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Vi com preocupação a derrubada, pelo Senado, sob a liderança de David Alcolumbre – não me lembro se desta feita ele rebolou em cima da mesa ou não – do veto do presidente Lula ao chamado PL da Dosimetria, medida que, na prática, alivia a cana para os responsáveis pelo 8 de janeiro, os que tentaram um golpe de estado e a abolição do estado de direito.
Senti o voto dos 49 senadores favoráveis aos golpistas como… um golpe – esse no estômago, um mal-estar físico: aquela sensação de invasão, violação e impotência diante de um assalto, quando algo é arrancado de nós, como um Rolex (imagino) ou um membro (exagerando).
Nunca havia sentido isso em relação ao voto. Compareço às urnas, como a maioria dos brasileiros, de quando em quando; nunca votei nulo ou branco – jamais justifico. O que não significa que me lembre de todos que escolhi para vereador ou deputado – e que tenha valorizado meu voto o quanto que lhe é devido.
Mas também nunca havia tido a sensação de que isso me era roubado. Claro, ouvi e li as muitas histórias sobre a ditadura – o período em que roubavam na cara dura milhões e milhões de votos (é importante sempre falar disso, concordo inteiramente com Kleber Mendonça Filho). Mas uma coisa é ouvir falar. Outra é viver. E agora, tendo assistido à destruição da Praça dos Três Poderes — o ataque ao Palácio do Planalto, ao Congresso Nacional e ao Supremo —, senti na carteira a dor daquilo que me era levado, que é onde eu carrego, sempre comigo, meu título de eleitor, ao lado da oração de São Francisco e dos cartões de banco.
A vítima de assalto é muitas vezes tida como um ingênuo. Sempre acho, ao fazer um BO, que o policial atrás da mesinha está tirando uma comigo. Afinal, nossa perda é sempre uma contingência. Algo que acontece sempre, e cada vez mais, especialmente em São Paulo, onde moro. Na delegacia, nosso infortúnio parece trivial frente ao dos outros.
Eu me sinto ingênuo também em relação ao meu voto. Compreendo que ele não vale muito. Reconheço que ele, em si, resolve muito pouco. Como não cuido devidamente dele, não o acompanho pelos escaninhos de Brasília ou São Paulo, não “governo quem governa”, como recomendava Maquiavel, sou por eles governado. Pelos piores, os que ocupam o vazio deixado por quem abandona o voto, como alertava o mestre florentino.
Agora vejo, consternado, e um tanto revoltoso, o apoio a quem tentou surrupiar o meu sufrágio. À luz do dia, na cara dura, estimulando o roubo, seja atacando urna, seja defendendo anistia – ou “dosimetria”, o que dá no mesmo: Sergio Moro, Espiridião Amim, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro. Eis o cúmulo: pedem votos, para depois estimular o furto (na verdade, latrocínio, como denunciou a PGR).
Entre eles, e com certo espanto, eis que me identifico com Flávio — como o chama carinhosamente a Folha de S. Paulo. Numa tentativa de assalto no trânsito, numa avenida da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, não teve dúvidas: sacou a pistola e disparou contra os motoqueiros armados — o que rendeu boas fotos dos buracos no vidro do carro. Como ele, não gosto de ser assaltado.
A mesma indignação e valentia, porém, esse Bolsonaro não exibe quanto aos ladrões de votos. Ao contrário: promove e apoia a atitude dos que tentaram destituir o meu, o seu, o nosso voto.
Deveríamos os eleitores andar armados? Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
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