A chegada a este fim do mundo foi épica. Em pleno verão, isto é, em finais do mês de dezembro, chovia imenso e o nevoeiro, muito baixo, em toda a sua plenitude, transportava, sem clemência, um frio cortante, para o interior dos nossos casacos, bem apertados até ao pescoço. Passeando, em silêncio, junto ao mar com um ar bem gélido, esta viagem ao fim do mundo, parecia ter começado da pior forma.
A cidade argentina de Ushuaia estende-se por uma baía junto ao mar, ocupando uma estreita e inclinada zona, situada na base das majestosas montanhas da cordilheira dos Andes, que aqui finalizam os seus oito mil quilómetros de comprimento, cobertas de neve e de nuvens, mesmo nesta época mais aquecida e de clima menos rigoroso, deste verão austral.
A poderosa Antártida situa-se a pouco mais de mil quilómetros, pelo que a sua influência é permanente. Alguns dias mais tarde iríamos observar pinguins, sobretudo pinguins Magalhães, e leões-marinhos, por exemplo.
Quando o português Fernão de Magalhães partiu de Sevilha, em 1521, ao serviço do imperador espanhol, iria descobrir uma passagem marítima do oceano atlântico para o oceano pacífico, navegando por um determinado estreito que ainda hoje tem o seu nome, navegando a sul da Patagónia e a norte da Ilha do Fogo. Como o frio era intenso e as fogueiras que ardiam nas terras situadas do lado esquerdo destes intrépidos marinheiros eram imensas, colorindo as inóspitas paisagens com muito fogo e muito fumo, assim ficou batizada esta estranha terra com o nome de Terra do Fogo, enorme ilha situada a sul da Patagónia.
Neste longínquo estreito de Magalhães situa-se a cidade de Punta Arenas, a mais meridional do Chile, local isolado e que atrai inúmeros viajantes sedentos de aventura e de experiências geladas.
Ushuaia situa-se bastante mais a sul, na margem de um segundo estreito, que também une o oceano atlântico ao oceano pacífico, onde navegou o famoso naturalista Charles Darwin. O estreito de Beagle, localizado a sul da Terra do Fogo, deve a sua designação ao nome do barco, um bergantim, que transportou Charles Darwin durante cerca de cinco anos (1831-1836), em redor do mundo.
Pedro Mota Curto
Na segunda metade do século XIX, missionários anglicanos tentaram, sem grande sucesso, evangelizar as diversas tribos autóctones da Terra do Fogo. A maior consequência foi a quase extinção daqueles povos, em virtude das doenças que os europeus lhes transmitiram e para as quais os seus organismos não possuiam defesas. Por ali viviam, há milhares de anos, nus ou quase nus, com o corpo untado de gordura de foca e fogueiras permanentemente acesas, pois as florestas eram abundantes. Nunca morreram de frio mas sucumbiram face às novas e desconhecidas doenças europeias, como por exemplo, a tosse convulsa, transmitida pelo filho de um dos missionários ingleses.
Só nos finais do século XIX, o povoamento e ocupação da atual cidade de Ushuaia começaria a ter algum sucesso, com a construção de uma prisão argentina destinada a homicidas e loucos mas também a alguns presos políticos. Seria denominada a “Sibéria argentina”. Presos, guardas, militares, suas famílias e alguns colonos e emigrantes começaram a edificar, com a ajuda dos detidos, o que viria a ser a atual cidade de Ushuaia, nas imediações das instalações prisionais. Desde a década de 1920, o turismo abastado começou igualmente a chegar a este extremo do continente americano. Ainda hoje é daqui que partem os cruzeiros e as expedições científicas que se dirigem para a Antártida.
Nos dias seguintes, o clima melhorou e foi possível explorarmos convenientemente a cidade e seus arredores. Verdadeiramente fascinante.
A já referida prisão, inaugurada em 1896 e encerrada em 1947, devido às condições demasiado agrestes e desumanas, é hoje um local cuja visita é absolutamente imperdível e fascinante. Aqui se iniciou o verdadeiro povoamento e construção da cidade, hoje com mais de 60.000 habitantes. As instalações da prisão albergam diversos pequenos museus relativos à história local, sendo um ponto a visitar demoradamente. O bilhete não é propriamente barato mas pode ser utilizado durante vários dias.
Numa pequena avenida, junto ao gélido mar, ou numa rua paralela, mais interior e protegida dos ventos polares, atualmente o centro da cidade, são inúmeras as lojas, os cafés e os restaurantes. Carnes argentinas grelhadas e peixes e mariscos de águas frias não faltam, com especial destaque para o famoso Caranguejo Real (King crab), espécie de santola gigante, verdadeira iguaria, apesar dos preços inflacionados. Vinhos argentinos ou chilenos e cerveja da Patagónia aguardam igualmente turistas e viajantes oriundos de todo o mundo, muitos a caminho da Antártida.
Em Ushuaia existem diversos pequenos museus, quase todos relativos à temática do fim do mundo, restaurantes do fim do mundo, pousadas e hotéis do fim do mundo, quase tudo aqui é denominado como sendo do fim do mundo e na realidade não andam muito longe da verdade. E se no verão está este frio e este clima pouco amistoso, supomos que no inverno o fim do mundo será ainda mais real.
No canal Beagle existem inúmeras propostas de passeios em barcos ou em catamarãs, durante uma manhã ou uma tarde, durante um dia ou vários dias. Haja tempo, disposição e orçamento para tal. Os passeios que realizámos, de meio-dia, foram todos muito bons e recomendáveis, pelas paisagens, pela aventura, pela observação da fauna, incluindo pequenos pinguins tão desinibidos quanto divertidos assim como pachorrentos leões-marinhos. Acresce a visão extraordinária de montanhas imponentes, ali imóveis há milhões de anos, suportando todas as erosões e sempre com os cumes cobertos de neve e gelo.
Pedro Mota Curto
Nestas experiências de navegação pelo canal Beagle é aconselhável ir consideravelmente agasalhado, como deverão calcular. Sim, também de gorro, cachecol e luvas, só com os olhos de fora. A não ser que permaneçam no interior das embarcações. No entanto, é preferível viajar no exterior a fim de melhor observar toda esta deslumbrante e imponente paisagem, incluindo um fantasmagórico farol inaugurado em 1920, construído em cima de uma rocha no meio do canal Beagle, num local absolutamente do fim do mundo, ou para observar a pequena localidade chilena de Puerto Williams, situada na margem sul do canal e por isso ainda mais a sul do que Ushuaia.
Regressando a terra firme, a oeste de Ushuaia situa-se o Parque Nacional da Terra do Fogo, a não perder, pela solidão das paisagens e pela beleza natural das montanhas, dos lagos, das árvores e da profusão de cores. A imaculada natureza em todo o seu esplendor. Para lá chegar, parte do percurso é realizado num pequeno comboio, denominado o comboio do fim do mundo, antigamente utilizado pelos presos, da prisão do fim do mundo, que iam cortar árvores para abastecer a cadeia e a cidade.
Uma nota final para referir e valorizar um pavilhão, situado junto ao porto, onde se fabrica e vende artesanato local, a preços acessíveis, elaborado pelos poucos sobreviventes dos povos autóctones, que assim vão preservando a sua arte e a sua cultura milenar, tão antiga e tão misteriosa quanto desconhecida da generalidade dos visitantes.
Pedro Mota Curto (texto e fotos)
O leitor escreve segundo o acordo ortográfico em vigor
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