A 20 de Março, o MV Hondius partiu da cidade do fim do mundo: Ushuaia, capital da província de Terra do Fogo, na Patagónia argentina.
A bordo seguiam cerca de 150 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação, de 23 nacionalidades, incluindo de nove países europeus: Bélgica, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Países Baixos, Polónia, Portugal e Espanha.
A viagem de 46 dias, a bordo de um navio quebra-gelo de 107 metros, foi vendida como uma expedição à Antárctida, com preços que variavam entre cerca de 15 mil e 25 mil euros.
O percurso dividiu-se em várias etapas. Primeiro, foram feitas várias excursões na península Antárctida. Depois, a 1 de Abril, o cruzeiro voltou a partir de Ushuaia, desta vez navegando para norte. Essa segunda parte da viagem terminaria a 24 de Abril, na ilha de Santa Helena.
No Atlântico Sul, os passageiros visitaram diversas ilhas para turismo de observação da vida selvagem. Passaram pelas Malvinas (ou Falkland), Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, até chegar às ilhas do arquipélago de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha.
A empresa que opera o navio, a Oceanwide Expeditions, com sede nos Países Baixos, dedica-se a organizar expedições polares: no Árctico entre Abril e Setembro e na Antárctida entre Outubro e Março. As suas rotas passam por algumas das áreas mais remotas do planeta, muitas sem infra-estrutura portuária. Aproximando-se do destino, os passageiros são levados até terra em pequenas lanchas, podendo depois fazer uma expedição guiada no local.
O primeiro alarme
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o início da doença ocorreu entre 6 e 28 de Abril e “caracterizou-se por febre, sintomas gastrointestinais, progressão rápida para pneumonia, síndrome de dificuldade respiratória aguda e choque”.
O primeiro óbito a bordo aconteceu a 11 de Abril, enquanto navegavam no Atlântico Sul: um cidadão neerlandês, de 70 anos, que viajava acompanhado pela mulher. À data, era difícil explicar a sua morte. Tinha começado a sentir-se mal a 6 de Abril. Teve febre, dores de cabeça, dor abdominal e diarreia. Foi piorando à medida que os dias passavam, relatando depois dificuldades respiratórias.
O seu corpo continuou no navio durante 13 dias, até 24 de Abril, data em que foi feita uma paragem em Santa Helena, a cerca de 1000 milhas náuticas de Angola.
A mulher, de 69 anos, aparentava estar bem de saúde e ainda acompanhou a retirada do corpo, mas rapidamente piorou. Sentiu-se mal durante um voo para a África do Sul, para onde transportava o corpo do marido. Acabou por desmaiar na chegada ao aeroporto em Joanesburgo, relatando também sintomas gastrointestinais. Foi transferida para um hospital de Joanesburgo, onde morreu a 27 de Abril. A 4 de Maio ficaria confirmada a infecção por hantavírus.
No mesmo dia, a Oceanwide Expeditions é notificada da morte desta cidadã neerlandesa e recebe a informação de que outro dos seus passageiros, um homem britânico de 69 anos, está gravemente doente, com febre, dificuldades respiratórias e sintomas de pneumonia. Nessa segunda-feira em que o navio fazia uma paragem na ilha de Ascensão, é chamada assistência médica urgente e o homem é transferido para Joanesburgo, onde permanece internado numa unidade de cuidados intensivos, confirmando-se a infecção pela estirpe dos Andes, a mais perigosa do hantavírus e a única transmissível entre pessoas.
A 2 de Maio, uma segunda pessoa morre a bordo do navio, que se aproximava de Cabo Verde. Desta vez, uma mulher de nacionalidade alemã, que tinha começado a sentir-se mal a 28 de Abril, com sintomas de pneumonia.
Um dia depois, dois membros da tripulação (um britânico, outro neerlandês) relatam sintomas respiratórios e é chamada ajuda médica com urgência. A existência de um surto de hantavírus torna-se evidente e, a 4 de Maio, é notícia em todo o mundo.
A OMS indica que a hipótese mais provável é que a infecção de hantavírus tenha ocorrido fora do cruzeiro, uma vez que o período de incubação do vírus é de uma a seis semanas. Admite também que possa ter ocorrido transmissão de pessoa para pessoa. No total, já foram identificados oito casos (três confirmados por laboratório e cinco suspeitos) de contágio por hantavírus.
O impasse em águas de Cabo Verde
O MV Hondius entrou em águas cabo-verdianas no domingo, 3 de Maio, mas, ao contrário do que estava planeado, não chegou a atracar no porto da Praia, na ilha de Santiago. Desde então, três passageiros (de nacionalidade neerlandesa, britânica e alemã) foram transportados para os Países Baixos, dois deles em estado grave.
Cabo Verde manteve uma “posição firme” de não permitir a atracagem do navio nos seus portos. “Não temos condições e não se pode pôr em risco, não só a população, mas também Cabo Verde como destino turístico”, argumentou o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.
Como alternativa, a OMS e a União Europeia contactaram o Governo espanhol para que recebesse o navio, “em conformidade com o direito internacional e os princípios humanitários”.
Após uma aparente falha de comunicação entre o executivo de Pedro Sánchez e o Governo Autónomo das Canárias, o arquipélago opôs-se à decisão de levar o navio a um dos seus portos, alegando que foi tomada sem obedecer “a qualquer critério técnico”. Também a presidente do Conselho da Ilha de Tenerife referiu a “rejeição total e absoluta” do plano.
No entanto, o MV Hondius voltou a navegar na tarde desta quarta-feira e deixou as imediações do porto da Praia pelas 16h10 (18h10 em Lisboa), prevendo-se que chegue a Tenerife no próximo sábado.
Os próximos passos
Chegados ao porto de Granadilla, na ilha de Tenerife, os 14 passageiros de nacionalidade espanhola serão transferidos para um hospital militar em Madrid, onde ficarão em isolamento “pelo tempo que for necessário”. Os restantes cidadãos serão repatriados para os países de origem.
As autoridades garantem que a população das Canárias não está em risco, uma vez que os passageiros serão transportados e repatriados evitando o “contacto com os cidadãos locais”.
O Ministério da Saúde da Argentina comunicou também que vai instalar armadilhas para roedores e fazer análises aos animais na zona de Ushuaia, de onde partiu o cruzeiro.
Em paralelo, a Suíça e o Reino Unido estão a acompanhar três passageiros do navio que regressaram aos seus territórios de forma independente, após a paragem em Santa Helena. As duas pessoas que viajaram para o Reino Unido não apresentam sintomas, mas foram aconselhadas a permanecer em isolamento.
Quanto ao passageiro que viajou para a Suíça, deslocou-se ao Hospital Universitário de Zurique, onde foi colocado em isolamento após relatar sintomas de doença. Os testes laboratoriais confirmaram entretanto a infecção por hantavírus.
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