Ultraprocessados: estamos a simplificar demasiado um problema complexo?

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Ao longo das últimas décadas, grande parte das políticas nutricionais procurou melhorar a saúde pública reduzindo nutrientes específicos como o sal, o açúcar ou a gordura. Ainda assim, a qualidade global da alimentação e os indicadores de saúde continuam a apresentar melhorias inconsistentes.

Foi neste contexto que o “sistema Nova” se revelou particularmente inovador, ao introduzir uma classificação de alimentos baseada na extensão e no propósito do processamento alimentar. A sua aplicação deu origem a um número crescente de estudos, incluindo ensaios clínicos, que apontam para associações consistentes entre o consumo de alimentos ultraprocessados e desfechos adversos para a saúde.

O sistema Nova divide os alimentos em quatro grupos. O primeiro inclui alimentos naturais ou minimamente processados, como fruta, hortícolas e leite. Seguem-se os ingredientes culinários processados, como azeite, açúcar ou sal, e os alimentos processados tradicionais, como pão, queijo ou conservas. Já o quarto grupo, o mais debatido, inclui os chamados “alimentos ultraprocessados”, produtos industriais formulados a partir de vários ingredientes e aditivos, concebidos para serem práticos e altamente palatáveis (agradáveis ao paladar).

Importa, no entanto, reconhecer que o processamento alimentar não é, por definição, negativo. Pelo contrário, várias formas de processamento são essenciais no sistema alimentar actual. Processos como a fermentação, utilizada na produção de iogurte, ou a pasteurização, que aumenta a segurança e o tempo de conservação dos alimentos, são igualmente formas de processamento industrial fundamentais e consideradas positivas dentro da própria classificação Nova, sendo incluídos no grupo dos alimentos minimamente processados.

Quando se comparam os extremos da classificação Nova – alimentos do grupo 1 e alimentos do grupo 4 –, torna-se evidente que aquilo que mais os distingue nem sempre é o processamento em si, mas sobretudo a sua composição (ingredientes) e qualidade nutricional global.

E é neste ponto que começa a discussão científica. Muitos dos alimentos associados a melhores resultados de saúde são simultaneamente menos processados e nutricionalmente mais equilibrados, o que torna difícil dissociar o efeito do processamento do efeito da própria composição nutricional.

Dietas ricas em produtos do grupo 4 tendem a apresentar maior densidade energética, e maior teor de gordura, açúcar e sal, características reconhecidamente associadas ao desenvolvimento de doenças como a obesidade. Acresce que a elevada palatabilidade, a textura optimizada e a facilidade de consumo destes produtos favorecem um aumento involuntário do consumo alimentar, com menor saciedade e maior ingestão calórica.

Estas questões levantam desafios relevantes para a comunicação em saúde pública. Mensagens excessivamente simplificadas podem levar à demonização de determinados alimentos, sem considerar o contexto global da dieta.

Outra limitação prende-se com a classificação de alguns alimentos no sistema Nova. Produtos como as carnes processadas, incluindo os enchidos, são incluídos no grupo dos alimentos processados (grupo 3), e não no grupo dos ultraprocessados. No entanto, o seu consumo tem sido associado a um maior risco de cancro colorrectal, sendo por isso recomendado a sua limitação. Assim, ao centrar a comunicação exclusivamente nos alimentos ultraprocessados, poderá correr-se o risco de desvalorizar outros produtos cuja redução é igualmente prioritária.

Hoje, aquilo que comemos é fortemente condicionado pelo ambiente alimentar que nos rodeia – da oferta disponível ao preço, passando pelo marketing. Transformar esse ambiente é determinante para melhorar a saúde da população. À medida que o conceito de alimentos ultraprocessados começa a ser incorporado em recomendações clínicas e em políticas de saúde pública noutros países, como a limitação da sua presença em escolas, torna-se essencial compreender o que está verdadeiramente em causa.

Se esta abordagem vier a traduzir-se em mudanças reais na formulação dos produtos, privilegiando ingredientes reconhecíveis e reduzindo a dependência de estratégias que intensificam sabor, aroma ou textura para estimular o consumo, poderá representar um avanço relevante.

No entanto, a experiência com políticas nutricionais anteriores mostra que a indústria tende a adaptar-se rapidamente aos critérios definidos, nem sempre com ganhos reais para a qualidade alimentar. Reformulações orientadas por metas específicas podem dar origem a produtos que cumprem determinados requisitos, mas mantêm características que favorecem o consumo excessivo, através da sua elevada palatabilidade e conveniência. Por exemplo, um produto com elevado teor de açúcar e gordura, mas com poucos ingredientes, pode ser classificado como alimento processado e não como ultraprocessado, sem que isso represente necessariamente uma melhoria da sua qualidade nutricional.

Assim, mais do que classificar alimentos, o verdadeiro desafio será melhorar a qualidade global da alimentação e criar contextos que tornem as escolhas mais saudáveis também as mais fáceis.

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