Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
O suspense criminal Paper Tiger, o sexto filme de James Gray em competição no festival de Cannes estreou na noite deste sábado (16), no Grand Théâtre Lumière, com longa ovação de pé. Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson protagonizam um filme que já está sendo considerado pela crítica especializada internacional, um dos melhores do gênero produzidos nos últimos anos. E que tem produção brasileira.
O filme é, também, a aposta mais ambiciosa da RT Features no festival deste ano. A produtora de Rodrigo Teixeira, a mesma de Ainda Estou Aqui, divide a coprodução com a americana AK Productions, de Anthony Katagas. Teixeira chamou o filme de “o melhor da carreira de James Gray”.
Uma eventual Palma de Ouro para Paper Tiger seria muito mais do que um prêmio para James Gray. Seria a confirmação, sobre o mais cobiçado palco do cinema mundial, de uma tese que vinha sendo construída há pouco mais de um ano: a de que o Brasil voltou em definitivo ao mapa da indústria cinematográfica global, agora não apenas como tema ou origem de filmes, mas como financiador e estrutura de produção do cinema internacional de elite.
A sequência recente é clara. Em fevereiro de 2025, O Último Azul, de Gabriel Mascaro, conquistou o Urso de Prata em Berlim. Em março, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva, ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, vitória que mobilizou o país inteiro e devolveu ao cinema brasileiro um lugar na conversa global. Dois meses depois, no Festival de Cannes de 2025, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, levou Melhor Direção e Melhor Ator (para Wagner Moura) em uma rara dobradinha. Quatro grandes prêmios em pouco mais de um ano, algo nunca visto na história do cinema brasileiro.
O Brasil só teve um filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes uma vez na sua história, em 23 de maio de 1962, com O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte e estrelado por Leonardo Villar. Cidade de Deus, Tropa de Elite, Bacurau e Aquarius vieram depois e brilharam em festivais internacionais, mas nenhum deles, contudo, saiu de Cannes com o prêmio máximo do festival, nem mesmo O Agente Secreto, que tem mais de 70 prêmios em sua trajetória.
Hebert Neri
Caso Paper Tiger vença em 23 de maio próximo, isto representará exatos sessenta e quatro anos depois da consagração de Anselmo Duarte. O Brasil fará então parte importante desta conquista, mas em uma posição inédita: não como direção, roteiro ou atuação, áreas em que o talento nacional já se destaca, mas como produção, que é a posição estrutural a partir da qual o cinema autoral de prestígio se organiza no mundo de hoje.
Assim, a produtora paulistana tem acumulado créditos de peso ao longo de vinte anos de atuação e agora torna-se também um estudo de caso e uma exceção mundial: uma empresa baseada em São Paulo financiando cinema autoral americano, europeu e, mais recentemente, do Oriente Médio. O que está em jogo em Cannes, portanto, não é apenas um troféu individual, mas a validação simbólica de um modelo de inserção do Brasil na economia do cinema mundial.
Investimentos
A economia da indústria do audiovisual, no Brasil de 2026, vive um momento histórico. Em 2025, foram investidos R$ 1,41 bilhão em recursos públicos no audiovisual nacional, segundo dados divulgados pela delegação brasileira no Marché du Film ao longo desta semana, valor recorde e com crescimento de 29% sobre o ano anterior.
No mesmo ano, 367 filmes brasileiros entraram em cartaz e levaram mais de 11 milhões de espectadores às salas, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). O setor movimentou R$ 70,2 bilhões na economia brasileira em 2024 e gerou mais de 608 mil empregos diretos, indiretos e induzidos, conforme dados oficiais do Ministério da Cultura. Na última sexta (15), em Cannes, a Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Oliveira Gonzaga, apresentou um plano decenal para projetar o setor até 2036.
A Palma de Ouro será decidida no próximo sábado (23) pelo júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook, ao lado de Demi Moore, Ruth Negga, Chloé Zhao, Stellan Skarsgård, Isaach de Bankolé, Laura Wandel, Diego Céspedes e Paul Laverty. Há ainda um sinal externo que reforça a tese de favoritismo: a distribuição na América do Norte ficou com a Neon, que distribuiu as seis últimas vencedoras consecutivas do prêmio. No Brasil, a Diamond Films assumiu o lançamento, com data ainda a ser confirmada.
Se Paper Tiger vencer no próximo sábado, o Brasil terá emendado, em pouco mais de um ano, Berlim, Oscar, Cannes 2025 e Cannes 2026. É uma sequência que poucos países, em qualquer época, conseguiram juntar. Se não vencer, ainda assim a presença do filme em competição reforça uma virada de patamar do cinema produzido a partir do Brasil. O troféu seria a coroação. O movimento que ele representa, esse já está em curso.
Um filme de gênero que parecia ser incapaz de ser produzido
O PÚBLICO Brasil esteve presente nessa estreia mundial do filme, que contou com a presença de quase três mil pessoas entre imprensa, celebridades, convidados e profissionais da indústria do cinema. De pé, após a exibição, o diretor James Gray agradeceu, ao lado de Adam Driver e Miles Teller, visivelmente emocionado. “O cinema precisa de vocês mais do que nunca”. Scarlett Johansson também encabeça o elenco, não pôde comparecer porque está filmando o reboot de O Exorcista. A ausência da atriz na premiere criou um momento bastante inusitado durante esse momento de emoção e aplausos, que durou por volta dos dez minutos: Gray tentou ligar para ela por chamada de vídeo, sem conseguir.
Ambientado no Queens de 1986, Paper Tiger acompanha os irmãos Pearl. Gary (Driver) é um ex-policial sem rumo após um divórcio mal resolvido. Irwin (Teller), engenheiro pacato e pai de família, é o seu oposto: cauteloso, caseiro, avesso a riscos. Uma proposta de negócio ligada à limpeza de um canal os enreda na máfia russa que então começava a se estruturar em Nova York, deslocando os antigos clãs italianos da construção civil. O que parece um drama de classe média vai virando, lentamente, um pesadelo doméstico.
Poucas vezes o cinema recente sustentou tensão e suspense em um filme que fala sobre crime e gangsters com este nível de domínio. O gênero tem sido frequentemente esvaziado e os críticos atribuem a responsabilidade à indústria do streaming, alegando que os roteiros têm sido sufocados em fórmulas previsíveis, sem ideias originais. Pelo que pudemos presenciar nesta premiere em Cannes, Paper Tiger não cabe em fórmula nenhuma. E talvez seja por isso que o espectador, ao longo das quase duas horas de projeção, realmente torça pela sobrevivência daquela família, em vez de assistir à violência como quem confere um relatório.
Há sequências no filme que têm o potencial de se tornarem icônicas. Mas o que distingue Paper Tiger é o que existe entre elas: a relação entre os dois irmãos, a forma como cada gesto, cada decisão, vai corroendo a confiança e o afeto de uma vida inteira.
Paper Tiger entrega personagens fundamentados, vilões que assustam de verdade: era tudo que os críticos estavam em busca de encontrar em um filme de gênero há muito tempo. Os criminosos, em geral reduzidos a caricatura no gênero, aqui assustam de verdade, com mafiosos russos cuja ameaça nunca depende de explicitar a violência, seguindo um caminho diferente de Anora, vencedor da Palma de Ouro em 2024, que transformou os gângsteres russos de Brighton Beach em alívio cômico. Paper Tiger lhes devolve o peso e o medo.
A direção de fotografia é assinada por Joaquín Baca-Asay, colaborador de Gray em We Own the Night (2007) e Two Lovers (2008). Tudo foi filmado em película 35mm. O resultado tem a textura granulada, quente e ligeiramente gasta do cinema americano dos anos 1970, uma escolha que recusa o brilho digital dominante e que, na sala escura do Lumière, produziu o efeito raro de uma viagem no tempo. A montagem de Scott Morris condensa o filme em 1h55, mas a tensão respira como a de uma obra muito mais longa. A trilha original é de Christopher Spelman.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com




