Em Cannes, Jordana Brewster anuncia projeto autoral de cinema que dialoga com o Brasil

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“Percebi, depois de escrever em inglês, que tinha de ser em português.” A frase foi dita por Jordana Brewster na última sexta (15), ao final de uma conversa de cerca de uma hora, como parte da iniciativa Women in Motion, promovida pela Kering em parceria com a Variety na qual o PÚBLICO Brasil esteve a convite da organização do Festival de Cannes. Ela deu o seu primeiro retrato detalhado do filme em que vem trabalhando desde os quarenta anos.

A revelação acontece em um momento em que o cinema brasileiro vive a sua maior fase internacional em décadas. Aos 46 anos e com extensa experiência em Hollywood — destaque para a personagem Mia Toretto em sete dos onze filmes da saga Velozes e Furiosos (Velocidade Furiosa, em Portugal) —, a atriz escreveu seu primeiro roteiro de longa-metragem.

E não se trata de uma adaptação e, tampouco, um memorialístico de bolso. Ambientado no Brasil, onde nasceu a sua mãe, é um filme “quase autobiográfico”, segundo a própria atriz. E que, depois de meses tentando fazer com que o roteiro acontecesse em inglês, ela percebeu que só iria funcionar se o filme fosse feito em português.

Conexão

Jordana Brewster nasceu na Cidade do Panamá em 1980, filha de Maria João Leal de Sousa — modelo e a única brasileira a estampar a capa da Sports Illustrated Swimsuit Issue, em 1978, fotografada na Bahia — e do banqueiro de investimentos estadunidense Alden Brewster, neto de Kingman Brewster Jr., que presidiu a Universidade de Yale entre 1963 e 1977.

Foi para Londres com dois meses de idade e mudou-se para o Rio de Janeiro aos seis. Saiu do Brasil aos dez, fixando-se em Manhattan, onde estudou na escola católica feminina Convent of the Sacred Heart antes de entrar para a Professional Children’s School. Mais tarde formou-se em Literatura Inglesa em Yale, em 2003 — credencial menos explorada durante boa parte da sua carreira de atriz. Ter essa hereditariedade, brasileira pelo lado materno, intelectual pelo lado paterno, explica muito as decisões anunciadas pela atriz para o seu primeiro roteiro autoral no cinema.

Por todos os endereços por onde Jordana passou depois — Nova York, Yale, Los Angeles, Santa Barbara —, a língua falada, em especial com sua mãe, nunca deixou de ser o português, e português do Brasil, a ponto da atriz referenciar isto por diversas vezes na mídia e usar a bandeira brasileira em sua bio do Instagram, tendo em seguida a bandeira americana mas a brasileira vem primeiro.

Em sua casa sempre se falou português. Numa entrevista de 2009 a um veículo brasileiro, Brewster, então com 29 anos, disse, num português fluente que sentia saudades de Angra dos Reis: das ilhas, da baía, das casas de praia ao sul da cidade. Disse que queria que os filhos “aprendessem para não perder a conexão com o Brasil”, justamente o tipo de elo que uma diáspora pode conservar: bilíngue por intermitência, sentimental por permanência. Hoje, dezessete anos depois daquela conversa, ela está prestes a transformar esse elo em obra.

Santa Barbara e os cadernos

E por que investir agora em escrever um roteiro de filme, depois de tantos anos tocando uma carreira bem-sucedida como atriz em Hollywood? Parte da resposta está numa mudança geográfica e numa rotina que poucos conhecem fora do círculo dela. Aos 40, Brewster deixou Los Angeles e se instalou em Santa Barbara, no litoral norte da Califórnia. “É muito mais com cara de vizinhança, relaxado, as pessoas fazem coisas diferentes”, contou na conversa em Cannes. “Isso me deu perspectiva. E faz com que, quando volto a um set ou estou num festival como este, vire novidade — em vez de ser essa moenda que não deveria ser.”

Foi em Santa Barbara que a engrenagem da escrita começou a aparecer. Brewster passou a entrevistar autores em conversas públicas na Universidade da Califórnia em Santa Barbara (UCSB) e na livraria local Godmothers, em Summerland — espaços que viraram seu campo de prática literária pública. Começou a opcionar livros para adaptação, a estudar o ofício, a fazer pitches por iniciativa própria.

“Eu adoro me debruçar, tomar notas. É um músculo diferente, e era um músculo que eu estava louca para exercitar — porque ele esteve ali o tempo todo”, contou no talk. E justificou o próprio impulso de não se contentar em ficar só atuando. “Percebi recentemente que sou mais feliz quando estou em vários processos ao mesmo tempo. Atores precisam de outra coisa para mastigar, ou enlouquecemos.”

Outra parte da resposta pode estar em declarações dadas pela atriz à revista The Retaility em 2023, em que Brewster revelou que vinha estudando com Jack Grapes, premiado poeta, dramaturgo, ator e professor norte-americano amplamente conhecido por criar o processo criativo chamado Method Writing, em aulas online — descritas por ela, na época, como o tipo de experiência em que “você está diante de vinte pessoas e de repente está compartilhando coisas muito pessoais”.

O projeto de Jordana surge no efervescente ecossistema feminino de criadoras que a atriz vem construindo ao seu redor. Frankie Shaw, atriz e roteirista que criou SMILF para a Showtime, foi sua mentora durante anos. Atualmente, ela trabalha com Molly Rosen, do Brooklyn Writers Collective. Brewster citou durante a conversa Pamela Adlon, criadora de Better Things, como referência.

Além disso, tem na vizinha de Santa Barbara, Catherine Reitman, criadora da série canadense Workin’ Moms, uma amiga próxima e parceira eventual. “Há seis meses, quando as coisas estavam um pouco mais lentas, eu disse ‘Catherine, vamos só criar alguma coisa’.” Ela também menciona Angela Robinson, a diretora de D.E.B.S. (2004), filme em que Brewster contracenou com Sara Foster, além de pelo menos um projeto que “esteve a ponto de acontecer e se desfez”.

Jordana Brewster em talk com Angelique Jackson em Cannes
Hebert Neri

A esse cardápio Brewster acrescentou quais eram as suas principais referências, os filmes de 2024 e 2025 que mais a marcaram — Nightbitch, de Marielle Heller, e If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstein, ambos investigações ferozes da maternidade vista por dentro, escritos por mulheres de mais de quarenta sobre mulheres de mais de quarenta, como hoje é o caso da própria atriz, que inclusive afirmou durante a conversa que gostaria de ver um spin-off de Velozes e Furiosos com foco na criação dos filhos dos Toretto. É um gênero, mas para além disso, é uma tribo.

Projeto “meio autobiográfico”

Ao ser questionada sobre o estágio do projeto, a atriz acabou por revelar informações importantes e inéditas: “Sim, já cheguei ao ponto de estar conversando [com pessoas da indústria]. Quer dizer, o filme se passa no Brasil, e é meio autobiográfico” — essa é a primeira vez em que Brewster conectou as três coisas em voz alta, e “on the record”.

Sobre direção, ela não pretende assumir esse papel. Cita o respeito enorme que tem por Maggie Gyllenhaal e Olivia Wilde — atrizes que fizeram a travessia para a cadeira de direção —, mas confessa que é introvertida demais para gerenciar um set. “Meus filhos já são suficientes”, diz.

Segundo ela, o ideal, disse, é encontrar uma diretora mulher com quem possa trabalhar lado a lado. Como possíveis parceiras na direção deste projeto, nomeou Emerald Fennell, a britânica de Promising Young Woman e Saltburn, como sonho de colaboração “em qualquer função! Eu adoro o humor britânico”, confessa.

Não falou, precisamente, de nomes brasileiros. Mas a vacância está aberta e o cinema brasileiro tem, neste exato momento, uma geração de diretoras, como Anna Muylaert, Petra Costa, Susanna Lira, Caru Alves de Souza, entre outras, trabalhando em territórios temáticos que conversam diretamente com o material que ela descreve querer levar à tela.

Há um detalhe filosófico que Brewster articulou perto do fim do talk, que talvez seja a melhor justificativa para o filme que está prestes a fazer. “Quero escrever algo verdadeiro — e por verdadeiro eu quero dizer: quanto mais específica você for, mais universal o texto fica. Mais as pessoas respondem. Porque todas nós temos os mesmos temas atravessando as nossas vidas.”

Aos 46, depois de vinte e cinco anos interpretando Mia Toretto, a atriz decidiu finalmente escrever uma mulher mais específica e próxima da sua realidade e verdade do que qualquer Mia poderia ter sido. Talvez por isso a história tenha de estar no Brasil, e em português. É de onde vem a especificidade. É de onde, segundo a sua própria fórmula, sairá a conexão com o universal.

Oportunidade

A decisão de Brewster acontece num momento muito específico do cinema brasileiro. Em março de 2025, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, vitória que mobilizou o país inteiro e devolveu ao cinema brasileiro um lugar na conversa global. Dois meses depois, em Cannes no ano de 2025, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, levou Melhor Direção e Melhor Ator (para Wagner Moura). Antes ainda, em fevereiro de 2025, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, havia conquistado o Urso de Prata em Berlim.

Em 2025, segundo dados oficiais divulgados na semana passada pela delegação brasileira presente no Marché du Film em Cannes, foram investidos 1,41 bilhão de reais no audiovisual nacional — recorde histórico. No mesmo ano, 367 filmes brasileiros entraram em cartaz nas salas do país e levaram mais de 11 milhões de espectadores aos cinemas, segundo números divulgados pela Ancine.

A 79ª edição de Cannes mantém a presença brasileira mesmo sem um longa nacional na competição principal. Paper Tiger, do americano James Gray, com Scarlett Johansson e Adam Driver no elenco, disputa a Palma de Ouro com coprodução da RT Features, empresa do produtor Rodrigo Teixeira, a mesma de Ainda Estou Aqui e Me Chame pelo Seu Nome.

Na Quinzena dos Realizadores, La Perra, da chilena Dominga Sotomayor, traz Selton Mello no elenco em coprodução chileno-brasileira. Em Un Certain Regard, Elefantes na Névoa tem produção das brasileiras Bubbles Project e Enquadramento Produções.

Para além disso, a Semana da Crítica selecionou Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, coprodução com a pernambucana Desvia. No Marché du Film, oitenta empresas brasileiras estão representadas, em busca de atrair novos negócios e contar novas histórias tipicamente brasileiras para o mundo. A história de Jordana Brewster pode ser, quem sabe, uma delas.

Futuro

Há, no Brasil de 2026, um novo plano que promete projetar o país e mantê-lo relevante durante os próximos dez anos, apresentado pela Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Oliveira Gonzaga, nesta sexta (15) em Cannes, assim como recursos públicos de fomento ao cinema e à produção cinematográfica em volume recorde.

O cenário futuro inclui isenções fiscais para coprodução, produtoras brasileiras com experiência de Cannes, distribuidoras com porta aberta para projetos com nomes vendáveis na Europa e nos Estados Unidos e muitos talentos Made in Brazil. E este é exatamente o tipo de estrutura que um filme americano-brasileiro escrito por uma atriz internacional, com hereditariedade e laços fortes com o país, precisaria para existir.

E há, sobretudo, um público — brasileiro e estrangeiro — que voltou a se interessar pelo cinema nacional de um modo que há muito não se via. Vale fazer aqui uma distinção que costuma se perder na euforia da temporada de prêmios e entre os principais festivais de cinema mundiais: o cinema brasileiro tem uma relação histórica peculiar com o seu próprio público.

O reconhecimento da crítica internacional ao nosso cinema é uma coisa; a adesão genuína do espectador brasileiro comum — aquele que decide pagar ingresso para assistir, em vez de um blockbuster norte-americano, um filme nacional em sala de shopping na sexta-feira à noite, por exemplo — é outra. E os dois fenômenos raramente coincidem.

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, em 2002, foi um dos raros momentos em que coincidiram — crítica internacional rendida e bilheteria expressiva no Brasil. Tropa de Elite, de José Padilha, em 2007, foi outro: virou fenômeno popular antes mesmo de levar o Urso de Ouro em Berlim, em 2008. Depois disso, o público brasileiro continuou indo ao cinema, mas em geral para prestigiar comédias e franquias domésticas, no Brasil. O chamado “cinema sério” perdeu espaço nas próprias salas durante quase duas décadas. Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, em pouco mais de um ano, conseguiram simultaneamente o aplauso da crítica internacional e a sala cheia no Brasil. É nesse ambiente — e a distinção importa — que o roteiro de Brewster nasce.

Contudo, o que se pode afirmar sobre o projeto de Jordana Brewster é que o roteiro existe e está sendo apresentado para a indústria pela própria atriz. Neste momento, após essa conversa no Carlton, Brewster parte para Montreal, no Canadá, para gravar uma série da Prime Video, Bishop, criada por Little Marvin (de Them), em que faz uma detetive chamada Pat. Em seguida, volta aos estúdios de Hollywood para gravar Fast Forever, décimo-primeiro e último filme da saga, com estreia prevista para março de 2028.

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