“O hantavírus não é um vírus comum num cruzeiro.” Quem o afirma é Andreia Castro, médica especialista em Medicina do Viajante. Ideia partilhada pela Costa Cruzeiros, que contactada pelo PÚBLICO, refere que, até à data, “não foram registados quaisquer casos ou relatos de hantavírus em nenhum” dos seus navios, “nem em navios operados por companhias de cruzeiros membros da CLIA (Cruise Lines International Association, a associação internacional) — que representam mais de 95% da capacidade global e da qual a Costa Cruzeiros é membro”.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o paciente zero do foco de hantavírus a bordo do MV Hondius, navio de expedição da companhia Oceanwide Expeditions, que não tem relação com a Costa Cruzeiros, terá sido um homem neerlandês que viajou durante várias semanas pela Argentina, Chile e Uruguai numa viagem de observação de pássaros, com a sua mulher, antes de iniciarem a viagem de cruzeiro em Ushuaia. Para a OMS, terá sido nesse período que ficou infectado.
Os primeiros sintomas surgiram no dia 6 de Abril e foram os comuns para este vírus — febre, dor de cabeça e diarreia — que se podem confundir com outras doenças, como alerta ao PÚBLICO Andreia Castro. Cinco dias depois, o doente morre e só a 24 de Abril a sua mulher começa a ter os primeiros sintomas, tendo vindo a morrer três dias depois. A OMS contempla duas hipóteses no caso da segunda vítima: pode ter-se infectado também fora do navio ou dentro deste através do contacto com o marido. “Os hantavírus não se propagam como a covid ou uma gripe. Tem de haver um contacto muito próximo e prolongado para se propagar entre humanos, portanto o contágio é mais comum no mesmo agregado familiar ou parceiros íntimos e, no caso, do casal neerlandês partilhavam a mesma cabine”, explica a médica.
“É importante contextualizar que o hantavírus representa uma família de vírus e tem várias variantes e só algumas delas é que provocam doença nos humanos. Nesse grupo, entram a variante da América do Sul, a andina [ou Andes], que é a que está a causar o surto actual; e a variante da Ásia, conhecida como Seul”, esclarece a especialista. Em ambas, a transmissão de hantavírus aos humanos ocorre através do contacto com urina, fezes ou saliva contaminadas de roedores infectados. “O contágio dá-se sobretudo de inalação de aerossóis que estão contaminados quando se limpam áreas que estejam infectadas com os dejectos dos animais”, refere Andreia Castro. A infecção também pode ocorrer, embora menos frequentemente, através de mordeduras de roedores.
REUTERS/Dado Ruvic
De acordo com a OMS, “a transmissão de pessoa para pessoa foi documentada apenas para o vírus Andes nas Américas e continua a ser incomum”. Contudo, “a partir do momento que há uma pequena transmissão pessoa a pessoa, há sempre o risco de outras pessoas serem infectadas”, diz a médica. No entanto, volta a frisar, “é pouco provável que haja uma disseminação pela população geral como assistimos na altura do covid”. Até esta quinta-feira, a OMS confirmou cinco casos de hantavírus (destes três morreram) e três casos suspeitos.
Para a OMS, o contágio entre humanos é mais provável durante a fase inicial da doença. “Não se sabe bem como é que o vírus é transmitido de pessoa para pessoa, mas presume-se que seja através da respiração”, continua Andreia Castro. Caso não estivesse a haver transmissão entre humanos, prossegue a médica, o problema solucionava-se com a desinfecção do local em causa.
Tal como a OMS, a médica especialista em Medicina do Viajante, realça que é pouco provável que o surto actual tenha começado dentro do navio. “Se isso tivesse acontecido, o mais provável é que tivesse entrado através de mercadorias infectadas, ou seja, caixotes cuja superfície tinham tido contacto com os excrementos de ratos e as pessoas os tivessem inalado. Nesse caso, os primeiros infectados seriam os tripulantes que é quem mexe na mercadoria e não os passageiros”, defende Andreia Castro que já foi médica num cruzeiro nas Caraíbas. “O contágio teria sido feito no exterior numa inalação ocasional”, sublinha.
Problemas a bordo? Gastroenterites
Conhecendo o mundo dos cruzeiros, Andreia Castro afirma que o protocolo de emergência terá sido logo accionado. “Num caso destes, o normal é que os passageiros fiquem nas cabines, mas, ao mesmo tempo, o serviço do navio tem de ser assegurado pelos tripulantes”, esclarece. “O importante é que a companhia esteja a dar informações exactas sobre a doença e os sintomas através dos sistemas de comunicação internos do navio”, continua, acrescentando que os protocolos de higiene e saneamento são rigorosos.
Em qualquer situação de emergência médica num navio é importante que os passageiros estejam cientes dos sintomas para reportá-los de imediato de maneira a receberem tratamento atempado, diz. Os primeiros sintomas, afirma a médica especialista em Medicina do Viajante, são semelhantes aos de uma gripe, ou seja, febre, dores musculares, dores de cabeça, mal-estar, cansaço, dor abdominal, náuseas ou vómitos, mas, na estirpe andina podem prosseguir rapidamente para tosse persistente, pneumonia, insuficiência respiratória, acumulação de líquido nos pulmões. “No hantavírus Seul, os estádios mais avançados podem incluir hipotensão, distúrbios hemorrágicos e insuficiência renal.”
Andreia Castro defende também a importância do apoio psicológico aos passageiros e tripulantes para gerir a ansiedade, o pânico e a incerteza da situação. Na declaração escrita prestada ao PÚBLICO, depois de questionada sobre o tema, a Costa Cruzeiros realça que a saúde e o bem-estar dos passageiros e tripulação “são uma prioridade absoluta”. Para tal, implementa em toda a frota “protocolos de higiene e saneamento extremamente rigorosos, desenvolvidos e continuamente actualizados em colaboração com as principais autoridades sanitárias internacionais”. Medidas essas “concebidas para garantir os mais elevados padrões de saúde e segurança em todas as fases da experiência de cruzeiro, desde o embarque até ao final das férias”. “O nosso objectivo é proporcionar um ambiente controlado, fiável e tranquilizador, no qual cada passageiro possa desfrutar das suas férias com total serenidade”, refere.
Para Andreia Castro, é seguro viajar de cruzeiro. “Desde que se fala neste caso, vários pacientes meus perguntam-me se devem ir viajar de cruzeiro e eu digo que sim. Os maiores problemas que tipicamente há a bordo são, a nível alimentar, as gastroenterites provocadas por norovírus, vírus que é muito contagioso e normalmente está associado ao consumo de alimentos mal higienizados, saladas, molhos, comida crua ou mal cozinhada e mariscos, e tem como sintomas diarreias, dores abdominais e vómitos”, enumera. No entanto, diz que “apesar de ser muito contagioso, é um vírus facilmente controlável se as pessoas lavarem as mãos muitas vezes com água e sabão. O álcool não mata o norovírus”. E salienta: “A segurança alimentar nos cruzeiros é muito elevada, têm protocolos rigorosos na preparação e armazenamento dos alimentos e da água.”
Outros problemas comuns, continua a médica, são as doenças respiratórios como as gripes, mas mais nas viagens de Inverno; os enjoos, bebedeira e os acidentes, como quedas. Andreia Costa salienta que, hoje em dia, todos os navios têm clínicas bem apetrechadas com médicos em permanência. “É possível fazer análises, raios X e, proximamente, terão também máquinas de TAC. Quando não se consegue gerir o problema a bordo, normalmente as pessoas são evacuadas de helicóptero”, explica.
À procura dos contactos
Na África do Sul e na Europa, as autoridades de saúde estão a tentar localizar os contactos de quaisquer passageiros que tenham abandonado o cruzeiro. Foi divulgado que um homem que tinha desembarcado do MV Hondius em Santa Helena e estava internado com hantavírus na Suíça e a emissora neerlandesa RTL divulgou que a comissária de bordo da KLM que teve contacto com a mulher infectada foi internada num hospital de Amesterdão após apresentar sintomas. Outros tripulantes e passageiros que prestaram auxílio à holandesa estão a ser testados também.
Em relação a possíveis infecções em aviões, Andreia Costa diz que “os aparelhos modernos estão equipados com filtros HEPA [High-Efficiency Particulate Air] que filtram 99,7% das partículas, tornando o ambiente mais seguro do que se pensa. Dada ainda a dificuldade de transmissão de pessoa a pessoa do hantavírus, o risco de contágio em aviões é muito baixo, exigindo um contacto muito directo e prolongado”.
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