Num tempo em que o bem-estar se tornou uma indústria, cresce também uma zona cinzenta preocupante, a proliferação de “profissionais” sem formação adequada a intervir em áreas que exigem competência clínica. “Coaches” improvisados, terapeutas sem supervisão, promessas rápidas para dores complexas, tudo isto pode parecer inofensivo à superfície, mas torna-se particularmente arriscado quando estamos a falar de pessoas em sofrimento psicológico. A boa intenção não substitui conhecimento técnico, e a ausência de enquadramento científico pode não só falhar em ajudar, como agravar o problema.
Durante anos, uma das perguntas que mais ouvi, dentro e fora da academia, foi: “Como sei se estou com o psicólogo certo?” A minha resposta começou a ganhar forma em 2007, quando terminei a minha tese de doutoramento. O objectivo era perceber, de forma rigorosa, como funciona o processo de dar e receber ajuda psicológica. Observei 39 díades terapeuta-cliente ao longo das primeiras sessões de terapia, da primeira à oitava, e procurei compreender o que realmente faz a diferença. O estilo do terapeuta. A forma como o cliente lida com os seus problemas. A motivação, a resistência, a qualidade da relação entre ambos. E, sobretudo, o impacto disso no bem-estar psicológico ao longo do tempo.
Houve ainda espaço para um mergulho mais fundo, um estudo intensivo de um terapeuta com 19 clientes, permitindo observar, quase em tempo real, como o seu estilo influenciava a mudança terapêutica.
As conclusões não foram surpreendentes, mas são frequentemente ignoradas.
O estilo do terapeuta importa. Muito. E, mais do que isso, a capacidade de o ajustar ao cliente é um dos factores mais determinantes para o sucesso. A chamada “aliança terapêutica”, a qualidade da relação entre psicólogo e cliente, continua a ser um dos melhores preditores de progresso. É o núcleo do processo.
Sabemos também que há momentos críticos. A terceira e a quinta sessão são, muitas vezes, pontos de viragem. É aí que se percebe se a terapia vai ganhar voo, ou não. E isto leva-nos à pergunta prática, como reconhecer um bom psicólogo?
Primeiro, o básico, mas nem sempre garantido, formação sólida (1.º e 2.º ciclo em Psicologia e estágio profissional júnior) e inscrição na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Sem isto, nem vale a pena avançar.
Depois, algo menos óbvio, a compatibilidade entre ambos. Nem todos os bons psicólogos são bons para todas as pessoas. A “boa combinação” é uma condição de eficácia.
Há sinais claros a que deve estar atento. Sentir-se ouvido, compreendido, seguro. Um bom psicólogo não se apressa a dar conselhos nem impõe soluções. Faz perguntas, boas perguntas, no momento certo. Ajuda a pessoa a pensar, não a obedecer.
Transparência também conta. Um profissional competente explica como trabalha, o que pode esperar e como avalia o progresso. A psicoterapia não é um acto misterioso, é um processo estruturado, com método, intenção e critérios de avaliação. Este é um outro ponto raramente discutido, a avaliação contínua. Instrumentos como o CORE-OM ou o SCL-90-R permitem monitorizar, de forma objectiva, se a terapia está a resultar. Complementam a relação terapêutica com dados.
Há ainda um factor que não aparece em manuais, mas que pesa, a sua própria motivação. Saber, mesmo que vagamente, porque está ali, aumenta a probabilidade de mudança. E, mais importante ainda, ser você próprio a pegar no telefone e marcar a primeira sessão. Isto indica que você está no ponto ideal para começar.
E, por fim, o critério mais subestimado, e talvez o mais honesto, o seu instinto. Se, ao fim de quatro ou cinco sessões, não sente sintonia, algo não está a funcionar. E não há problema em procurar outro profissional. Permanecer numa má aliança terapêutica é insistir num caminho que dificilmente dará resultados.
A ideia de que existe “o melhor psicólogo” é um mito confortável porque simplifica uma decisão complexa. Dá-nos a ilusão de que há um ranking universal, uma escolha óbvia que funciona para todos. Mas a psicoterapia não funciona assim. Não é um produto padronizado, é uma relação. E as relações dependem de contexto, timing e encaixe.
O que existe, na prática, é o psicólogo certo para uma determinada pessoa, num determinado momento da sua vida. Alguém cuja forma de trabalhar, ritmo, linguagem e enquadramento fazem sentido para aquele problema específico, e para aquela fase específica. Um terapeuta pode ser altamente competente e, ainda assim, não ser o mais indicado para si, aqui e agora.
Há momentos em que precisamos de mais estrutura, outros em que precisamos de mais exploração. Há pessoas que beneficiam de uma abordagem mais directiva, outras que crescem num espaço mais reflexivo. A eficácia não está apenas na técnica, mas na forma como ela é aplicada e recebida.
É por isso que a escolha não deve ser feita apenas com base em reputações e recomendações de outros, mas na experiência concreta e real da relação terapêutica. Não se trata de encontrar “o melhor”. Trata-se de encontrar quem, naquele momento, consegue trabalhar consigo de forma eficaz.
A psicoterapia funciona melhor quando há encontro, entre método e relação, entre técnica e flexibilidade, entre ciência e humanidade. Escolher um bom psicólogo não garante tudo. Mas é, sem dúvida, o primeiro passo para que comece a encontrar o seu caminho, na sua jornada de vida, que só pode ser conduzida por si.
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