Os solos constituem um universo biológico em grande parte invisível, mas essencial para quase tudo o que acontece à superfície: da produção de alimentos à regulação do clima na Terra, passando pela reciclagem de nutrientes e pela infiltração da água. Um novo estudo científico oferece agora uma “fotografia” do risco de extinção de seres vivos que dependem do solo, revelando um retrato preocupante: um em cada cinco desses organismos está ameaçado.
“Falamos muitas vezes do solo e não pensamos muito na agricultura, mas claro que o solo saudável é a fundação para os sistemas agrícolas. É uma questão de segurança alimentar, ou seja, de conseguirmos produzir a comida de que precisamos para as pessoas que temos. E o nosso solo continua a estar esgotado: é a biodiversidade que mantém a capacidade do solo de produzir alimentos”, afirma ao Azul o investigador Sérgio Henriques, co-autor do estudo publicado este mês na revista científica Oryx.
O investigador português frisa que o que distingue uma pedra moída do solo são as diferentes formas de vida que ali existem, incluindo os fungos e os invertebrados. “Sem esse ciclo, a comida não se produz no solo, ou nunca será tão produtiva e nutritiva quando nós queremos e precisamos”, diz Sérgio Henriques, que lidera o grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).
Das 8653 espécies identificadas como dependentes do solo na Lista Vermelha da IUCN, 1758 (20,3%) estão globalmente ameaçadas, ou seja, ostentam as classificações “vulnerável”, “em perigo” ou “criticamente em perigo”. Daquele total, 1722 são classificadas como espécies com “dados insuficientes”, uma vez que não há informação suficiente para determinar o risco de extinção.
“Longe da vista e do coração”
O trabalho publicado na Oryx parte de uma constatação que, para muitos investigadores do solo, é quase um paradoxo: há cada vez mais alertas sobre o declínio da biodiversidade dos solos do planeta, mas faltam dados básicos sobre a maioria dos organismos que nele vivem pelo menos numa parte significativa do ciclo de vida.
“Quanto mais olhamos, mais nos apercebemos de quão pouco sabemos”, afirma ao Azul Cátia Canteiro, co-autora do estudo, numa videochamada com Sérgio Henriques. A lacuna é particularmente evidente nos fungos e nos invertebrados, dois grupos determinantes para o funcionamento dos ecossistemas e, ainda assim, pouco valorizados nas políticas de conservação.
“Os fungos estão muito esquecidos; a gente não os vê, e o que está fora da vista está fora do coração”, refere Cátia Canteiro, consultora independente da Sociedade para a Protecção das Redes Subterrâneas (SPUN, na sigla em inglês) e da Kew Reach, uma iniciativa dedicada a soluções baseadas na natureza.
O estudo recorre à Lista Vermelha da IUCN, o principal sistema global de avaliação do risco de extinção por espécie, para estimar quantas espécies dependentes do solo já estavam avaliadas e qual o seu estado de conservação. A equipa não se limitou a compilar dados, tendo avaliado também 503 espécies adicionais de invertebrados e fungos.
Os autores consideraram ainda as limitações actuais nesta área e os caminhos possíveis para acelerar avaliações futuras. O resultado final é uma amostra ainda muito pequena perante a vastidão do que existe no solo, mas suficientemente grande para indicar os padrões actuais das ameaças.
A agricultura surge como a ameaça mais frequente, afectando 1046 espécies. Seguem-se o desenvolvimento residencial e comercial (578), a exploração madeireira (530), os impactos de espécies invasoras (523), as alterações climáticas e fenómenos meteorológicos severos (409), e, por fim, os incêndios (311). Os autores sublinham ainda que várias destas pressões actuam em simultâneo sobre a mesma espécie.
Sérgio Henriques/DR
Problema metodológico
Para chegar às 8653 espécies identificadas, os autores tiveram primeiro de resolver um problema metodológico: não existia uma definição operacional padronizada do que significa, para efeitos de conservação, ser “dependente do solo”. Por isso, começaram por criar uma definição para a Lista Vermelha, desenvolvida pela equipa de avaliação de biodiversidade da IUCN em articulação com especialistas e grupos da Comissão de Sobrevivência de Espécies da mesma entidade.
A definição encontrada delimita como “dependente do solo” os organismos que passam uma parte significativa do ciclo de vida no solo, ou que habitam predominantemente a interface entre o solo e a manta morta (a camada superficial do solo formada por restos orgânicos em decomposição). Estão incluídos invertebrados, fungos e outros organismos, mas não as plantas, apesar do papel que desempenham na fertilidade e estrutura do solo.
“As plantas são importantes para a manutenção do solo, mas acabámos por as excluir. Isto porque, na prática, quase todas as plantas seriam incluídas”, diz Cátia Canteiro, acrescentando que, ao contrário de muitos dos organismos considerados, a planta não vive integralmente no solo.
Quem são os parentes pobres?
Com uma definição sobre a mesa, os investigadores enfrentam outro desafio. Entre as espécies dependentes do solo identificadas, a maioria são vertebrados terrestres (5010), seguidos de invertebrados (3133) e fungos (510). Esta distribuição não reflecte o que existe no solo, mas sim o que foi avaliado.
É neste ponto que emerge uma das principais conclusões do estudo: a conservação global mede melhor aquilo que conhece bem, ou seja, os grupos que, historicamente, mais atenção científica e financiamento receberam. O reino dos fungos tem sido, até agora, o “parente pobre” da conservação, como trabalhos anteriores sugerem.
“Os números são bastante assustadores”, reconhece Cátia Canteiro ao comentar o número muito reduzido de fungos avaliados. E daí a utilidade da categoria “dados insuficientes” na classificação da IUCN — a ausência de informação pode (ou deveria) ser interpretada como um sinal político e científico de prioridade de investigação, sugere a investigadora.
Sérgio Henriques/DR
O estudo nota ainda que, mesmo quando faltam dados detalhados de abundância e tendência populacional — algo comum no grupo dos invertebrados e no reino dos fungos —, é possível usar informação que sirva como um outro indicador. Por exemplo, se uma espécie depende de um habitat especializado, a perda desse habitat pode ser relevante para inferir declínios populacionais e avaliar risco com base nos critérios da Lista Vermelha.
O artigo propõe ainda três recomendações: expandir avaliações de invertebrados e fungos e criar uma estrutura de coordenação na IUCN dedicada ao solo, reforçar ligações com organizações que já monitorizam biodiversidade do solo e, por fim, aumentar a transferência de conhecimento para governos, proprietários e público, usando a Lista Vermelha como referência.
Vem aí a Directiva do Solo
Sérgio Henriques recorda que vem aí um novo quadro europeu para a monitorização dos solos — a Directiva de Monitorização do Solo, em vigor desde Dezembro de 2025, mas ainda carecendo de transposição nacional. Esta directiva prevê a criação de sistemas nacionais de avaliação do estado físico, químico e biológico dos solos, com metodologia comum e reporte regular a instituições europeias, com o objectivo de tornar os solos europeus saudáveis até 2050.
O investigador português observa que o novo estudo, ao definir “espécies dependentes do solo”, pode ter uma utilidade prática na promoção da saúde dos solos. Isto porque a definição ajuda a “identificar organismos que podem funcionar como indicadores biológicos em programas de monitorização” e, ao mesmo tempo, clarifica prioridades de conservação.
Em Portugal, Sérgio Henriques aponta para o caso de aranhas buraqueiras, que vivem “100% da sua vida no solo” e que, em alguns casos, são únicas de regiões muito específicas, como o Algarve. “Se a espécie existe apenas no Algarve é da total responsabilidade daquela região garantir que toda aquela espécie única não se perca porque, ao perder-se naquela região, perde-se de todo o lado”, afirma.
Para os dois investigadores, a directiva europeia é uma oportunidade para transformar um domínio historicamente invisível em algo mais presente e mensurável — e que, por pressão de Bruxelas, terá de entrar na agenda política.
“Deixar o solo morrer é deixarmo-nos a nós próprios morrer”, diz Sérgio Henriques. O investigador recorda, contudo, que as ameaças actuais não nos devem paralisar. “Todos podemos agir num pedaço de terra, no nosso jardim, nem que seja num só vaso, esta é a oportunidade de as pessoas fazerem algo literalmente com o que têm debaixo dos pés.”
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