“Pornografia de pobreza”: o dilema moral por trás do império milionário de MrBeast

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Jimmy Donaldson, mais conhecido como MrBeast, gere o canal de YouTube com mais subscritores do mundo (com 484 milhões de subscritores) e tem um património líquido estimado em 2,6 mil milhões de dólares.

É também um filantropo de destaque. Para além do seu envolvimento em iniciativas de angariação de fundos como #TeamTrees, que diz ter plantado mais de 24 milhões de árvores em todo o mundo, Donaldson gere um canal de YouTube chamado Beast Philanthropy.

Afirma que 100% dos lucros provenientes da receita publicitária do canal, das vendas de merchandising e dos patrocínios revertem para ajudar outras pessoas. Isto incluiu pagar mil cirurgias às cataratas, construir uma clínica médica para crianças resgatadas da escravatura e construir cem poços para fornecer água potável em África.

Estas impressionantes iniciativas filantrópicas melhoraram drasticamente a vida dos seus beneficiários. Como poderia algo assim ser controverso?

A ética obscura da “filantropia-espectáculo”

Muitos dos vídeos de Donaldson envolvem sujeitar pessoas a situações que podem ser vistas como degradantes ou exploratórias, em troca de dinheiro.

No vídeo de Donaldson “Ages 1 – 100 Decide Who Wins $250,000”, os concorrentes (incluindo crianças pequenas) são colocados numa estrutura competitiva intensa e forçados a eliminar-se mutuamente. Vemos um homem adulto ajudar intencionalmente a eliminar uma rapariga de 11 anos, o que a leva a chorar em frente às câmaras.

Noutro vídeo, ele diz a um grupo aleatório de clientes de uma loja que irão ganhar 250 mil dólares se forem os últimos a sair da loja. Sob pressão para permanecerem, são afastados das suas famílias e forçados a suportar más condições, com alguns a sofrerem colapsos emocionais.

Estes vídeos foram classificados por vários críticos como “pornografia de pobreza”, uma vez que podem ser vistos como exploradores do desespero de pessoas vulneráveis para gerar cliques e receitas publicitárias.

O reality show Beast Games, transmitido no Prime Video, também é construído em torno de desafios concebidos para levar os concorrentes a apunhalarem-se pelas costas, sofrerem angústia emocional e revelarem histórias deprimentes sobre o quanto precisam do dinheiro.

As alegações contra Donaldson estendem-se também aos bastidores, particularmente no que diz respeito à cultura de trabalho nas suas empresas.

Em 2024, vários concorrentes que participaram em Beast Games apresentaram um processo judicial contra a empresa MrB2024, de Donaldson, e outras empresas envolvidas na produção. Alegam ter sido sujeitos a “maus tratos crónicos”, incluindo sofrimento emocional, alimentação e pausas para descanso inadequadas, atrasos na recepção de medicação, exposição a condições perigosas e falhas na prevenção de assédio sexual.

Mais recentemente, uma antiga funcionária da Beast Industries processou duas empresas de produção de Donaldson após alegadamente sofrer assédio sexual e discriminação de género no local de trabalho.

Não se pode compensar moralmente a exploração de pessoas

Quando se trata de avaliar a ética do trabalho de Donaldson, uma opção é adoptar uma perspectiva “consequencialista” simples. O consequencialismo dos actos defende que a acção correcta é aquela que conduz à maior quantidade de consequências positivas possível.

Se algumas pessoas sofrem condições exploratórias para que muitas mais possam beneficiar de cirurgias que salvam vidas, então o cálculo moral provavelmente favorecerá esta situação. Claro que existem preocupações filosóficas antigas relativamente a esta perspectiva.

O filósofo do século XVIII Immanuel Kant argumentava que é errado usar os outros como ferramentas para alcançar os nossos próprios fins, mesmo que esses fins sejam moralmente admiráveis. Tratar algumas pessoas apenas como meios para atingir objectivos não pode ser moralmente justificado pela promessa de ajudar outras pessoas mais tarde.

Segundo Kant, os motivos de alguém para ajudar os outros também são importantes, e o valor moral de uma acção é determinado por esses motivos. Assim, ajudar os outros por sentido de dever tem um valor moral que não existe quando se faz o mesmo acto por interesse próprio.

A filantropia de Donaldson é motivada por dever e cuidado pelos outros, ou por cliques, prestígio e receitas publicitárias? Ou talvez por ambos?

Não temos como saber a resposta. Embora o próprio Kant acreditasse que provavelmente todos os seres humanos são moralmente corruptos na própria raiz do seu carácter.

Consentimento e poder

Independentemente dos motivos de Donaldson, permanece um ponto mais amplo: os seus vídeos filantrópicos são uma parte integrante da sua marca global. A filantropia ajuda a tornar os outros vídeos, mais exploratórios (e as receitas significativas que geram), mais “moralmente aceitáveis”.

Afinal, Donaldson poderia simplesmente doar o seu dinheiro. Não precisa de fazer as pessoas competirem, manipularem-se e sofrerem.

Alguém poderá argumentar que os participantes consentiram em participar. Mas, quando se oferece a pessoas em situações economicamente vulneráveis quantias de dinheiro potencialmente transformadoras para suportarem condições degradantes, o “voluntarismo” torna-se discutível.

Isto não é aquilo que os especialistas em ética consideram “consentimento informado”. A oferta pode ser tão grande que tolhe o julgamento. E, para pessoas sem alternativas reais, dizer “não” pode não ser uma opção realista.

O facto de Donaldson se sujeitar por vezes a tratamentos semelhantes, como quando se enterrou vivo durante sete dias, aprofunda em vez de diminuir a preocupação, dada a assimetria de poder em jogo. Ele é dono da produtora, controla as condições e lucra com o conteúdo de formas que os outros participantes não conseguem.

As preocupações estruturais subjacentes

Quando problemas políticos, como a pobreza ou a falta de acesso a cuidados de saúde ou água potável, são reduzidos a entretenimento, sofrem uma forma daquilo que os académicos chamam “despolitização”. Falhas políticas que exigem acção colectiva, reformas institucionais e deliberação democrática tornam-se, em vez disso, matéria-prima para entretenimento.

Se acreditarmos que podemos ajudar a resolver estes problemas apenas vendo vídeos virais, evitamos enfrentar as questões estruturais que estão na sua origem.


Exclusivo P3/The Conversation
Paul Formosa é professor e director do Departamento de Filosofia e co-director do Centro de Investigação em Ética e Agência da Macquarie University

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