O Coração Ainda Bate. A arrecadação

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Espanto-me com tudo aquilo que a memória guarda e que parece arrumado durante anos, décadas. Depois, há um dia em que um cheiro, uma palavra, ou uma imagem nos restaura o momento: às vezes, intacto, outras vezes, amputado, manco. Mas o momento não deixa de vir ao nosso encontro.  Ficou guardado naquilo que parece ser uma arrecadação. Estava tão ali atrás que nem sabia que existia. 

Foi neste dia da mãe que me lembrei da minha primeira ida a um ginecologista. Tinha 20 anos e fui com o meu namorado, que havia de ser o meu primeiro marido, ao consultório de um homem com ar circunspecto, um sisudo, escudado em três ou quatro palavras, que saíam a custo. Já não me lembro de onde viera a recomendação, mas tenho a certeza que não iria bater a uma porta desconhecida, como quem entra numa loja “só para ver”. Ir a um médico é uma coisa muito séria. A nossa vida depende demasiado do que nos podem dizer. 

O momento está já pouco claro, mas lembro-me de ser Inverno, noite, e de um consultório banal na baixa do Porto. Os consultórios onde mesmo os saudáveis parecem condenados ao cadafalso; uma tosse seca é o máximo que podemos ouvir nos consultórios tristes, com um balcão onde se esconde a recepcionista que toda a vida aturou o mau humor do “senhor doutor” e onde falta ânimo para mudar as revistas antigas que nos enganam a ansiedade e nos fazem sentir mais doentes porque o presente parece desajustado. Não parece, está. As notícias de há dois anos já nos podem fazer sentir perdidos. 

Nesse consultório silencioso, e sem que eu esperasse, até porque aos 20 anos damos por certa a vida, o médico virou-se para mim e disse: “dificilmente terá filhos. O seu útero é muito estreito.” Com 20 anos não sabemos que podemos escancarar a nossa perplexidade em cima da soberba dos outros.  Acho que me devo ter encolhido e deixei por fazer as perguntas incómodas que se alojavam dentro de mim.  Útero? Maternidade? Porque é que me está a dizer isso se tenho 20 anos? Não, eu não fiz estas perguntas. Fiquei em silêncio a gerir a arrogância do homem de bata branca. Não há pior silêncio do que aquele que nasce da falta de explicações; no consultório, no amor, entre amigos, na escola ou no trabalho.

Agora percebo que demorei algum tempo a refazer-me desse momento; não porque tivesse vontade de ser mãe, mas porque a escassez de justificações de um homem nebuloso de bata branca me tinham deixado atónita e emudecida. Um momento que haveria de ser apagado da minha memória nos anos seguintes, como quem arruma, na parte mais difícil da arrecadação, uns sacos cheios a que não queremos voltar.  

Segui com a minha vida até que um dia, sem esperar, fiquei grávida. Tinha 35 anos quando, eu, que sempre dormira mal, adormeci uma noite, depois de jantar, no chão  da sala de uma amiga. Algo de estranho se passava comigo. Em pouco tempo confirmei a gravidez, que afinal era possível. Primeiro o pânico tomou conta de nós, depois, aos poucos, começámos a encaixar na minha barriga a esperança e o contentamento de ver a soma de dois seres fundidos numa surpresa. Um bebé é sempre uma surpresa, o embrulho mais bonito pelo qual temos de esperar meses, gerindo a ansiedade com as poucas ferramentas que temos, sobretudo quando não o esperávamos. 

Foi uma alegria ser mãe, mas hoje destapei, sem querer, este momento de uma consulta que nunca devia ter existido. Espantam-me os homens e as mulheres que se formaram médicos, mas com pouca ou nenhuma empatia ou afecto.  Não temos de sair de um consultório de braço dado com o profissional que nos viu, muito menos se esperam sempre boas notícias quando é de saúde que se trata, mas que pessoa diz a uma miúda de 20 anos, sem razão científica validada, que ela dificilmente poderá ser mãe? Não querendo fazer demasiado alarido com um momento infeliz, que tem mais de 30 anos, aproveito este dia da mãe para pensar nos homens que crescentemente desrespeitam as mulheres. De que lugar vêm eles? Em que momento o amor lhes falhou para propagarem o ódio ou a crueldade contra quem poderá continuar a trazer luz e bonomia ao mundo?  

Os homens que odeiam as mulheres estão tão apartados da sensatez, que se esquecem que só existem porque viveram quase um ano na bolsa mágica que é o ventre feminino.  É grande a responsabilidade das mulheres num mundo como o de hoje: pensávamos ter educado bem os nossos filhos homens, mas, afinal, eles estão tão longe do amor, como nós, mulheres, do ódio. Essa é uma linguagem que sempre recusaremos, porque damos à luz o futuro da humanidade. 

O coração ainda bate.

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