O estrangeiro que habita em nós

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Num gesto simples, quase esquecido, mas que ainda sustenta o mundo quando o todo mais parece dividido, Lúcia Gaspar, com destreza, junto à sua bengala, pediu licença antes de se sentar. Ela tem 80 anos, é lisboeta e mora em Moscavide. No entanto, me contou, pouco antes de dar ritmo à conversa, que já havia morado em Alvalade. Sentou-se à minha mesa com a naturalidade de quem não atravessa distâncias — apenas aproximações.

Eu escrevia. Ela observava. Ficou curiosa e resolveu, com maestria, aquilo que a consumia: o que tanto aquelas mãos escreviam naquele teclado? Não perguntou o que eu fazia, nem de onde eu vinha. Perguntou-me apenas se eu conhecia Fernando Farinha. Falou-me então do Fado das Trincheiras, onde, como lembrou, o soldado na trincheira “não passa duma toupeira”. Na lembrança, tecida em pele clara, bochechas cor-de-rosa, olhar sereno e cabelos grisalhos, a sabedoria antiga se apresentava de forma interessada.

Lúcia não me falava apenas de uma música. Falava de fronteiras e das guerras. Discursava sobre essa estranha capacidade humana de cavar separações onde poderia haver passagem. Foi então que, com a lucidez tranquila de quem já viu o tempo fazer o seu trabalho, disse-me que as fronteiras há muito deixaram de existir para separar. Existem para nos aproximar e aperfeiçoar. Não disse isso como quem defende uma ideia. Disse como quem descreve o que já viveu, assustada com a maneira como o presente insiste em voltar ao passado. Neste momento, fez uma pausa e uma dolorosa referência ao noticiário da noite anterior.

Estávamos no Sabor & Arte, um restaurante aberto há pouco mais de um ano por uma família brasileira vinda de São Miguel do Iguaçu, no interior do Paraná. Um espaço acolhedor, onde os sotaques não se anulam — ajustam-se. A língua portuguesa se estica, encurta, ganha ritmo diferente e continua sendo casa. Ali, a família trabalha unida. Vieram sem ruptura, mas em continuidade — trazendo consigo uma vocação antiga: empreender, cozinhar, servir e construir. E, talvez sem saber, criaram mais do que um negócio. Criaram um lugar. Um lugar onde ninguém precisa explicar demasiado quem é para poder permanecer.

Ao redor, portugueses e brasileiros dividiam mesas, conversas e silêncios. Ora ou outra, diferentes nacionalidades se aproximavam para provar as habilidades das mãos brasileiras nas panelas junto aos ingredientes da terra portuguesa. Não havia esforço de integração. Havia algo discreto e mais profundo: convivência. E a convivência, quando se instala, dissolve lentamente aquilo que o discurso costuma endurecer.

Lúcia estava ali como parte desse movimento silencioso. Não como exceção, mas como hábito. Uma bandeira branca. Volta todos os dias desde que o restaurante abriu suas portas, transformando a esquina num ponto de encontro de fronteiras inexistentes. E há algo de profundamente revelador nisso: o que se repete deixa de ser estrangeiro.

Foi naquele ambiente — criado por quem atravessou o Atlântico — que Lúcia trouxe à mesa um fado que perguntava pelas guerras, pelas fronteiras e por essa estranha vocação humana de viver debaixo do chão, como toupeiras. Mas, enquanto falava, parecia que a resposta já não precisava ser cantada.

Estava ali, em Estrangeiros para Nós Mesmos, quando Julia Kristeva lembra que o estrangeiro não é apenas aquele que vem de fora. Ele habita em nós. Por isso o encontro com o outro nos desloca tanto: porque nos obriga a reconhecer uma parte de nós que também já se sentiu fora de lugar. Acolher quem chega não é apenas um gesto de generosidade. É reconhecer que a imigração não empobrece necessariamente um território. Muitas vezes, ela o amplia.

O que se via naquele restaurante não era a ameaça tantas vezes repetida no discurso fácil: a de que o brasileiro chega para tomar o lugar de alguém. O que se via era trabalho, empreendedorismo, circulação, presença, consumo e pertencimento. Uma família brasileira criava sustento, servia a comunidade, ativava a economia local e transformava uma esquina de Moscavide num lugar onde portugueses, brasileiros e outras nacionalidades podiam permanecer.

Lúcia parecia compreender isso. Naquele pequeno ponto de Moscavide, criado por quem atravessou o Atlântico, as fronteiras não desapareceram. E, quando isso acontece, o que resta não é o vazio — é o encontro inesperado. Neste caso, provocado pelo casal de brasileiros em terra portuguesa, capazes de acolher outras nações que por ali passam — na pausa para o café, no almoço do trabalho — antes de seguirem para cumprir, em outros lugares, a mesma função: trabalhar, construir e pertencer.

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