A frase
“[Em Amesterdão] fica proibida a publicidade a carne no espaço público — qualquer tipo de carne — porque os muçulmanos ficam ofendidos. Porque como eles não comem carne, supostamente, não querem que mais ninguém coma carne nem gostam de ver publicidade a carne”
O contexto
O líder do Chega, André Ventura, publicou um vídeo no X a reagir a uma imagem com aspecto de notícia na qual se lia: “Amesterdão proíbe publicidade a carne no espaço público para não ofender muçulmanos”.
“Vocês vejam isto”, começa por dizer Ventura, “vejam ao ponto de loucura que estamos a chegar”. “Isto é aqui ao lado na Europa […] se nós não paramos isto a tempo isto vai-nos comer vivos”. O líder do Chega gesticula e mostra expressões de surpresa e indignação enquanto diz que “isto vai-nos fazer desaparecer, vai-nos fazer ser dominados no futuro”.
“Isto é na Holanda, em breve será aqui em Portugal. Acordem.”
Os factos
O que Ventura diz é falso. A publicidade a carne foi proibida em Amesterdão, sim, assim como a publicidade a combustíveis fósseis. Mas nada tem que ver com qualquer exigência da comunidade muçulmana, antes com uma estratégia da cidade para desencorajar os habitantes de comportamentos que provoquem altas emissões de carbono, como consumir carne.
Desde 1 de Maio, está proibida na capital holandesa publicidade a viagens para destinos longínquos, companhias aéreas, cruzeiros, carne, peixe e outros produtos. É a primeira capital a fazê-lo — há outros municípios nos Países Baixos que proibiram a publicidade a combustíveis fósseis — e a medida está alinhada com os objectivos ambientais da cidade: reduzir 95% das emissões de carbono até 2050 e garantir que até 2030 60% da proteína consumida pelos residentes vem de plantas.
A proposta foi apresentada por duas vereadoras de esquerda — Jenneke van Pijpen, do GroenLinks, e Anke Bakker, do Partido pelos Animais — e aprovada em Janeiro. Por ter dado pouco tempo para retirar todos os cartazes da cidade, a Câmara de Amesterdão só vai começar a multar quem afixe publicidade a carne e combustíveis fósseis a partir de 2027. Até lá, a medida está num processo de transição.
“Ao proibir este tipo de publicidade, o município contribui a nível local para a concretização das metas climáticas acordadas a nível nacional e europeu. O município tem também a obrigação positiva de proteger a saúde dos residentes, inclusive no contexto de efeitos a longo prazo, como as alterações climáticas”, lê-se na proposta aprovada. “A publicidade tem uma influência substancial no comportamento das pessoas que a ela estão expostas, sendo indesejável que a publicidade incentive as pessoas a consumir produtos e serviços provenientes de uma cadeia de produção com impacto climático negativo”. E destaca-se: “A oferta de produtos e serviços continua a ser livre.”
“Se se gasta tanto dinheiro dos contribuintes e se implementam tantas políticas para tentar gerir as alterações climáticas em Amesterdão, por que razão se alugaria as paredes públicas para exactamente o oposto?”, questionou Anneke Veenhoff, vereadora a favor da proibição, de acordo com o The New York Times.
Não há qualquer relação entre o que disse André Ventura e a realidade. Esta proibição tem causas ambientais e não religiosas. E a lei islâmica não proíbe sequer a ingestão de toda a carne, como André Ventura dá a entender. Um muçulmano não pode comer carne de porco, mas pode comer outras se forem halal (quer dizer o que é permitido para os muçulmanos em várias áreas da vida). Como explicou em 2022 ao PÚBLICO o imã da Mesquita de Lisboa, Sheik Munir, é preciso que quem mata o animal seja muçulmano, que pronuncie o nome de Deus ao fazê-lo, e que o animal seja degolado nas artérias principais. Quanto ao peixe, é halal só o que tiver escamas. E na preparação de comida não deve haver contacto com alimentos não halal.
A imagem a que André Ventura reage é retirada do Folha Nacional, o órgão de comunicação social do Chega. Mas em parte nenhuma da notícia se volta a mencionar que a proibição está relacionada com a comunidade muçulmana. Lê-se na notícia do jornal do Chega: “Oficialmente, a decisão é justificada com razões ambientais, nomeadamente a redução de emissões e o objectivo de atingir a neutralidade carbónica até 2050. No entanto, críticos consideram que a medida vai além da questão climática e representa uma tentativa de impor uma determinada visão ideológica sobre alimentação e consumo.”
Mas nunca é mencionada qualquer relação da comunidade muçulmana com esta medida. Também não é citado nenhum crítico nem é explícito a que “visão ideológica alimentação e consumo” a notícia se refere.
A Associação de Carne dos Países Baixos considera, de acordo com a BBC, que a medida é uma forma indesejável de influenciar o comportamento do consumidor”. E acrescenta que a carne “fornece nutrientes essenciais e deve permanecer visível e acessível aos consumidores”. As críticas existem, acusam os decisores de limitar a liberdade de escolha dos consumidores, mas não mencionam uma suposta influência da comunidade muçulmana nesta lei.
No final do vídeo André Ventura sublinha: “Isto vai-nos fazer desaparecer, vai-nos fazer ser dominados no futuro.” O líder do Chega voltou a fazer uma referência à teoria da Grande Substituição, uma tese supremacista branca que diz que as “elites de esquerda” estão a conspirar contra os brancos da Europa para os substituir por povos de outros continentes.
O veredicto
A publicidade a carne foi proibida em Amesterdão, assim como publicidade a combustíveis fósseis, por motivos ambientais. A medida não está relacionada com o facto de pessoas muçulmanas “ficarem ofendidas” com aqueles anúncios.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com





