Se até um relógio parado está certo duas vezes por dia, Donald Trump também tem momentos de franqueza. “Não penso na situação financeira dos americanos”, disse na terça-feira, antes de embarcar para a China, ao ser questionado pelos jornalistas nos relvados da Casa Branca se o impacto económico da guerra do Irão não o motivava a procurar a paz com Teerão.
“A única coisa que interessa quando falo com o Irão é que eles não podem ter a bomba nuclear”, afirmou.
A retórica do Presidente norte-americano é falaciosa. Os serviços de inteligência dos Estados Unidos diziam recentemente que o Irão estava ainda a anos de poder produzir uma arma nuclear. E a guerra não é a única ferramenta disponível para travar a hipotética ameaça, nem parece ser especialmente eficaz: Teerão mantém em sua posse 400 quilos de urânio altamente enriquecido, mesmo após os bombardeamentos de 2025 e a ofensiva de 2026.
Trump, obcecado pela ideia de um legado histórico, está contudo disposto a sacrificar a saúde financeira das famílias norte-americanas, qual faraó que leva criados e animais consigo para o túmulo, para tentar resolver o que diz ser um problema de 47 anos no Médio Oriente.
Por agora, é uma aposta perdida. A hipotética ameaça nuclear persiste, o regime iraniano sobreviveu à decapitação da liderança e radicalizou-se, há dúvidas sobre a dimensão dos danos infligidos na capacidade ofensiva de Teerão, aprofundou-se o afastamento entre Washington e os aliados europeus e o mundo entrou numa nova crise com o encerramento do estreito de Ormuz. Tudo ficou pior.
No plano interno, também. A inflação nos EUA disparou para máximos de três anos (3,8% em Abril), a taxa de aprovação do Presidente republicano caiu para os 38% (média de sondagens contabilizada esta quarta-feira pelo New York Times) e o seu partido caminha para a perda da Câmara de Representantes nas intercalares de Novembro, mesmo com as recentes alterações dos mapas eleitorais.
Apesar deste cenário e do alarme dos estrategas republicanos, Trump não corrige o rumo. Na véspera da sua desastrosa declaração aos jornalistas na partida para China, passou a noite na rede social Truth Social a apelar à prisão de Barack Obama, a insultar jornalistas e a partilhar imagens geradas por inteligência artificial em que as forças americanas vencem batalhas fictícias contra os iranianos com armas laser. Na noite anterior, tinha sido a vez de uma torrente de auto-elogio naquela sua rede social, partilhando publicações que o descreviam como o “melhor Presidente de sempre”.
Mas haverá pecados mais aviltantes para os americanos em cuja situação financeira Trump não pensa. O Senado tem em mãos um pedido de mil milhões de dólares da Casa Branca para, entre outros fins, avançar com o polémico salão de baile do Presidente em Washington. A verba é justificada pela Administração republicana com as medidas de segurança necessárias após uma terceira tentativa de assassinato de Trump, a 25 de Abril, no jantar dos correspondentes da Casa Branca. Os mil milhões vão para os Serviços Secretos (que, apesar do nome sugestivo, são meramente a agência responsável pela protecção do Presidente e outras figuras de Estado), que por sua vez deverão reforçar a segurança da sede da presidência, salão de baile incluído. Escasseiam detalhes sobre os gastos concretos.
“Custa dinheiro manter o líder do mundo livre seguro”, justifica o líder da maioria republicana no Senado, John Thune. Mas não é claro que o pedido tenha luz verde da própria bancada em números suficientes, nem depois na Câmara dos Representantes.
O desconforto republicano dispensa explicação: destinar mil milhões de dólares para um salão de baile que Trump tinha garantido que seria totalmente pago com donativos de empresários “patriotas” é mau marketing num momento em que pouco mais de 20% do eleitorado aprova a estratégia do Presidente contra o aumento do custo de vida.
“Um aluno do primeiro ano de Ciência Política nunca pediria aos congressistas para votar isto”, dizia na sexta-feira um membro republicano do Congresso ao site e newsletter de informação política Punchbowl News. “Não há uma boa forma de vender isto”, disse ao site The Hill o estratega republicano Brian Darling.
Como tenta Trump explicar os custos crescentes do seu projecto, que dos 200 milhões de dólares anunciados no ano passado tinham subido para o dobro mesmo antes do pedido multimilionário ao Senado? “Eu dupliquei o tamanho [do salão de baile], sua pessoa burra”, respondeu a uma jornalista antes de partir para a China.
Fragilizado, zangado e mal dormido, é este o Presidente norte-americano que o sorriso esfíngico de Xi Jinping e a sua China cada vez mais poderosa e assertiva recebem por estes dias.
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