Capas de jornais foram manipuladas para veicular narrativa antiga sobre Zelensky e drogas

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A narrativa

A 11 de Maio, a ex-porta-voz de Volodymyr Zelensky, Iuliia Mendel, foi entrevistada pelo antigo apresentador da Fox News Tucker Carlson. Durante a conversa, o entrevistador questionou Mendel sobre se o Presidente ucraniano é “consumidor de drogas”.

“Eu nunca o vi consumir drogas”, começa por explicar a ex-porta-voz. “Mas ao escrever o meu livro, encontrei-me com muitas pessoas que confirmaram que o tinham visto consumir drogas em diferentes discotecas.” Isto serviu de gancho para que começassem a surgir pelas redes sociais várias capas de jornais manipuladas nas quais foram colocadas imagens de Zelensky ou da entrevista, acompanhadas de parangonas sobre este momento.

Uma capa com estilo gráfico do PÚBLICO foi publicada numa página ​russa chamada “Sbovodanews” — um nome muito semelhante ao de um jornal ucraniano chamado Sbovoda — com uma parte ocupada por uma imagem do Presidente ucraniano e a palavra “cheirador” na parte superior. Tratava-se de uma versão manipulada de uma capa real do jornal publicada a 12 de Março. No lugar de Zelensky, a versão verdadeira tinha Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido.

“Não é segredo nenhum que ele é viciado em drogas”, diz uma outra capa, com o design do jornal britânico Liverpool Echo. Na primeira página atribuída ao alemão Bild, lê-se: “Nós demos dinheiro a um viciado em drogas.” O PÚBLICO identificou ainda mais duas capas de jornais internacionais editadas para dar destaque à entrevista: do francês Ouest France e do The Jerusalem Post, israelita.

Capa do Bild: editada (esq.) e original (dir.)
DR

Estão presentes neste caso duas estratégias de desinformação comuns. Em primeiro lugar, a utilização de uma falsa identidade, ou, mais propriamente, de várias — as dos diferentes jornais. A utilização da identidade visual de jornais reais torna a mensagem veiculada mais credível para o receptor. Neste caso, ao se usarem jornais de vários países diferentes também se potencia a difusão destes conteúdos por um território mais alargado.

Em segundo lugar, as acusações feitas a Zelensky em cada uma das capas editadas configuram um caso clássico de ataque ad hominem. Ou seja, a mensagem transmitida visa fazer um ataque directo contra um indivíduo — Volodymy Zelensky — e prejudicar a opinião pública sobre si.

Como e onde surgiu

A publicação com capas de jornal falsas mais antiga que o PÚBLICO identificou surgiu no X a 12 de Maio, no dia seguinte à entrevista de Tucker Carlson. Continha as supostas capas do Liverpool Echo e do Bild, mas nas caixas de comentários encontravam-se ainda as do Ouest France e do Jerusalem Post.

Importa referir, porém, que a narrativa que alega que Volodymyr Zelensky é consumidor de cocaína não é recente. A página EU vs Disinfo, do Serviço Europeu para a Acção Externa, identificou-a em Fevereiro de 2025 como “uma narrativa de desinformação pró-Kremlin recorrente com o objectivo de difamar o Presidente ucraniano, Zelensky”.

Já nos anos anteriores foram surgindo frequentemente alegações acerca do uso de drogas por parte do Presidente. Em 2022, a Reuters analisou um vídeo no qual, supostamente, Zelensky confessava ser consumidor destas substâncias. Mas tratava-se de conteúdo editado para veicular uma informação falsa.

No ano seguinte, começou a circular nas redes um vídeo que mostrava, segundo diziam utilizadores das redes, que havia cocaína numa secretária do Presidente ucraniano. Também estas imagens foram manipuladas, confirmou a AFP.

Recuando a 2019, como noticiou a emissora France 24, já no período pré-eleições presidenciais da Ucrânia, que acabaria por vencer, Zelensky foi acusado de problemas relacionados com o consumo de substâncias. Neste caso, alegou-se nas redes sociais que teria cometido irregularidades em análises para detecção de álcool e drogas, antes do debate presidencial com Petro Poroshenko. A ideia difundiu-se devido ao facto de o seu oponente, o ex-Presidente, ter feito as análises num laboratório público, enquanto Zelensky terá escolhido fazê-las numa clínica privada.

A desconstrução

As cinco capas falsas de jornais identificadas pelo PÚBLICO incluem a data publicação de 12 de Maio de 2026. O que se observou foi que as edições deste dia — o imediatamente a seguir à emissão da entrevista — foram utilizadas como base para as manipulações.

No caso do PÚBLICO, como é possível consultar no site oficial do jornal, a versão original da capa mostrava sobre o mesmo fundo vermelho uma imagem de Keir Starmer com as palavras “Derrota do Labour — Starmer não se demite e vai enfrentar ‘qualquer disputa pela liderança’”.

Através da plataforma Press Reader, também é possível verificar de que formas foram manipuladas as capas dos jornais internacionais. Na versão editada do Liverpool Echo, uma notícia sobre um pai que salvou um bebé num incêndio foi substituída pela referência à entrevista sobre Zelensky. Já no Bild, as alegações sobre o Presidente ucraniano tomaram o lugar de uma notícia sobre “novos dados do Ministério das Finanças” alemão.

No Ouest France, foi uma notícia sobre o hantavírus a ser substituída. Por fim, no caso do Jerusalem Post, as alegações sobre Zelensky ocuparam o espaço que, na versão original do jornal, continha referências a um “novo relatório” sobre crimes sexuais que terão sido levados a cabo pelo Hamas.

Como noticiou o PÚBLICO em 2023, a táctica de utilizar a identidade visual de jornais verdadeiros para transmitir certas narrativas foi utilizada pela Rússia após a invasão da Ucrânia. A organização EU DisinfoLab identificou a utilização desta estratégia, na operação a que chamou Doppelgänger.

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