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Enquanto o mundo volta a atenção para o Estreito de Hormuz, para as ameaças entre Washington e Teerã e para o risco de uma guerra regional sem fim, o Sul do Líbano continua preso em uma realidade que desafia qualquer definição honesta de cessar-fogo. O anúncio de uma extensão de 45 dias das negociações entre Israel e Líbano parece mais um exercício diplomático para o mundo ver do que um verdadeiro caminho para a paz.
O Sul do Líbano continua marcado pela destruição, pelo deslocamento forçado e pelo medo constante. Mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas durante a ofensiva israelense e a invasão terrestre no Sul do país. Vilas inteiras permanecem devastadas. Israel ainda ocupa partes do território libanês e continua realizando demolições na região.
Relatos publicados pelo jornal Haaretz descrevem soldados israelenses deixando o Líbano com bens civis saqueados, como motocicletas, televisões, sofás, tapetes, quadros. Os itens roubados, são transportados abertamente em veículos militares, sem sequer a preocupação de esconder o que deveria ser considerado inaceitável sob qualquer norma internacional. Ainda assim, o Líbano parece ter desaparecido do debate global.
Fala-se do Irã. Fala-se de Israel. Fala-se do petróleo, do comércio marítimo e da segurança energética internacional. Mas pouco se fala de um país cuja soberania vem sendo lentamente corroída há anos, esmagado entre interesses regionais e internacionais que transformaram sua população em refém de conflitos que não controla.
O governo libanês tenta negociar com Israel e buscar apoio internacional para reafirmar sua soberania, enquanto o Hezbollah continua operando fora do controle estatal, lançando ataques contra Israel e arrastando o país para uma guerra que muitos libaneses não escolheram.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, foi direto ao afirmar que o país já teve “o suficiente dessas aventuras imprudentes servindo interesses e projetos estrangeiros”. A declaração ilustrou um raro momento em que o Estado libanês verbalizou, quase sem filtros, uma frustração compartilhada por muitos cidadãos: a sensação de que o Líbano deixou de controlar o próprio destino.
Há anos, parte da população observa o Hezbollah agir não apenas como um ator político interno, mas como uma força conectada a interesses regionais maiores, especialmente aos do Irã. Enquanto o governo tenta reconstruir alguma legitimidade institucional e negociar sua soberania diante da comunidade internacional, o país continua preso à lógica de confrontos que ultrapassam suas fronteiras, e cujo preço é pago pelos civis libaneses, alvos de ataques constantes.
A crise no país antecede essa guerra. A explosão do porto de Beirute em 2020 deveria ter sido um ponto de ruptura histórica. Mas o país entrou em um processo perigoso de normalização da tragédia. Desde 2019, o Líbano vive uma combinação devastadora de colapso econômico, corrupção sistêmica, enfraquecimento do Estado, perda de soberania e polarização sectária.
O Produto Interno Bruto (PIB) despencou mais de 38% desde 2019. A moeda perdeu mais de 97% do valor. A pobreza triplicou e já atinge quase metade da população. A dívida pública ultrapassou níveis insustentáveis.
A própria Freedom House descreve a democracia libanesa como um sistema que garante representação sectária, mas limita a competição política real e impede o surgimento de forças cívicas capazes de romper a lógica das milícias e dos interesses confessionais. Nesse cenário, o Hezbollah consolidou influência militar, política e social suficiente para coexistir com o Estado, e, muitas vezes, está acima dele. E, nisso, civis continuam pagando o preço.
Colapso de Gaza
Enquanto isso, Gaza aprofunda a sensação de um colapso moral coletivo que parece já não chocar mais o mundo como deveria. Novos ataques aéreos israelenses continuam matando civis, enquanto a ideia de “cessar-fogo” também parece cada vez mais vazia. O Oriente Médio inteiro vive uma espécie de suspensão permanente entre guerra e diplomacia, onde acordos frágeis servem apenas para administrar crises, nunca para resolvê-las.
Há também uma disputa silenciosa por protagonismo regional. A Arábia Saudita tenta se reposicionar como mediadora diplomática relevante, apoiando iniciativas de negociação e buscando demonstrar liderança num Oriente Médio cada vez mais fragmentado. Os Emirados Árabes Unidos aprofundam relações estratégicas com Israel. O Irã reforça sua rede de influência regional. E o Líbano permanece no meio desse tabuleiro: vulnerável, fragmentado e frequentemente esquecido.
A pergunta central continua sem resposta: Israel realmente deixará o sul do Líbano? E, mesmo que deixe, o que restará?
Retirar tropas não reconstrói casas destruídas. Não devolve estabilidade econômica. Não restaura instituições fragilizadas. Não resolve a existência de uma força armada paralela. Não devolve dignidade a uma população exausta por décadas de guerra, corrupção e abandono internacional.
E o perigo maior talvez seja justamente esse: a normalização da crise libanesa. O mundo parece ter aceitado que o Líbano viva permanentemente à beira do colapso. Como se explosões, deslocamentos, destruição e crises econômicas fossem apenas parte inevitável da identidade do país. Ou como se os libaneses tivessem sido condenados a sobreviver eternamente entre tréguas frágeis e guerras inacabadas. Mas o Sul do Líbano não está em paz. E chamar isso de cessar-fogo talvez seja apenas uma maneira mais confortável de fecharmos os olhos e aceitarmos a barbárie.
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