuindo com a violência na sociedade. Podemos acreditar que ela não nos atinge porque talvez não a percebamos, mas por estarmos inseridos na sociedade somos todos vítimas dela.

Nos estudos sobre as masculinidades e os novos tempos em que estamos vivendo fica claro que o avanço do feminismo e suas ideias de equidade de gênero e justiça social, intrínsecas ao movimento, atingiram uma força motriz que gerou uma reação estruturada, empoderada e bem financiada daqueles que não desejam renunciar ao privilégio de estar no topo da pirâmide. Seja esta qual for: social, econômica, racial, cultural, moral, política, financeira, religiosa…

Tampa do bueiro

Com essa reação, a tampa do bueiro foi propositalmente aberta para que saltem vozes grotescas que digam aquilo que estava guardado entre o inconsciente e o consciente coletivo. Com isso tudo voltou a ser consciente novamente e o medo da mulher “perigosa” volta à ordem do dia. As mulheres menos aguerridas com a causa feminista — e não as critico, porque já carregam fardos demais — ficam cada vez mais temerosas em serem julgadas como as Outras e apanharem — infelizmente, em alguns casos, literalmente — sem motivo algum. Com isso, a separação se consolida.

O que fazer? Resistir. Entre os homens — aliados maravilhosos —, evitar cair na armadilha de comentários que alimentem ou confirmem conceitos como os que descrevi acima, quando estão entre seus pares. Sejam corajosos. Não é sobre ser dominado, mas sobre não dominar e causar mais violência social. Entre as mulheres, defendam as mulheres, sempre. Defendam, mesmo que seja colocando em dúvida a informação dada. Para parar com esses boatos e ideias que só nos prejudicam como mulheres. Não caiamos na ilusão de que conseguiremos ganhar algo ao nos separar das que consideramos as Outras. Estamos todas no mesmo barco. Sempre.

Lembremos que sororidade não tem a ver com ser amigas, mas em estar juntas para se ajudar. Quando uma cresce, acreditem, todas crescemos. E quando uma mulher sai à frente, acreditem, a família e a comunidade saem à frente também, como já mostrou o Relatório da UNAC/ONU de 2012: “Mulheres e meninas gastam 90% de sua renda com suas famílias, enquanto homens gastam apenas 30% a 40%”. Os homens que não veem a vida como uma gangorra, em que para um subir alguém tem de descer, estão conosco nessa luta por uma sociedade mais justa, saudável, segura e, por que não, mais gentil.

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