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Em A Condição Humana, Hannah Arendt, ao pensar o mundo comum, recorre à imagem da mesa: aquilo que se apresenta entre as pessoas reunidas ao seu redor. A mesa aproxima e não anula a diferença. Talvez, por isso, eu proponha a comida neste texto. Porque, antes mesmo dos documentos, das necessidades jurídicas e administrativas, dos números da economia ou das tensões da política, há um gesto fundador de convivência: sentar-se à mesa.
Falar de comida também é falar de uma presença brasileira já profundamente material na vida portuguesa. Dados oficiais do governo de Portugal mostram que, entre 2021 e 2025, os cereais lideraram as importações agroalimentares portuguesas vindas do Brasil, com 139,5 milhões de euros, seguidos por frutas, com 58,1 milhões de euros, e por café, chá, mate e especiarias, com 29,8 milhões de euros. Neste último grupo, aliás, o crescimento foi especialmente expressivo: de 12,2 milhões de euros em 2021 para 50,6 milhões de euros em 2025.
Discutimos a imigração a partir do trabalho, da habitação, da saúde, da educação, das leis e dos sistemas de integração. Tudo isso é fundamental. Mas a vida comum também precisa ser vista. Quando um imigrante chega a Portugal, ele não chega apenas com a necessidade de um lugar ou com a urgência de reorganizar a própria vida. Ele chega também com o cheiro da sua cozinha, com a memória dos temperos, com o modo de cortar, cozinhar, servir e reunir. Chega com hábitos, texturas, horários e afetos. E talvez a comida seja uma das formas mais profundas de uma cultura se apresentar sem violência. Porque um prato compartilhado sorri.
É nesse ponto que a startup Comida Invisível se impõe como exemplo, porque ali a questão nunca foi apenas comida. Foi sempre cultura. Foi, e é, o esforço de mostrar que a escassez acontece na abundância e que o desperdício diz muito sobre a maneira como uma sociedade olha para o valor.
O projeto ganhou força no Brasil ao criar uma ponte entre quem pode doar e quem precisa receber e, recentemente, recebeu reconhecimento internacional no World Summit Awards 2025. O próprio WSA apresenta o Comida Invisível como uma plataforma brasileira de combate ao desperdício alimentar, com milhões de refeições redirecionadas.
Há algo de muito simbólico nisso. Uma fruta fora do padrão, uma casca desprezada, uma semente recusada, um alimento considerado impróprio apenas porque não atende a uma estética esperada. Tudo isso revela uma lógica que ultrapassa a cozinha. E é impossível não pensar também no imigrante, tantas vezes lido a partir do estranhamento, da inadequação ou do receio. O Comida Invisível, nesse sentido, não redistribui apenas alimentos. Reeduca o olhar e mostra que alimentar é incluir.
Num outro lugar, e como parte da mesma reflexão, está Pedro Lins, jovem português de 23 anos, nascido e criado em Lisboa. O que há de bonito em sua presença neste artigo não é apenas o talento para a cozinha, mas a delicadeza com que se aproxima de outras culturas por meio dela. Ao compreender não só a cozinha do seu país, mas também receitas asiáticas, brasileiras, francesas, italianas, entre outras, Pedro transforma curiosidade em gesto de acolhimento.
E isso me parece especialmente, forte porque não se trata de negócio, nem de restaurante, nem de marca. Trata-se de amor ao fazer, de respeito à técnica e de uma espécie de educação silenciosa. Ao propor esse encontro com sabores de outras origens para os jovens da sua geração, nas plataformas digitais, mas também para os imigrantes que frequentam a sua casa, ele desmonta, sem militância, a ideia empobrecida de que o imigrante é sempre um problema. Pedro mostra que o outro não ameaça a mesa. O outro amplia a mesa.
E há ainda Juliana Penteado, cuja trajetória em Portugal talvez seja uma das mais visíveis nesse campo. Juliana mostra como uma imigrante pode chegar a um país, respeitar a cultura que a acolhe e, ainda assim, marcar esse mesmo espaço com o seu sotaque, elegância, técnica e a singularidade daquilo que traz.
Sua presença pública ajuda a desmontar um dos estigmas mais pobres do debate sobre imigração: o de que quem chega vem sempre para retirar algo de quem já estava. Muitas vezes, o que o imigrante traz é soma. Traz trabalho, repertório, invenção, circulação, investimento, linguagem, novas referências de afeto, de consumo e outras formas de convívio.
Nova história
E é justamente isso que talvez ainda precise ser mais compreendido. Todo imigrante traz um aporte. Desde aquele que chega para exercer funções invisibilizadas, até aquele que empreende, investe e reorganiza setores inteiros da vida econômica e social. Em todos os casos, há contribuição.
É evidente que quem chega precisa conhecer, respeitar e aprender a cultura legal e social do país que o acolhe. E também é evidente que o país que acolhe precisa ser capaz de reconhecer o valor do que está recebendo e não tratar o imigrante como um jogo de cartas marcadas. Porque ninguém atravessa uma fronteira apenas para ocupar espaço. Atravessa-se uma fronteira para se desenvolver, criar laços, reconstruir a vida e tornar possível uma nova história.
É por isso que a comida diz tanto. Porque ela atravessa a vida diária sem pedir licença. Ela entra na casa, no mercado, no cheiro que sai da panela, no ingrediente que passa a circular, no hábito que se altera sem que ninguém perceba imediatamente que está diante de uma transformação cultural. A imigração também acontece assim. Não apenas nas leis e nas manchetes, mas no cotidiano. Naquilo que uma sociedade passa a provar, aceitar, desejar e compartilhar.
Se Hannah Arendt nos oferece a mesa como imagem do mundo comum, então talvez a imigração possa ser pensada também assim: não como uma ameaça à ordem da casa, mas como uma possibilidade de extensão da mesa. O problema não está no que chega de fora. O problema está na incapacidade de reconhecer que, muitas vezes, o que chega de fora não vem para romper. Vem para temperar. Acho até que vem para colocar fermento em algo que estava estagnado e precisando crescer.
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