O presidente da Câmara de Viana do Castelo garantiu nesta quarta-feira que o mercado municipal será construído no local do antigo prédio Coutinho, depois de serem “registados, de todas as formas possíveis”, os vestígios arqueológicos, com cinco séculos, lá encontrados.
Luís Nobre, que falava aos jornalistas depois de uma visita aos vestígios do antigo convento de São Bento e do primeiro mercado de Viana do Castelo, disse que, quando os trabalhos de escavação estiverem concluídos, dentro de cerca de dois meses, será efectuada uma “preservação por registo” cartográfico, fotográfico, digital e publicação.
Os achados arqueológicos serão destruídos para a construção do piso-1 do parque de estacionamento que servirá o mercado municipal. O autarca assegurou que “a preservação da memória do espaço vai ser o mais exaustiva possível” e que, ainda esta semana, “vai ocorrer mais uma reunião para analisar as técnicas e soluções de preservação”.
“É um activo imensurável a que queremos dar visibilidade”, referiu. Segundo o autarca de Viana do Castelo, as funções mais nobres do Convento de São Bento “estão preservadas”.
“A igreja e os claustros estão ocultos, mas queremos colocá-los acessíveis à visitação”, assinalou Luís Nobre, afirmando que esse trabalho terá de “envolver a paróquia e a Direcção-Geral do Património, até para retomar o processo de classificação do templo”.
A acompanhar a visita às escavações, o chefe de Unidade Orgânica de arqueologia da Câmara de Viana do Castelo, Miguel Costa, explicou que as estruturas encontradas não eram parte religiosa do convento de São Bento.
Segundo Miguel Costa, as escavações tornaram visíveis “várias fases de ocupação e de utilização do convento, sobretudo as áreas de dormitórios, enfermaria e funcionais”.
“Temos aqui cinco séculos de história, praticamente, preservados debaixo das terras. Suspeitávamos que existiam estes vestígios, ou alguns dos vestígios, mas não tínhamos a noção da dimensão do que estava preservado ainda. Portanto, foi com alguma surpresa e agrado que conseguimos fazer a preservação da memória e fazer o registo do existente” sustentou.
As escavações, que já atingiram cerca de mil metros, vão continuar numa área de 750 metros. “Foi deliberado pela CCDR [Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional] Norte que se fizesse a escavação em área, após as sondagens de diagnóstico que se fizeram inicialmente”, acrescentou.
Durante os trabalhos dos arqueólogos, “foram encontrados utensílios em cerâmica, desde pratos a panelas, entre outros”.
O responsável adiantou que o convento “começou a ser utilizado no final do século XVI, mas sofreu alterações constatadas pela qualidade das argamassas e tipologia dos muros”.
“O convento entra em ruína já no século XVIII, devido às cheias constantes do Lima, e é feita uma reedificação que é promovida pelo engenheiro Manuel Vilas-Lobos. Mais tarde, no final do século XIX, após a extinção das ordens, o abandono e a perda de utilização do convento pela morte da última freira, a câmara delibera fazer a demolição da estrutura não religiosa, para a edificação do mercado de que também encontrámos vestígios arqueológicos”, explicou.
Para Miguel Costa, “as cidades são organismos vivos que têm uma evolução natural”.
“Com a natural evolução política e social do espaço, com a extinção das ordens religiosas, já não havia função para o convento e a Câmara decidiu edificar o mercado das torres. Estamos aqui e agora a trabalhar para devolver o mercado ao mesmo espaço, o que é profundamente irónico, uma vez que este foi demolido já mais tardiamente para a construção do edifício Jardim [prédio Coutinho]”, contou.
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