Quando falamos da educação em Portugal nos últimos 20 anos, podemos fazer uma lista longa de acontecimentos que, todos somados, podem dar-nos a fotografia exacta das gerações que se têm vindo a formar e a educar no nosso país. Lembrarei, um pouco ao sabor da memória, alguns acontecimentos que deviam alarmar os decisores políticos e, muito em especial, os pais e os professores. Não irei indicar as datas destes acontecimentos que elenco, mas todos se lembrarão, com maior ou menor dificuldade, da gravidade deles. Lembro o triste episódio das praxes do Meco, que causou a morte a estudantes do Ensino Superior, os quais, naquela praia, eram “iniciados” na arte de serem “universitários” e, agindo em conformidade, conduzidos pelo “dux“, ataram pedras aos pés e às pernas, viraram-se de costas para os vagalhões que rebentavam naquele fim de tarde e, para melhor ser a seriedade da praxe, nem despiram a farda académica. O resultado? Levados pelo mar e perdidas as vidas das famílias destes que estavam a entrar na idade adulta pela porta da Universidade. O culpado? Após investigação e processo confuso, o culpado foi o mar, impossível de ser, claro está, responsabilizado.
Lembro também a violência recente de quatro adolescentes rapazes que violaram uma rapariga de 16 anos. Perante o grito de dor e de repúdio da pobre rapariga, que fizeram esses jovens? Insistiram. Persistiram. Uma mulher como Cristina Ferreira, sagaz, justa, inteligente, conhecida pela sua forma séria de analisar o real e de sobre ele falar, sugeriu – ou mesmo declarou – que um “não” repetido várias vezes é, numa situação de excitação, entendível como um “sim”. Não há sequer uma crítica de quem – o Presidente da República, porventura –, com a sua autoridade, poderia, na verdade, fazer pedagogia.
Lembro, há já uns anos, os casos das escolas Stuart Carvalhais e da Carolina Michaelis onde, por causa do inferno dos telemóveis, alunas violentaram, com impropérios e comportamentos a roçar a agressão física, os professores que lhes fizeram frente. Lembro, já agora, numa universidade, a recente aula de inauguração de ano lectivo durante a qual uma aluna, virando-se para a docente, a mandou para aquela parte que rima com alho e sustentou que, como não aprendia nada, estava-se a borrifar (o verbo não foi este, claro) para aquelas aulas. E lembro, neste mesmo contexto de violência que vai crescendo em Portugal, os inúmeros casos que se vão multiplicando por essas escolas e colégios, de Norte a Sul; violência que mina a estabilidade escolar, armadilha as relações pedagógicas e reflecte a péssima educação que, um pouco por todo o lado, vemos ser moeda de troca, seja nos estabelecimentos de ensino, nas ruas, nos cafés, nas relações entre adolescentes, com violência no namoro, seja entre adolescentes e adultos.
A questão central é, quanto a mim, de natureza mental e cultural. O que se passa e ninguém quer ver – sobretudo os sucessivos governos e as respectivas tutelas na educação – é que, nos últimos anos, a violência escolar e universitária tem uma raiz comum: a demissão da célula familiar no processo educativo. É a pobreza dos agregados familiares, a sua desestruturação, o desemprego, a vida precária de milhares de famílias portuguesas, a causa principal da violência crescente na adolescência. Famílias pobres, sem condições de dar aos filhos qualquer perspectiva de futuro, mas famílias onde crianças e adolescentes que frequentam a escola passam horas e horas nas redes sociais, eis o que acaba por constituir um cocktail explosivo. Reféns das redes sociais onde grassa a pornografia, a boçalidade dos “influencers“, o terrorismo de uma propaganda que fornece aos jovens como único valor a fama e o sucesso; sem livros, sem um quotidiano escolar saudável, sem aulas onde aprendizagens fossem significativas, com professores verdadeiramente cultos e com sólida formação científica, enfim, absolutamente entregues à ideologia Trump, ao modo ignaro e animalesco de ver o mundo que lhes vem do grande ídolo André Ventura, os jovens portugueses são hoje – enquanto filhos da geração rasca – um espelho fiel do nosso falhanço educativo. Falhanço em toda a linha, diga-se: na corrupção de um ideal de escola, no adulterar de qualquer ideia de auto-conhecimento.
Todavia, que não se pense que este caso de violência sobre o jovem iraquiano de 27 anos, estudante em Portugal, apedrejado (suturado com 15 pontos!) por 20 adolescentes, só acontece porque são adolescentes pobres. Não será este o caso. A avaliar pelas imagens dos vários canais televisivos, pelas roupas e forma de actuar, aqueles 20 jovenzinhos muito corajosos que, festejando o 25 de Abril, insultaram e depois apedrejaram aquele pobre iraquiano, esses jovenzinhos não devem ser filhos de pobres. À polícia caberá investigar. Mas este caso é grave pelo que igualmente deixa transparecer: os filhos das famílias ricas, os estudantes de colégios, são igualmente violentos. Podem mesmo ser mais violentos que os filhos dos pobres, porque sabem que estão respaldados: ser-se filho de um advogado ou de um director de um canal televisivo, de um médico ou de um professor universitário, isso é muito diferente do que ser-se filho de um taxista ou de um mecânico, de uma auxiliar de acção educativa ou de um lojista de centro comercial. O que está em processo de há 20 anos a esta parte é, receio bem, a bestialização completa das gerações formadas em Portugal seja na escola pública, seja nos colégios privados.
Sem nada terem de ler e de saber escrever para irem para a faculdade, frequentando horas a fio, fazendo directas, as redes sociais; violentados por um aparelho multimediático alienante e empobrecedor (as séries de TV, o TikTok, etc, etc., etc.), obcecados pelo dinheiro – uns porque o têm facilmente porque são “filhos de papás” e outros porque o desejam ter de forma fácil, por que são pobres –, que esperar dos filhos da “geração rasca”? Com um português de caserna, com verbos mal conjugados, léxico reduzido, agressividade crescente e permanentemente desculpada, esta geração – “a mais bem preparada de sempre” – vive num país onde a classe política corrupta e indigente, um jornalismo vendido aos interesses e profundamente inculto, e um sistema educativo destruído por reformas que brutalizaram forma e conteúdo, autoriza a cobardia, a vaidade impante e a boçalidade. Tudo isto é próprio de um país sem memória e, no fundo, profundamente fascista onde a mediocridade é defendida e incentivada. O iraquiano violentado por estudantes ainda menores que o diga: vinha de festejar Abril… “Abril é o mês mais cruel”, escreveu Eliot.
Tenho dito e escrito: estamos nas vésperas de um crime de sangue numa escola, numa universidade em Portugal. Ou pode ser numa rua – um crime perpetrado por um estudante bem preparado para fazer praxes, mas não para estudar.
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