No final de março, ainda em resposta aos dias turbulentos que se seguiram à não recondução de Francisco Frazão na direção do Teatro do Bairro Alto, escrevia-se nas páginas deste jornal um artigo que era menos sobre espaços culturais, programações frágeis ou públicos intermitentes, e mais sobre uma sintomatologia — sinais de algo mais profundo: a dificuldade em reconhecer a cultura e as artes performativas como parte integrante da vida coletiva, e não como um adorno dispensável. Se, nesse momento, Lisboa oferecia (e oferece ainda) um cenário privilegiado para essa reflexão, o concelho de Sintra amplia-o e complexifica-o, revelando não apenas problemas relacionados com a fruição cultural e o acesso democratizado às artes, mas também um conjunto de questões estruturais que, tal como definido nos princípios fundamentais da Constituição, se relacionam com “a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa”.
De facto, Sintra não é um território simples. A extensão, diversidade geográfica e composição multicultural do segundo maior concelho português fazem dele um dos contextos mais ricos — e, simultaneamente, mais desafiantes — do país. Do litoral às zonas urbanas densas, do património histórico às periferias em expansão, coexistem realidades sociais, económicas e culturais profundamente distintas. Podemos alinhar com quem defende que esta heterogeneidade, longe de constituir um problema, representa um enorme potencial. Contudo, como tantas vezes acontece, esse potencial permanece, em larga medida, por ativar.
Aquilo que frequentemente se designa como “Linha de Sintra”, evocado como eixo de ligação, expõe um paradoxo difícil de ignorar: une lugares, mas nem sempre aproxima pessoas. Conectar não é apenas garantir mobilidade física através de estradas, comboios ou interfaces — é também cuidar daquilo que sustenta o encontro e o reconhecimento mútuo.
Para lá da infraestrutura tangível, existe uma outra, invisível, mas decisiva: a das relações, da confiança e da vida cultural. Em Sintra, ambas revelam fragilidades. A pressão quotidiana sobre os transportes — bem conhecida de quem enfrenta comboios sobrelotados nas chamadas “horas de ponta” (que, na verdade, parecem ser todas) — cruza-se com uma erosão mais silenciosa do bem-estar coletivo, alimentada pela escassez de espaços, tempos e mediações capazes de transformar coexistência em comunidade. O potencial cultural das populações existe, mas permanece, largamente, por canalizar, bloqueado tanto por limitações materiais como pela ausência de pontes efetivas entre o poder local e as comunidades. Sem esse contacto, a fruição cultural — essencial também para aquilo que designamos como “qualidade de vida” — tende a parecer inexistente, quando poderá estar apenas dispersa e desarticulada. Ainda assim, a cultura persiste: vive nas práticas, nas memórias e nas expressões quotidianas. Mesmo negligenciada, continua a afirmar-se como base resiliente de uma infraestrutura intangível que, sendo ignorada, não deixa de ser fundamental.
Um dos episódios referidos no artigo supracitado — a dificuldade em compreender, integrar e mobilizar as múltiplas vozes sintrenses — expõe uma falha que vários autores têm vindo a identificar. O sociólogo britânico Anthony Giddens sublinhava que as sociedades contemporâneas vivem uma tensão permanente entre estruturas institucionais e a experiência vivida dos indivíduos. Quando essa experiência não encontra canais de expressão e reconhecimento, instala-se um défice de participação que corrói a confiança e o sentido de pertença.
É, precisamente, esse défice que parece atravessar Sintra de forma mais incisiva do que a própria linha ferroviária que liga o centro histórico da vila ao Rossio. O conhecimento existe — nas práticas quotidianas, nas comunidades, nas expressões culturais informais —, mas raramente é integrado nos processos de decisão. Como sugerem abordagens de investigação participativa, nomeadamente as desenvolvidas na London School of Economics pela equipa de Flora Cornish, o saber não deve apenas ser recolhido, mas coproduzido, discutido e aplicado com aqueles que vivem o território. Quando tal não acontece, o resultado não é apenas a falta de conhecimento, mas a falha na sua articulação e utilização.
O chamado “património intangível” — feito de relações, memórias e práticas culturais — não só define a identidade dos territórios como pode constituir um motor de coesão. Em Sintra, essa dimensão é evidente, mas permanece fragmentada. A multiculturalidade, em vez de ser trabalhada como recurso, é, frequentemente, deixada à sua própria sorte, sem mediação, continuidade ou projeto. Quando mediada, é-o por agentes alheios à complexidade do território, apropriando-se desse património em função de agendas externas aos interesses das comunidades. Tudo isto dinamita a construção de um legado coletivo, que é, indubitavelmente, multicultural. Negligenciar essa multiculturalidade é, em última análise, negligenciar o futuro de Sintra.
Como já se sabe há muito, as comunidades não se constroem através de serviços, mas de relações. E isso exige tempo, espaço e intenção. Exige diálogo e práticas regulares que permitam o reconhecimento mútuo, não apesar das diferenças, mas através delas. Quando essas práticas são inexistentes ou episódicas, o território fragmenta-se, social e simbolicamente.
É aqui que a cultura, e em particular as artes performativas, podem desempenhar um papel decisivo. Shannon Jackson, em Social Works – Performing Art, Supporting Publics (2011), recorda-nos que a arte não é apenas expressão: é também infraestrutura social. Um espetáculo, um concerto ou uma performance são dispositivos de relação, capazes de criar públicos e, sobretudo, comunidades. A multiplicação destas práticas, de forma descentralizada, contínua e enraizada, poderia constituir uma resposta concreta a problemas, frequentemente tratados apenas como questões de segurança, educação ou ação social — gerando, não raras vezes, confusões entre diferentes domínios de intervenção.
Importa, por isso, clarificar um ponto central: não basta programar. É necessário repensar a forma como se concebe e organiza a ação cultural. Muito se tem discutido sobre coesão social e territorial, conceitos que emergiram como pilares das políticas europeias de desenvolvimento e como campos de reflexão relevantes entre investigadores e decisores. Muitos alertam para os limites de abordagens, excessivamente tecnocráticas, desligadas das dinâmicas sociais reais. Christian Albrekt Larsen, em The Rise and Fall of Social Cohesion (2013), demonstra que a coesão depende, em grande medida, da perceção de justiça, inclusão e confiança nas instituições.
Sintra parece reunir vários dos riscos identificados por Larsen: desigualdades persistentes, fragmentação territorial e fraca articulação entre políticas e experiências vividas. No entanto, reúne também condições únicas para inverter esse cenário. A questão não é a ausência de recursos — eles existem —, mas a forma como são mobilizados.
A resposta poderá passar por algo simultaneamente simples e exigente: criar condições para o encontro. Não apenas em momentos excecionais, mas no quotidiano. Jantares comunitários, espetáculos de teatro, leituras coletivas, oficinas artísticas — práticas com potencial decisivo para construir aquilo que nenhuma política pode impor: o sentimento de pertença. Sintra pode e deve afirmar-se como espaço de criação e consolidação de comunidades de apoio e cuidado, tal como concetualizado por Talia Schaffer.
Neste contexto, o papel das autarquias é central — não como únicas responsáveis, mas como facilitadoras. Criar infraestruturas é importante; criar ecossistemas (de cuidado e apoio) é decisivo. Isso implica apoiar, estrategicamente, os agentes culturais locais, descentralizar recursos, promover parcerias e abrir espaço à participação efetiva das comunidades. A cultura não pode ser apenas programada: deve ser coconstruída. Só assim Sintra poderá afirmar-se como referência.
A nível nacional, as estratégias de coesão social e territorial enfrentam desafios semelhantes. A Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses representa um avanço relevante, mas levanta questões essenciais: estamos a promover uma verdadeira descentralização? As comunidades participam na definição programática? Este modelo fortalece relações locais ou limita-se à circulação de obras? Onde estão os ecossistemas de cuidado e as plataformas de participação?
Responder a estas questões constitui um dos desafios mais urgentes da democracia contemporânea. E tudo indica que apenas através de políticas, genuinamente inclusivas, será possível fazê-lo.
Os autores escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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