Eu já fui workaholic.
Digo “já fui” com algum cuidado, porque o workaholismo dá-nos uma sensação de controlo, sossega-nos a ansiedade, ocupa o silêncio mental e oferece uma estranha sensação de utilidade permanente. Talvez por isso nunca desapareça totalmente e a tendência possa reaparecer em momentos de maior stress, insegurança ou vulnerabilidade.
Durante muitos anos, achei que o meu problema era não conseguir gerir corretamente o famoso work-life balance (equilíbrio trabalho-vida). Criava regras rígidas para mim própria: não trabalhar ao fim de semana; não responder a emails à noite; não abrir o portátil depois de determinada hora. Conseguia cumprir estas regras com uma taxa de sucesso variável. Muito variável.
Mas, com o tempo, comecei a suspeitar que talvez o problema estivesse no próprio conceito de work-life balance, que parte da ideia de que trabalho e vida pessoal são forças rivais, em permanente competição pelo nosso tempo e energia. Como se houvesse uma fronteira nítida entre “vida” e “trabalho”. Como se trabalhar não fosse também uma experiência humana plena e a solução passasse apenas por desligar.
Depois cruzei-me com o conceito de work-life integration e a minha perspetiva mudou profundamente.
A ideia é simples: as diferentes dimensões da nossa vida podem alimentar-se mutuamente, em vez de competirem entre si. Quando estamos emocionalmente bem, intelectualmente estimulados e ligados a outras pessoas, trabalhamos melhor, e vice-versa.
Isto não significa viver permanentemente disponível para trabalhar. Pelo contrário. Significa perceber que descansar não é apenas parar. Muitas vezes, descansar é ativar partes de nós que o trabalho, sozinho, não consegue alimentar.
A literatura sobre work-life integration aponta frequentemente três elementos importantes para um tempo livre verdadeiramente reparador.
O primeiro é aprender algo fora do nosso âmbito profissional. Aprender por curiosidade, por prazer e, idealmente, algo muito diferente daquilo que fazemos todos os dias.
No meu caso, estou a criar uma agrofloresta. Uma agrofloresta não é suposto estar perfeita, existe ali algum abandono intencional. Planta-se, observa-se, intervém-se… e depois deixa-se a natureza seguir o seu ritmo. Suspeito que isto me ensinou mais sobre gestão emocional do que muitos livros de produtividade.
O segundo elemento é cultivar relações significativas, especialmente fora das redes sociais. Vivemos numa era em que é possível passar o dia inteiro “em contacto” com dezenas de pessoas e chegar ao fim do dia profundamente sozinho. Mas comentar stories não substitui um telefonema demorado, mandar um emoji não substitui um abraço e fazer um like numa fotografia de aniversário não substitui presença. As relações significativas continuam a precisar de tempo, contacto e atenção humana. Não apenas de notificações.
O terceiro é desenvolver ou fortalecer a dimensão espiritual ou filosófica. A literatura científica normalmente fala disto em termos mais clássicos: religião, contemplação, meditação, mas eu suspeito que esta categoria é mais ampla.
Para mim, inclui a literatura de ficção. Ler um romance é habitar outras vidas durante algumas horas. É refletir sobre valores, perdas, identidade, medo, amor, envelhecimento e sentido. Curiosamente, a investigação científica tem mostrado que a leitura de livros não técnicos, sobretudo ficção, está associada ao desenvolvimento da empatia, talvez porque nos convida a habitar perspetivas emocionais diferentes das nossas.
Hoje continuo a trabalhar muito e gosto genuinamente do que faço. Mas deixei de olhar para o descanso como ausência de produtividade. Vejo-o como parte dela.
Porque uma vida rica fora do trabalho não compete com o trabalho, sustenta-o. Como raízes invisíveis que alimentam uma floresta inteira, mesmo quando ninguém as vê.
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